Sala de Prensa

118
Agosto 2009
Año XI, Vol. 5

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   


O Jornalismo entre a dúvida e a incerteza:
reflexões sobre a natureza da atividade

Rogério Christofoletti *

RESUMEN: El periodismo es una actividad que, aunque ha consolidado sus bases, siempre necesita revisar sus procedimientos para reafirmarse y fortalecerse como campo social y como práctica colectiva. Conceptualmente, el periodismo debe apelar a la filosofía y al arsenal teórico que esta área le proporciona. La remisión a Descartes es estratégica porque incorpora la duda como modus operandi. Por otra parte, la remisión a Heisenberg confiere al periodismo incertidumbres fundamentales. Palabras-clave: Periodismo – Teorias del Periodismo – Filosofía. ABSTRACT: Journalism is an activity that, although it has consolidated its bases, always need to revise procedures in a way to reafirm and fortify itself as a social field and a practice of collective relevance. For this purpose, conceptually, journalism must appeal to philosophy. The remission to Descartes is strategical because it incorporates doubt as a modus operandi on a daily activity basis. On the other hand, the recurrence to Heinsenberg is important in helping to achieve a clearer dimension of journalism itself. Keywords: Journalism – Journalism´s Theory - Philosophy. RESUMO: O jornalismo é uma atividade que, embora tenha consolidado suas bases, precisa sempre revisar seus procedimentos de forma a reafirmar-se como campo de atuação social e a fortalecer-se como prática de relevância coletiva. Para isso, ao menos no plano conceitual, o jornalismo deve recorrer à filosofia e ao arsenal teórico que esta área lhe proporciona. A remissão a Descartes é estratégica porque incorpora a dúvida como modus operandi no cotidiano da atividade. Por outro lado, a recorrência a Heisenberg permite que o jornalismo não se prevaleça como centro imutável das certezas humanas. Palavras-Chave: Jornalismo – Teorias do Jornalismo - Filosofia.

Um das histórias mais conhecidas sobre o tema da dúvida envolve o Tomé  bíblico. Quando lhe dizem que seu mestre ressuscitara, o apóstolo rechaça a hipótese, admitindo-a apenas se constatada pela visão e pelo tato, sentidos auxiliares da sua razão. Só tocando e vendo o corpo à sua frente, o homem simples que vivia como pescador confiaria no retorno de Jesus à vida. O traço humano mais evidente da passagem de Tomé pelos quatro evangelhos – a dúvida – cristaliza-se em um estigma, e o discípulo passa a ser conhecido como o “incrédulo”, o santo do “ver para crer”1.

Similar ao episódio é a suspeita dos guardas frente à aparição de um vulto nas cercanias do castelo de Elsinor, em Hamlet, de William Shakespeare. Estupefatos, os soldados não crêem no que se mostra a eles mais de uma vez. O príncipe da Dinamarca também duvida, até que o fantasma de seu pai aparece e lhe conta sobre a própria morte.

Nas duas histórias, aquilo que é difícil de aceitar como verdadeiro aparece de forma sobrenatural: é um anjo ou uma visão, espírito ou fantasma. Entidades que burlam as regras da natureza e que se colocam no mundo dos vivos e das aparências para trazer revelações, denúncias. Nos dois casos - e em muitos outros -, a dúvida é a chancela da verdade; a condição de legitimação de uma suspeita; o elemento que vai sustentar a assertiva, já que a coloca em prova: num primeiro momento, a dúvida reforça a desconfiança, mas depois, serve de etapa probatória da verdade. Se a afirmação sobrevive ao teste da dúvida, do questionamento, ela ganha contornos de verossimilhança, passaporte para um perfil de veracidade2. A dúvida é capital para quem busca certezas. A instabilidade do questionamento e a angústia da incerteza parecem funcionar como estágios de um ritual, de um processo de encontro das verdades. É preciso passar por eles até se alcançar o conforto, a calmaria da certeza.

Para cientistas, filósofos ou mesmo jornalistas, certas certezas são fundamentais. Neste sentido, a dúvida tem papel importante em suas buscas cotidianas. Para observar como isso se dá, é preciso, no entanto, percorrer alguns caminhos ancestrais, a começar pelo trilhado por Descartes nos séculos XVI e XVII.

A dúvida e o método

Os historiadores da filosofia demarcam que a escola do racionalismo nasce com Descartes. Isto é, o estabelecimento de uma conduta humana e de sua estruturação em pensamento apoiadas na razão surge a partir das idéias deste francês nascido no final do Século XV. Mas, para além do que possamos imaginar hoje, este é um tempo não só de euforia econômica e de descobertas marítimas, mas de forte opressão da Inquisição. E embora “a razão constitua cada homem”, a Igreja é quem sempre tem razão...

Sociável e inteligente, Descartes freqüenta as cortes e as rodas intelectuais onde se discutem as idéias de Galileu e Pascal, que estremecerão as cúpulas de igrejas e governos. Com nítido talento matemático, Descartes se dedica a estudos da área, mas aventura-se (com êxito) na Óptica e Biologia, contribuindo com seus insights e modelos explicativos. Alguns que se mantêm até hoje, conforme se pode ver nas neurociências. O filósofo será o primeiro a defender o conceito dual de corpo e mente, propondo um lugar para ela. As bases cartesianas vão nos permitir quatro séculos depois discutir noções como consciência, emoções e ações voluntárias (cf. DAMÁSIO, 1998)

Em 1619, Descartes passa um inverno aquartelado em Ulm, Neuburgo, onde acaba se relacionando com o matemático Johannes Faulhaber, que já havia publicado obras relacionadas à aritmética e à Ordem Rosa-Cruz. Para Stephen Gaukroger, que escreveu o que chamou de biografia intelectual de Descartes, este encontro “marcou o início de sua teoria geral do ‘método’” (1999:145).

É a partir daí que o filósofo francês passa a trabalhar nas Regulae ad directionum ingenii (Regras para a direção do espírito), que só seriam mesmo publicadas após a sua morte. Na verdade, elas não foram redigidas para que fossem editadas, embora o tivessem sido apenas em 1684, em holandês. Entretanto, mesmo que o público não tivesse tido acesso às regras, seu autor já estruturava seu pensamento num corpo coerente de pensamentos: as regras primavam pela unidade do conhecimento, alertavam para a necessidade de um método para dirigir as ações humanas, e explicitavam as etapas desse método. Segundo elas, assuntos complexos deveriam ser decompostos em outros mais simples, e depois separados em absolutos e relativos, comparando-os3.

É interessante perceber como a questão do método envolve Descartes, a tal ponto de colocar estudos e pesquisas que deveriam ser figuras de proa em sua produção em segundo plano, principalmente na década de 30 do século XVII. Na primavera de 1635, o autor passa a trabalhar no Discours de la Méthode, que deveria ser um prefácio a outros dois ensaios: Dioptrique, um tratado prático para construção de instrumentos ópticos, e Météors, obra composta por discursos acerca dos fenômenos meteorológicos. O prefácio ganhou corpo e acabou absorvendo os trabalhos precedentes, que se tornaram acessórios. O Discurso do Método se transformou na obra mais importante de Descartes e na pedra de fundação da filosofia da consciência.

A importância da incursão de um método precisa ser dimensionada no seu contexto histórico. O século XVII ainda respira as névoas do obscurantismo europeu, a Igreja domina a civilização ocidental, dando a ela sua conformação e base. Em termos paradigmáticos, a grande influência metodológica ainda era Aristóteles, passados já dois mil anos4. É neste cenário que se deve considerar o peso da pedra que Descartes atira sobre o lago do pensamento humano.

    Dentro do universo cartesiano, nenhuma crença resiste ao processo de dúvida. O questionamento é o motor, o primeiro toque. Descartes vê no ato de duvidar uma outra ação: pensar. Para ele, a consciência está no ato do pensamento. Para ele, não é possível separar a prática de um ato de consciência de ter consciência propriamente. Aí, sim, chega-se a algo indubitável. E como toda ação pressupõe um agente, temos aí o nascimento do sujeito da consciência. Para Raul Landin Filho (1996), a descoberta da indubitabilidade do enunciado “Eu penso” e, por extensão, “o reconhecimento da prioridade dos atos mentais sobre os atos que envolvem o corpo ou os objetos externos à mente é um dos mais importantes legados da filosofia cartesiana”.

    É a partir da dúvida que os objetos e as realidades vão se configurar no prisma cartesiano. Quando se pensa e se pensa que se está pensando algo, temos ali uma consciência pensante, uma unidade chamada sujeito. Tudo o que está exterior a ela é extensão do mundo. Para investigar cada objeto, é preciso duvidar, pôr-se a questionar. O apego a este método dá a segurança que os racionalistas precisam. Se o método não dá solução de tudo, ele pelo menos ajuda a encontrá-la.

Jornalismo e cartesianismo

O Jornalismo busca certezas. O relato dos acontecimentos mais importantes de uma comunidade precisa ter uma correspondência clara com o que se pode considerar como a real ocorrência dos fatos. Não se admite um descolamento entre o informe e a situação relatada. O Jornalismo existe para dar conta do real, conter o que de mais importante aconteceu, mostrar o que é relevante, denunciar o que está encoberto, organizar – de certo modo – o caos sígnico onde homens e mulheres estão mergulhados. Jornalismo se apóia em narrativas cotidianas, que se diferenciam das encontradas na literatura pelo seu estatuto de veracidade. Isto é, as histórias que nos chegam pelos jornalistas devem estar lastreadas a verdades. Ou por porções bem generosas delas.

Este apego à verdade tem evidente inspiração nos campos da ciência e dos saberes totalizantes. A preocupação de cientistas de verificar a confiabilidade de certas teorias, de tentar explicar fenômenos com modelos, de testar hipóteses até chegar a formular regras físicas de funcionamento do universo é reeditada no Jornalismo. Numa escala menor, é claro, e com outros estatutos de rigor metodológico. Jornalistas se preocupam em verificar a autenticidade de certas versões dadas por suas fontes de informação; tentam explicar acontecimentos, muitas vezes, apoiados em diagnósticos de especialistas; retornam a alguns assuntos e instigam os envolvidos para se certificar que tais relatos foram os mais fiéis à realidade.

Tal como historiadores, arqueólogos e geólogos, jornalistas preocupam-se com a reconstituição de certos cenários e episódios acontecidos no passado. Voltam às fontes, recorrem a documentos, perseguem vestígios, confrontam versões, observam discrepâncias. Cercam-se de certezas para refazer a situação enquanto relato. Como quem monta um quebra-cabeças, jornalistas se ocupam de encontrar peças que possam se encaixar e que permitam uma visão mais abrangente do todo (ou da parte que mais interessa). O problema é que nem sempre temos acesso a todas as peças – ou até mesmo às mais importantes. Outro impasse é que não é sempre que o montador encontra condições (profissionais, operacionais, de competência, de interesse) para se debruçar sobre aquele jogo. Sobram peças embaralhadas e um desenho incompleto...

O vínculo umbilical com a busca da verdade é um traço do Jornalismo na sua definição hegemônica atual. Mas subjaz nesta procura uma outra semente: a dúvida. O questionamento permeia a atividade cotidiana dos profissionais, seja sob a forma das perguntas em uma entrevista, seja sob a mais banal abordagem de um repórter. Jornalistas são pessoas que perguntam, que tentam saber coisas, que buscam dados para transmiti-los adiante. A dúvida está entranhada na rotina das redações, impressa nas paredes dos estúdios, tatuada no bloco de anotação que repousa no bolso do repórter.

Esta assertiva mais parece uma banalidade para quem acompanha o fazer jornalístico, mas é fundamental que se a compreenda como uma questão de método. No Jornalismo, a dúvida orienta os demais procedimentos metodológicos. Neste sentido, não é exagero admitir que o Jornalismo serve-se de fontes cartesianas para se constituir enquanto campo autônomo de fazer, ser e compreender a realidade.

Mas o método no Jornalismo é algo recente. O Jornalismo só  surge como técnica na virada do século XIX para o XX. A expansão capitalista permite que se desenvolva nos Estados Unidos e em alguns países da Europa uma indústria dos jornais, coletivo que vai precisar se estruturar para atender à crescente demanda por informações na sociedade industrial contemporânea.

Tais modificações vão se dar tanto nos aspectos fabris – com o desenvolvimento de novas máquinas e equipamentos e uma reengenharia nas plantas dos parques gráficos – quanto nos relativos à participação humana no processo produtivo. Assim, implanta-se nas redações um sistema fordista-taylorista5, padroniza-se uma série de procedimentos na confecção das notícias e na logística de sua distribuição6, estabelece-se uma rotina operacional (com horários de fechamento em conformidade com a capacidade de produção da gráfica), definem-se linhas editoriais e estruturas para o texto jornalístico.

As linhas editoriais tornam-se guias internos das empresas e, mais tarde, vão redundar em manuais de redação e estilo, que sinalizam como se pratica Jornalismo naqueles veículos. O lead é desenvolvido e se impõe como padrão de organização das informações num relato escrito. Alguns padrões de conduta vão se cristalizando entre os jornalistas e isso ajuda na definição de um ethos profissional, no desenho de um perfil mínimo deste trabalhador. Os valores morais e éticos vão emergindo: o apego à verdade, a defesa da liberdade de expressão, a preocupação com a correção da informação, uma atitude perene de desconfiança, um senso crítico frente ao mundo e às pessoas, o compromisso com a fiscalização dos poderes, a independência editorial, um contínuo questionamento sobre as versões e sobre os fatos...

Esses valores morais vão desdobrar certos procedimentos, como a checagem –muitas vezes exaustiva - das informações, a confrontação de versões e a investigação jornalística. Em todos eles, está difusa a dúvida, a indagação sobre a veracidade e a sustentação real de falas e acontecimentos.

São muitas as correspondências entre as leis cartesianas para bem conduzir um espírito (ou uma mente) e as regras para se exercer bem o Jornalismo (ou de uma forma próxima da ideal). No Discurso do Método, Descartes aponta que assim como um Estado se governa bem com poucas leis, ele se impunha a observância de quatro preceitos em seu percurso filosófico (cf.: 1977:35):

  • Não receber como verdadeira qualquer coisa que ele não conhecesse evidentemente como tal;
  • Dividir cada dificuldade que examinasse em tantas parcelas mais fáceis a fim de resolvê-las;
  • Conduzir o pensamento por uma ordem crescente de dificuldade, partindo dos elementos mais simples até os mais complexos;
  • Fazer revisões gerais e retornar a certos pontos diversas vezes para se certificar de que nada ficou para trás.

     As gramáticas jornalísticas têm forte acento cartesiano na medida em que orientam os profissionais a:

  • Não aceitarem versões sem as checar devidamente, sempre duvidando do óbvio e cercando-se de provas ou indícios que as sustentem;
  • Sistematizar as informações coletadas, agrupando campos de dados relativos a certos assuntos, formando assim retrancas de textos ou blocos de interesse;
  • Hierarquizar as informações, trazendo de imediato os dados mais essenciais, mais importantes e desdobrando os detalhes acessórios e mais aprofundados depois, na autêntica estrutura de pirâmide invertida;
  • Cuidar para que nada de relevante no assunto deixe de ser tratado na matéria.

O que se percebe, além da clara correspondência entre as diretrizes de um lado e outro, é a condução do processo de busca da verdade em nome da clareza, da nitidez e da distinção de cada parte do todo a ser apreensível.

Tanto no método cartesiano quanto no dos jornalistas, decomposição e de síntese estão a serviço da melhor compreensão de uma idéia ou uma história. Em ambos, o encadeamento das informações (simples e complexas) se organiza para melhor transmitir um conteúdo, e repassá-lo sem uma veracidade suspeita. A dúvida é o princípio do trabalho, mas não pode ser um dos dividendos da busca.

Tanto no Jornalismo como nas Regulae ad directionum ingenii (Regras para a direção do espírito) de Descartes, a intuição tem o seu papel, mas sempre a sua atuação se dá a serviço do trabalho racional de encontro da verdade, da informação fidedigna, da melhor maneira de se contar como algo aconteceu. Jornalistas e filósofos têm feeling, têm faro, intuem sobre determinados casos ou questões. Mas intuir é cismar, é operar sobre o imaginável, é indagar e, portanto, agir numa sucessão de pensamentos e organizações racionais desses objetos. Na Regra 10 das Regulae, o pensador francês critica a tentativa de se descobrir verdades por meio de silogismos, o que seria exercer mais a dedução do que testar hipóteses e chegar à essência do que se busca. No Jornalismo, deduzir, muitas vezes, significa pré-julgar, definir razões sem ao menos verificá-las, o que também é uma prática condenável, sendo rechaçada pela categoria.

Diante disso, não é demais considerar o Jornalismo como um signatário do cartesianismo. O Jornalismo nasceu e se desenvolveu no rastro do capitalismo, cresceu alimentado pela forma de vida das sociedades industriais, fortaleceu-se com a organização positivista dos saberes e amadureceu com a implementação de uma racionalidade moderna. A raiz cartesiana, portanto, não lhe é um fardo, é um traço constitutivo da sua natureza.

Heisenberg e a incerteza

Se a dúvida era uma noção cara a Descartes no século XVII, trezentos anos mais tarde, ela vai permanecer no centro do debate intelectual. Mas com uma nova roupagem, sob um sinônimo mais elegante e num campo mais definido: a Física. Em 1926, Werner Heisenberg arrepia os cabelos das mentes mais brilhantes da ciência mundial com o seu Princípio da Incerteza. Na tentativa de cobrir lacunas na Teoria Quântica, a explicação pretendia dar conta da velocidade e da localização de um elétron num átomo.

Segundo o princípio, quando se observa um átomo, não é possível determinar onde está e a quanto viaja um elétron em sua órbita. Sabe-se que ele está lá, que se move ao redor de um núcleo formado por outras partículas, mas, em escala subatômica, é incerto assinalar tais valores. “O fato de existirem limitações dessa ordem, impostas pela própria teoria à medida de, por exemplo, posições e momentos de partículas perturbou profundamente Einstein”, afirma Jeremy Bernstein (1991:158). Curioso é que o próprio Heisenberg relatou ter tido inspiração para formular o Princípio da Incerteza a partir de uma conversa que teve com Albert Einstein na metade dos anos 20.

Heisenberg ainda achava que ‘Einstein sustentava as concepções positivistas preconizadas por Mach – a idéia de que todas as quantidades que integram uma teoria física devem ter ‘definições operacionais’, em termos de instrumentos de medida – que caracterizaram a análise conducente à teoria especial’. Não se dera conta de que Einstein havia abandonado essa posição muitos anos antes, quando procurava formulação final para a teoria da gravitação. Assim, grande foi o espanto de Heisenberg, quando Einstein indagou: ‘Mas você acredita seriamente que só magnitudes observáveis devem integrar uma teoria física?’ (Bernstein, idem)

Heisenberg respondeu que o próprio Einstein havia raciocinado daquela forma a respeito da relatividade anos antes. Mais especificamente sobre a natureza do tempo e a impossibilidade de existir um tempo absoluto, já que ele seria inobservável. Em sua autobiografia, Heisenberg reproduz a resposta que teria provocado um clarão em seu cérebro, abrindo caminho para a solução do Princípio da Incerteza:

É possível que eu tenha usado esse tipo de raciocínio – admitiu Einstein -, mas ele é absurdo, de qualquer maneira. Talvez eu possa expressá-lo de maneira mais diplomática, dizendo que é heuristicamente útil ter em mente o que de fato se observou. Mas, em princípio, é um grande erro tentar fundamentar uma teoria apenas nas grandezas observáveis. Na realidade, dá-se exatamente o inverso. É a teoria que decide o que podemos observar. (1996:78)

Numa certa madrugada de 1926, Heisenberg tornou a se lembrar da frase que invertia os pólos de seu pensamento até então. Para ele, um cientista que investigava os movimentos da natureza, as medidas é que davam as certezas. As medidas é que ajudavam a explicar os fenômenos com convicção. Em outras palavras, o método produzia a certeza, a verdade, solucionava problemas. Tal como Descartes, trezentos anos antes! Mas se para o filósofo francês a dúvida deu sustentação ao método, para o físico alemão, o método mostrava-se insuficiente para dar a certeza.

Cientista com disposição atlética, Heisenberg quis caminhar naquela madrugada pelo Parque Faelled, em Copenhague. Precisava pensar sobre tudo aquilo. Mentalmente, passou a revisar cada um dos passos dos testes que fazia no laboratório, onde tentava observar a trajetória de elétrons numa câmara de nuvem. Num dado momento, fez-se a pergunta: A mecânica quântica pode representar o fato de um elétron estar aproximadamente num lugar e a uma certa velocidade? (É importante perceber que Heisenberg disse “aproximadamente”. Isto é, com certa imprecisão, sem valores absolutos, com algum grau de certeza, mas não toda. Eis a incerteza!) Horas depois, de volta ao laboratório, Heisenberg debruçou-se sobre cálculos que logo atestaram que era possível se chegar a uma proposição que lhe servisse7.

A fórmula era a ponte necessária entre  as observações da câmara de nuvem e a linguagem matemática da física quântica. É claro que ainda faltava provar que qualquer experimento estaria de acordo com o Princípio da Incerteza, mas isso era uma segunda etapa. Afinal, Einstein não disse que a teoria é quem decide o que se deve observar?

Para a física quântica, as partículas subatômicas não obedecem às leis da física clássica. Elétrons, por exemplo, podem existir como duas coisas diferentes: tendo aspecto de matéria e de energia. Nesta nova Física, a luz é partícula e é onda, já que tem freqüência e se propaga em ondas e é formada por ondas-partículas, isto é, quanta. Essa ambigüidade da Teoria Quântica perturba a lógica linear e monolítica da Física clássica, o que ainda provoca atritos entre os pesquisadores.

No caso específico de Heisenberg, sua proposição deixa evidente que nem mesmo as medidas podiam assegurar certeza total em níveis subatômicos. Por exemplo, elétrons são partículas tão minúsculas que

independentemente de como se tentava aferir seu comportamento, a forma de efetuar a medição afetava esse comportamento. Caso se lançasse luz sobre um elétron, de modo a se poder ‘vê-lo’, isso inevitavelmente o colocava fora de curso, afetando sua velocidade ou sua posição. (cf. Strathern, 1999, p.74)

A instabilidade provocada pelos avanços da Teoria Quântica incomodou até mesmo Einstein, o mais notório dos cientistas numa época de revoluções na área. “Deus não joga dados!”, repetia a quem teimasse atestar a validade do Princípio da Incerteza. Não poderia ser diferente. Ele passara a vida investigando o mundo objetivo com coordenadas de tempo e espaço, segundo leis exatas que ignoravam a existência e interferência humana. Desde que Galileu disse que o livro da natureza fora escrito em caracteres matemáticos, tinha-se como certo que esta linguagem representava o mundo objetivo e isso permitir aos físicos fazer afirmações sobre o futuro comportamento desse mundo. Agora, dentro do átomo, “esse mundo objetivo do tempo e do espaço nem sequer existia, e os símbolos matemáticos da física teórica referiam-se a possibilidades, e não a fatos” (Heisenberg, 1996: 98).

Esta discussão – que parece intrínseca aos embates epistemológicos da Física – envolve, na verdade, muito mais terreno. Tem relação com objetividade, certezas e verdades de um lado; e com instabilidade, dúvida e subjetividade, de outro.

O advento do Princípio da Incerteza é apenas a ponta visível de um iceberg de crises paradigmáticas. Abaixo dela está uma montanha de questionamentos a certezas antes inabaláveis, que logo virão à tona. O anúncio de Heisenberg provoca uma fissura perigosa no colosso das certezas universais porque revela a fragilidade destas convicções. Por essa trinca, pode-se entrever insegurança, instabilidade, desconforto. Permanece uma sensação desagradável parecida com uma vertigem, que traz consigo falta de discernimento, inexatidão, imprecisão.

O Jornalismo entre a dúvida e a incerteza

Um dos cânones do Jornalismo é a exatidão das informações, a correção dos relatos, a fidelidade do informe com o acontecido. O mundo do Jornalismo (sua função social, sua justificativa ética e boa parte de seus procedimentos técnicos) se sustenta na crença e nos esforços dos profissionais para reportar com precisão. Esta atividade moderna se expandiu no mundo e consolidou-se enquanto campo autônomo na esfera pública à base do compromisso do jornalista com a verdade e com seus detalhes. Imaginar o Jornalismo como uma máquina distribuidora de incertezas e ambigüidades é mesmo muito difícil para o imaginário popular. Que dirá para quem está diretamente ligado à reflexão e à manutenção desse valor?

Tal como os paradigmas científicos, as bases do Jornalismo também sofreram abalos no último século. Sua habilidade em relatar objetivamente os fatos é questionada; pairam dúvidas sobre sua capacidade de manter isenção editorial frente a pressões políticas e de mercado; e mesmo o próprio conceito de verdade – com o qual o Jornalismo trabalha – é, hoje, desacreditado. Com pilares desgastados, o Jornalismo se vê diante de quatro cenários distintos, mas que têm correlação mútua:

  • O perigo de um fracasso enquanto ideal de função. Com a crise dos valores que o formam, o Jornalismo corre o risco de não satisfazer a seus imperativos éticos e de não funcionar como esperado. Se repórteres não relatam os fatos com a veracidade anunciada, qual a sua função numa sociedade ansiosa por informação?
  • A proximidade de uma grave crise de confiança. Há décadas, crescem e se disseminam as críticas aos veículos de comunicação e aos profissionais envolvidos no processo informativo. Este é um sintoma claro de que algo não vai bem. Com o aprofundamento nas indagações sobre os valores que servem de base para o Jornalismo, a tendência desta crise se tornar crônica é mais real. Como conviver com as pressões e expectativas de um público cada vez mais ciente de seus direitos à informação e mais conhecedor do funcionamento do circo da mídia?
  • A emergência de mudanças estruturais e de revisão de paradigmas. A decorrência natural de uma situação constante de cobrança é a tomada de atitudes mais concretas. Assim, repórteres, redatores e editores devem se sentir instados a mudar, buscando novos procedimentos, estabelecendo outras rotinas de trabalho e mesmo rediscutindo padrões deontológicos.
  • O temor de uma convivência com elementos estranhos à sua gênese, mas que já contaminam seus alicerces. Se a velocidade e o processo de acumulação dos acontecimentos atropelar o poder de aglutinação da categoria e inviabilizar muitas das mudanças pretendidas, o cenário é desalentador. Além de precisar se adaptar a novas condições, os profissionais terão ainda que se habituar a práticas que já corroem as fronteiras de delimitação do Jornalismo: a cada vez mais freqüente confusão entre informação e entretenimento, a ditadura da medição da audiência, a prevalência das leis de mercado como reguladoras de litígios, o embaçamento do limite entre Jornalismo e Publicidade...

Qualquer que seja o cenário a ser enfrentado pelo Jornalismo, uma condição é subjacente: valores como objetividade e verdade precisam ser reavaliados. Não há como contornar o impasse. O Jornalismo precisa enfrentar a discussão sobre sua relação como mediador social, repensando o que é um relato preciso, o que significa reportar fatos com objetividade. Se o Jornalismo se ocupa de certezas, e se as indagações acerca da participação da subjetividade emergem com força crescente, não mergulhar nesta busca pode comprometer ainda mais a função desse campo profissional. Se até mesmo os cientistas vêm mergulhando nestas escuras águas, por que jornalistas – que sempre se espelharam nos primeiros para definir método e conduta – iriam se esgueirar?

Heisenberg reflete sobre a dose de subjetivismo presente em suas contribuições. Segundo ele, a teoria não contém características subjetivas genuínas. Mas ela começa

pela divisão do mundo em ‘objeto’ e o resto do mundo e, também, do fato de que, pelo menos para o ‘resto do mundo’, utilizamos conceitos clássicos em nossa descrição. Essa divisão é arbitrária e, historicamente, uma conseqüência direta do método científico; a utilização de conceitos clássicos é, afinal, uma conseqüência da maneira geral de o ser humano pensar. Mas isso já constitui uma referência a nós mesmos e isso na medida em que nossa descrição não é completamente objetiva. (1999: 82)

    A divisão entre subjetivo e objetivo, portanto, parece ser mais complexa do que se supõe, acredita o físico alemão. As fronteiras que separam os dois latifúndios parecem mais porosas, crivadas de entradas e saídas, através das quais acontece uma mútua contaminação. De acordo com o mesmo Heisenberg (op.cit.: 112-113), a divisão cartesiana sobre o pensamento humano “dificilmente poderá ser exagerada”, e é justamente o que se deve criticar. Ele prossegue, lembrando que, segundo a interpretação dos cientistas que como ele trabalhavam em Copenhague, é possível falar de Teoria Quântica sem se mencionar como indivíduo, embora não se possa ignorar que a ciência é feita por pessoas, que trazem consigo traços de subjetividade.

A ciência natural não se restringe simplesmente a descrever e explicar a Natureza; ela resulta da interação entre nós mesmos e a Natureza, e propicia uma descrição que é revelada pelo nosso método de questionar. Essa foi uma possibilidade que não poderia ter ocorrido a Descartes, mas que torna impossível uma separação bem nítida entre o mundo e o ‘Eu’. (op.cit.:115)

Já  se disse aqui que o Jornalismo tem raízes cartesianas, e que esta condição ajuda a dar os traços distintivos de sua natureza. Já se disse também que há uma crise de paradigmas na ciência e no próprio Jornalismo, o que provoca inquietações de lado a lado. Afirmou-se ainda que as contribuições de Descartes funcionam como fundações para a construção moderna do pensamento ocidental. Ao mesmo tempo, apontou-se para a necessidade de viver a crise de valores e de perceber que, mesmo na ciência, saídas estão sendo buscadas. O Princípio da Incerteza é um exemplo da engenhosidade do raciocínio e uma forma de como pontes entre razão e empirismo podem ser construídas.

Neste percurso reflexivo, proponho não descartar Descartes, mas enraizar Heinserbeg. Como o Tomé bíblico, alimento minhas suspeitas com perguntas. Até chegar às respostas – se não definitivas, pelo menos mais acalentadoras -, será preciso duvidar mais e mais, pois este é o motor da busca do conhecimento. Entretanto, com uma tolerância maior no convívio com a incerteza.

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Referências:

BERNSTEIN, Jeremy. As idéias de Einstein. São Paulo: Cultrix, 1991
CHRISTOFOLETTI, Rogério. A medida do olhar: autoria e objetividade na reportagem. Tese de doutorado. ECA/USP, 2004
DAMÁSIO, António. O erro de Descartes. São Paulo: Cia das Letras, 1998
DESCARTES, Renée. Discurso do Método. Sintra: Publicações Europa-América, 1977
Gaukroger, Stephen. Descartes: uma biografia intelectual. Rio de Janeiro: Editora da UERJ e Contraponto, 1999
HEINSENBERG, Werner. A parte e o todo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996
HEINSENBERG, Werner. Física e Filosofia. Brasília: UnB, 1999. 4ª edição
LANDIN FILHO, Raul. O destino da revolução racionalista. Folha de S. Paulo. São Paulo, 24 de março de 1996. Mais! p.11
STRATHERN, Paul. Bohr e a teoria quântica em 90 minutos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999

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Notas:

1 Algumas das principais reflexões neste artigo tiveram lugar inicialmente na Tese de Doutoramento do autor junto à Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (CHRISTOFOLETTI, 2004). Este texto foi publicado no Brasil na Comunicação & Sociedade, Ano 30, nº 50, pp. 203-220.
2 O mesmo se dá nas discussões da filosofia da ciência. Principalmente no caso da crítica de Karl Popper aos critérios de verificação científica dos empiristas lógicos do Círculo de Viena, no começo do século XX. A eles, Popper opõe princípios que apontam para a refutabilidade de uma teoria científica.
3 Mesmo nesta brevíssima apresentação das Regras para a direção do espírito, é fácil observar como há um paralelo entre a filosofia cartesiana e o modus operandi dos exames anatômicos. Este parentesco pode ser explicado pelo fato de Descartes ter estudado e pesquisado fisiologia. Para o pensador francês, analisar é esmiuçar, dissecar questões...
4 Para Gaukroger (op.cit.), a contribuição metodológica de Francis Bacon não é ignorada nem mesmo por Descartes. Entretanto, Aristóteles é um autor com mais vulto e permanência do que o contemporâneo racionalista...
5 Caracterizado pela segmentação de funções, onde cada indivíduo se ocupa de uma tarefa específica, e o conjunto dos profissionais forma uma linha de montagem industrial. A idéia que se tem na base disso é a de que alguém pode executar melhor uma determinada função se ficar concentrado nela. Se todas as peças da engrenagem funcionarem, a máquina toda opera bem.
6 As agências internacionais de notícia são os resultados mais bem acabados disso.
7 A expressão seria: o produto das incertezas dos valores da posição e do momento não pode ser inferior à constante de Planck, ou um quantum de ação.


* Rogério Christofoletti e doutor em Ciências da Comunicação, vice-coordenador do Mestrado em Educação na Univali, Brasil. Autor de Ética no Jornalismo (Ed. Contexto, 2008), entre outros, e de artigos no Brasil, Portugal, Peru, Colômbia e Equador. Es colaborador de SdP.


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