Sala de Prensa

117
Julio 2009
Año XI, Vol. 5

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   


Notícias do Outro quando lá fora
(ou as gaiolas catódicas de Ota Benga)

Dinis Manuel Alves *

Os meios de comunicação ocupam, hoje em dia, um lugar estratégico de mediação dos discursos dos actores sociais e institucionais, mediação que corre a par com uma propalada debilidade das instituições de representação política tradicionais. Assiste-se a uma reconfiguração das mediações, como defende Barbero (1998: XIV), os meios de comunicação não se limitando ao singelo papel de veiculadores das representações existentes, passando a ser encarados também como actores incontornáveis da vida pública.

Actores com palco confinado aos limites de uma região ou país, ou então, como muitas vezes sucede, alargando a sua influência ao todo mundial, chegando mesmo a constituir-se como “recursos diplomáticos e novas arenas para o diálogo internacional”: “Os media já não funcionam como meros observadores ou repórteres, que se ocupam da recolha de notícias, da selecção de certos pormenores, da construção de realidades e da sua representação ao público” – assinala Dov Shinar (1997), considerando os jornalistas hodiernos “participantes e catalisadores de processos e decisões, especialmente no contexto internacional”.

À delegação de responsabilidades no Homem que faz o Mundo, sendo os media inocentes espelhos das glórias e desgraças da acção humana, impõe-se hoje a perspectiva dos media como co-responsáveis na escolha dos materiais necessários ao fabrico de tal espelho. Co-responsabilidade tanto na escolha dos componentes que farão luzir o espelho, como em todos os defeitos de fabrico que consigamos detectar.

O controle de qualidade ao processo de fabrico do espelho-mundo reflectido pelos media aponta claramente para uma laboriosa e cuidada confecção da metade cimeira do objecto, fazendo reluzir o poderoso Norte; e para um desleixo preocupante na confecção da metade fundeira, esta com defeitos de fabrico que quase só deixam reflectir o vermelho-sangue, quando deixam reflectir alguma coisa. Porque há, também, na análise a esta parte fundeira do espelho, a constatação da resistência à reflectividade de muitas imagens de muitos países do hemisfério sul, países e gentes que, excluídos da mancha negra noticiosa espelhada nos telejornais, passam a integrar um grande deserto informativo, a cratera do olvido para onde os gatekeeepers televisivos os remetem, de forma implacável.

Olhando para a parte fundeira do espelho mediático, Ignacio Ramonet (1998: 105-106) ali vê um Sul presente essencialmente em dois registos, ou duas atmosferas comunicacionais. O primeiro mora nos telejornais, registado com o apelido de Inferno:

“Tendo por base acontecimentos negativos de vários tipos, catástrofes naturais – terramotos, incêndios, inundações, erupções vulcânicas, furacões, secas – o Sul está presente sobretudo quando estes desastres significam drama, sofrimento e morte. Ou então quando há desordens políticas: guerras civis, guerrilhas, insurreições, golpes de Estado, matanças, execuções. O Sul irrompe nos telejornais quase exclusivamente quando se verificam catástrofes políticas ou naturais. Para os cidadãos-telespectadores que vêem os telejornais, o Sul é essencialmente um inferno. É um lugar onde ocorrem todos os cataclismos, todas as desordens, todas as violências”.

O paraíso surge, de forma simetricamente oposta, no discurso publicitário: “Fala de paisagens maravilhosas, de praias impolutas, de céus majestosos, de natureza virgem, de aborígenes afáveis, sorridentes e servis”.

O Sul, dizemos nós, é noticiosamente bipolar: esconde-se na cratera do olvido ou espaventa-se no pico do inferno.

Se carrearmos os resultados de investigações que efectuámos aquando dos nossos trabalhos de doutoramento1, cingidos aqui aos espaços informativos diários das televisões generalistas portuguesas, que conclusões poderemos libertar?

1. Que o mundo global prometido à saciedade pelas televisões aos telespectadores, chega a casa destes muito desglobalizado. Há vários desertos informativos (países e povos nunca noticiados), há um número significativo de países que preenchem o mapa noticioso televisivo apenas com uma notícia em todo um ano.

2. Em alguns dos casos, verifica-se um claro etnocentrismo na chamada ao alinhamento de alguns países. De S. Tomé e Príncipe, por exemplo, apenas se noticiaram as deslocações de personalidades portuguesas àquele território. Note-se que o corpus compreendia 3.800 telejornais, aproximadamente 80.000 notícias.

3. Noutros casos, chama-se ao alinhamento, não um país ou um povo, mas tão só a moldura, o cenário por onde passam, opulentamente, os desportistas do Primeiro Mundo.

4. Na selecção, o privilégio vai sobretudo para a violência – guerra, terrorismo, atentados, tumultos; para a miséria – fome, doenças, epidemias; para as catástrofes naturais – terramotos, cheias, ciclones; para toda a panóplia de acidentes – aéreos, ferroviários, rodoviários, marítimos.

5. O predomínio desta actualidade tenebrosa traz consigo o perigo, por muitos denunciado, da enfatização dos efeitos, em detrimento da análise das causas que subjazem aos atentados, aos dramas humanos resultantes das inundações, da seca, da fome, da corrupção. Isto mesmo assinala Leblanc (1989: 88):

“A apresentação das catástrofes — onde a reportagem em directo tem um papel de primeiro plano — faz predominar a encenação dos efeitos sobre a análise das suas causas. Para que a actualidade seja objecto de uma máxima dramatização, é necessário que os factos que constituem a informação sejam separados dos processos que os produzem. Assim, assistimos sobretudo aos excessos incoercíveis da natureza, aos sobresaltos sangrentos da história. O telespectador pode ser tomado por um terror legítimo perante estes acontecimentos que ultrapassam a medida humana, tanto mais que se repetem com uma grande regularidade, provocando a longo prazo um forte sentimento de impotência”.

Parafraseando Jorge Palma, “anda sempre alguém por lá, junto à tempestade…”.

6. Se a proximidade é critério pacífico de noticiabilidade, no que às notícias do estrangeiro concerne, aí a distância será critério de noticiabilidade mas do exótico, do bizarro, do burlesco. Dos aniversários dos crocodilos aos gatos castrados por se passearem no parlamento indiano; da preguiça dos homens das Seychelles à bruxa que garante adivinhar resultados eleitorais; das inúmeras proezas abençoadas com inscrição por esse poderoso agendador das televisões, que dá pelo nome de Guiness Book of Records.

7. Há uma ausência clara de contextualização da quase totalidade dos acontecimentos noticiados.

8. Esta selecção deixa de fora toda uma série de acontecimentos de importância capital para a transformação e para o progresso da Humanidade.

9. Percebe-se uma grande dependência das redacções televisivas em relação ao material fornecido pelas agências noticiosas, sendo em número diminuto as notícias elaboradas por correspondentes ou enviados especiais das televisões portuguesas. Redução provocada pela óbvia sangria de correspondentes internacionais das estações lusas. Importa frisar que a televisão líder de audiências em Portugal, a TVI, não tem correspondente permanente nos EUA, o mesmo acontecendo com a SIC.

10. Para além de nos fornecerem um mundo delegado nos olhos e nas perspectivas de funcionários de um número reduzidíssimo de agências, com interesses naturalmente residentes nos grandes mercados, como o norteamericano, esta dependência corre siamesa com a ausência de controle na produção da notícia. O que equivale a dizer que o noticiário internacional se torna assaz permeável à produção de fraudes e manipulações várias. Não é preciso lembrar casos como o da guerra do Golfo, ou das valas de Timisoara, porque tais casos, de tão gritante falsidade, não se conseguiram manter sob o manto espesso do branqueamento. Pensamos, isso sim, nas pequenas manipulações, nas distorções de que nenhum provedor, crítico de televisão ou associação de telespectadores se dão conta.

Isto vale para as agências, mas também para a estratégia (porventura necessária), do recurso a correspondentes autóctones, perante a dificuldade (ou mesmo impossibilidade) de manter, em determinados países, correspondentes que sejam jornalistas oriundos das redacções das televisões portuguesas. Veja-se o caso concreto de Angola, fonte de uma poderosa e bem orquestrada campanha de desinformação durante os anos da guerra civil, campanha que encontrou na RTP receptáculo com tanto de acrítico como de condenável.

11. A necessidade de reduzir custos gera, ela própria, comportamentos miméticos – não apenas na difusão das mesmas notícias/mesmas imagens/provenientes das mesmas agências -, mas também na contratação de profissionais que trabalham para mais do que um órgão de informação. É o que acontece com a RTP, no caso da Rússia (RTP e Lusa), da Suíça (RTP e Antena 1); com a SIC na África do Sul (SIC e Lusa), em Israel (SIC e TSF), em Bruxelas (SIC e DN). Era o que acontecia até há bem pouco tempo com a SIC nos EUA (o mesmo correspondente trabalhava também para a TSF), e com a TVI nos EUA (o mesmo jornalista trabalhava também para o diário 24 horas). SIC e TVI, como já disse, abdicaram, entretanto, de ter correspondentes nos Estados Unidos da América.

12. O noticiário internacional insere-se, tal como o nacional, nesse conjunto avassalador de comportamentos miméticos tão pernicioso para a diversidade da informação. Com uma agravante: enquanto no noticiário nacional as possibilidades de actualização (e eventual correcção) são maiores – através da presença pouco onerosa de jornalistas que vão controlando o desenrolar dos acontecimentos -, no noticiário internacional tal não se verifica com a mesma frequência.

O mimetismo reinante entre redacções de diferentes televisões – associado ao processo de realimentação de telejornais da mesma estação com as mesmas notícias -, vem reforçar, inelutavelmente, a imagem que os telespectadores constroem do mundo, ou de parte relevante do mundo em que vivemos.

Como denunciava recentemente Marie Bénilde no Le Monde Diplomatique (Agosto 2008), hoje escreve-se mais, noticia-se mais, mas informa-se menos.

Na Tailândia vivem perto de 63 milhões de habitantes. No ranking dos Estados soberanos integrantes da ONU, ocupa o 20.º lugar em população, quase a mesma que a França, mais do que a Itália ou Espanha. Portugal encontra-se em 75.º lugar.

Atentem nos assuntos sobre a Tailândia noticiados pelas televisões portuguesas em 1999:

1) Rodagem de filme com Leonardo Di Caprio gera polémica; 2) Aumenta número de cegos profissionais de massagens; 3) Tailandeses descobrem enormes potencialidades nos camarões; 4) Rebentamento de tanque com crocodilos origina fuga de visitantes de um zoo; 5) Americanos efectuam teste de nova vacina contra a SIDA; 6) Despiste de autocarro; 7) Brasil vence Taça do Rei – futebol sub-20; 8) Madeleine Albright na Tailândia; 9) Lançamento de cinto anti-violação; 10) Devorar gelados para entrar no Guiness Book; 11) Concurso Miss Gorda/Miss Jumbo; 12) Festa contra tabaco acaba mal; 13) Traficante de droga abatido pela polícia; 14) Festa de anos do maior crocodilo do mundo em cativeiro; 15) Um gato que é o melhor amigo de um rato; 16) Estragos provocados pelas monções; 17) Explosão em fábrica de fruta; 18) Sequestro na embaixada da Birmânia; 19) Habitantes de cidade tailandesa vivem em plena harmonia com os macacos; 20) Joalheira tailandesa descobre safira com sete quilos; 21) Jorge Sampaio na Tailândia; 22) Explosão em refinaria de petróleo; 23) 500 pára-quedistas batem record de salto em queda livre; 24) Encerramento da fronteira com a Birmânia; 25) Filme Ana e o Rei proibido na Tailândia; 26) Receio do bug 2000 origina cancelamento de voos; 27) Festejos de passagem do ano.

27 assuntos desdobrados em 62 notícias, ocupando 1h 29’ 05’’ dos 3.800 telejornais emitidos nesse ano. As televisões portuguesas falaram-nos de um país? Não. Tenho para mim que nos reportaram incidentes de um jardim zoológico que de quando em vez se pavoneia pela subida honra de receber dignitários estrangeiros, como Jorge Sampaio ou Madeleine Albright.

Singapura tem menos de metade da população portuguesa, e uma área mínima. Só o seu PIB per capita nos pode fazer inveja, perto de mais 4.000 dólares que o português (dados de 2006). De Singapura, nesse mesmo ano, contabilizámos sete notícias: seis reportando a presença do MNE português numa reunião da ASEAN, na qual tratou da situação em Timor Leste; uma notícia apenas sobre os seus habitantes. Habitantes de um jardim zoológico, uns simpáticos orangotangos.

No Gana, terra de Kofi Annan, realizaram-se eleições presidenciais, em Dezembro do ano 2000. Com a novidade de Jerry Rawlings, que havia tomado o poder pela força 18 anos antes, o ter deixado voluntariamente, respeitando o comando constitucional que o impedia de disputar um terceiro mandato (convertido à democracia, havia sido eleito em 1992 e reeleito em 1996).

Com outra novidade mais. O candidato preferido por Rawlings era o seu vice-presidente, John Atta Mills. Mills perdeu as eleições, à segunda volta (28 de Dezembro), para o líder oposicionista do Novo Partido Patriótico, John Kufuor. Pela primeira vez na história do Gana o poder foi transmitido entre dois presidentes democráticamente eleitos.

Não mereceu uma única notícia, a exemplo dos assuntos anteriormente elencados. E não mereceu porque não foi alvo de nenhum atentado, não sucumbiu a nenhum golpe de Estado, não morreu em nenhum misterioso acidente aéreo. Pasme-se, mas Kufuor dá-se ao luxo de viajar bastas vezes, deixa o seu país entregue ao Vice-Presidente e consegue voltar sem ver a presidência usurpada por golpistas. Em 2007 foi eleito Presidente da União Africana, foi nessa qualidade que esteve em Portugal, na Cimeira UE-África de Dezembro do ano passado. Viaja mas o avião não cai. Viaja, mas em avião despojado dos luxos do do seu congénere angolano. Não tem por hábito levar um macaco de estimação às reuniões internacionais. Como é que John Kofi Kufuor pode ocupar uns segundos que seja do nobre espaço dos telejornais portugueses?

A 15 de Maio de 1999, as tropas da África do Sul e do Botswana decidiram abandonar o Lesoto, onde se encontravam desde Setembro de 1998, alegadamente para tentarem evitar um golpe de Estado naquele país. No ano anterior, todas as televisões reportaram a invasão, tendo nós contabilizado 28 notícias. A retirada não mereceu uma só notícia. Para quem sabe do mundo apenas aquilo que a televisão noticia, o Lesoto continua, ainda hoje, um país ocupado.

A pecha não é de agora. De há muito que os pontos cardeais do mapa-mundo noticioso assinalam um rosa-norte e um negro-sul. A investigação científica há décadas que se vem debruçando sobre esta problemática, de Kaiser (1953) a Galtung e Ruge (1965), às pesquisas do CIESPAL (1967), dos estudos de Morris (1985) aos de Coatsworth e Rico (1989), também de Lozano (1989).

Pesquisas que foram sendo efectuadas em paralelo com outra preocupação, esta tendente a preescrutar que papel estaria destinado aos mass media como factores propulsionadores do desenvolvimento das sociedades mais desfavorecidas. Como assinala Gifreu (1986: 51 ss.), os primeiros estudos mais ou menos sistemáticos sobre o papel da comunicação e da informação nos processos de desenvolvimento surgiram nos anos 50 do século passado, nos EUA, tendo como obras mais marcantes as de Deutsch (1953), Lerner (1958) e Rogers (1962). A corrente do método de índices ou de tipos ideais (Joselitz, 1960; Parsons, 1961) criou um modelo caracterizador das sociedades desenvolvidas, com variáveis/padrão que serviam, por contraponto, para pistar as sociedades subdesenvolvidas. A corrente ligada ao método de difusão ou de transculturação (Lerner, 1958; Rogers, 1962), entendia o desenvolvimento como resultante da difusão de ideias e de elementos culturais com fluxo originário nos países desenvolvidos, fluxos direccionados aos países subdesenvolvidos. A difusão da inovação constituir-se-ia como elemento imprescindível para vencer a resistência à mudança das sociedades mais tradicionais, difusão metrópole -> capitais provinciais, capitais provinciais -> zonas interiores das periferias. Este modelo, concebido originalmente tendo os EUA como cenário, seria exportável, poderia aplicar-se às relações entre países mais e menos desenvolvidos. A corrente ligada ao método psicológico ou motivacional (McClelland, 1961; Hagen, 1962), considerava como elemento determinante do desenvolvimento o grau de motivação ou a apetência pelo sucesso dos indivíduos de determinada sociedade. O factor crucial do desenvolvimento residiria, aqui, na iniciativa pessoal, descartando-se, desta forma, o papel desempenhado por outros motores da sociedade, entre eles os mass media.

O ponto de equilíbrio entre os paradigmas difusionista e de modernização através dos media surge com Wilbur Schramm, através de Mass Media and National Development (1964), obra escrita por desejo expresso da UNESCO.

Schramm defendia que um adequado fluxo de informação, e em particular um uso apropriado dos mass media, podiam prestar contribuição substancial ao desenvolvimento nacional, económico e social. Foi esta a tese inspiradora de quinze recomendações que passaram a integrar o ideário da UNESCO, e das quais destacamos a necessidade de planificar um crescimento equilibrado e controlado dos mass media, planificação apoiada por investimentos estatais; o necessário estabelecimento de laços de cooperação entre os organismos estatais responsáveis pelo desenvolvimento dos mass media e pela educação; o desencadeamento de acções tendentes a facilitar a circulação de notícias, com o inerente apoio à instalação de novos media e, se possível, fomentando a criação de indústrias da comunicação.

Os paradigmas da teoria desenvolvimentista dos mass media viriam a ser refutados, com vigor, por adeptos da teoria da dependência, como Pasquali; Paulo Freire, que opôs às promessas de progresso automático da teoria difusionista a teoria e a praxis da intervenção popular nos processos de culturização; Capriles, que, no aspecto metodológico, contestaria a feição empirista e conductista da investigação em que se baseava a teoria desenvolvimentista, e os postulados funcionalistas desta, aqui do ponto de vista epistemológico. Os mass media não poderiam, segundo estes autores, ser perspectivados como neutros e capazes de produzir automaticamente o desenvolvimento.

O contexto histórico subsequente às propostas de Schramm – guerra fria, emergência de uma série de novos países fruto do processo de descolonização, Movimento dos Não Alinhados, por um lado; corrida espacial, lançamento dos primeiros satélites de comunicações, por outro -, tal contexto faria emergir novo debate, centrado agora na defesa de uma Nova Ordem Internacional da Informação, umbilicalmente ligada, esta, à reivindicação de uma Nova Ordem Económica Internacional. Queimando etapas por determinação da brevitatis causa da presente oração de sapiência, chegamos a 20 de Novembro de 1983, data em que foi publicado, pela UNESCO, o documento “Princípios Internacionais de Ética Profissional do Jornalismo”. “Direito do público a uma informação verdadeira”, “adesão do jornalista à realidade objectiva”, “responsabilidade social do jornalista”, “respeito dos valores universais e da diversidade de culturas”, eram alguns dos princípios que integravam o decálogo.

Um documento fruto do seu tempo, marcadamente ideológico, como bem sublinhou Niceto Blázquez (1995: 241). O moroso processo da elaboração do documento da UNESCO deixou transparecer um claro antagonismo entre as concepções liberais do ocidente e as teses marxistas defendidas pelos representantes dos países de leste.

Constatava-se a poderosíssima influência dos media na vida contemporânea à escala mundial, o que fazia acrescer o grau de responsabilidade moral que incumbia aos profissionais da informação. Nota-se, no documento, uma preocupação quase obsessiva pela questão da paz mundial, convertendo os jornalistas em seus promotores activos.

No princípio terceiro destaca-se a função social da informação jornalística, a informação entendida como um bem social e não como um mero objecto de mercado, pressuposto necessário para o fomento de uma nova orden mundial da informação e da comunicação.

A promoção da NOMIC (sigla que passou a designar a dita “Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação”), era expressa com detalhe no décimo e último princípio do documento de Paris:

“O jornalista trabalha, no mundo contemporâneo, na perspectiva do estabelecimento de relações internacionais novas, em geral, e de uma nova ordem da informação, em particular. Esta nova ordem, concebida como parte integrante da nova ordem económica mundial, tem em vista a descolonização e a democratização no campo da informação e da comunicação, tanto nos planos nacional como internacional, tendo por base a coexistência pacífica entre os povos, no respeito pleno da sua identidade cultural. Ao jornalista incumbe o dever particular de promover esta democratização das relações internacionais no campo da informação, salvaguardando e promovendo as relações pacíficas e amistosas entre povos e Estados”.

Anos mais tarde, a UNESCO haveria de deixar cair, em múltiplos outros textos (Carta Sobre a Liberdade de Imprensa, Londres, 1987; Declaração de Chapultepec, 1994), a defesa da NOMIC, nos estritos termos do texto de 1983, passando a preocupação maior a residir na defesa de uma “nova estratégia da comunicação”, onde se destacava a necessidade de desenvolver e fortalecer os media dos países em vias de desenvolvimento. Para uma boa consecução deste desiderato, os países pobres exigiram (e conseguiram) um reforço substantivo das verbas destinadas ao PIDC, Programa Internacional para o Desenvolvimento da Comunicação.

Como pano de fundo do debate em torno da NOMIC, interessa-nos aqui sublinhar um ponto específico, recorrentemente levantado pelos países em vias de desenvolvimento. Estes consideravam-se (e continuam a considerar-se) vítimas de graves desigualdades em matéria de fluxos de informação entre o Norte e o Sul, apodando de exagerada, deformada e falseada, a forma como os media do Norte vão reflectindo (noticiando) as realidades nacionais dos países pobres. Com base nesse pressuposto, reclamam repetidamente um reequilíbrio dos fluxos de informação. Acontecia assim aquando da publicação da Declaração de Paris (1983), acontece ainda hoje.

Com efeito, o relatório mundial sobre a comunicação, da responsabilidade da UNESCO (1997: 217) constata que os fluxos de informação continuam a dar larga vantagem ao Norte, perenidade no desequilíbrio notada pela comunidade de investigadores que se têm debruçado sobre este tema. Quirós Fernández (1998: 25-26), por exemplo, destaca três notas essenciais na caracterização da ordem informativa internacional, nos anos mais recentes: “1) A diferença de recursos entre o centro e a periferia do sistema. Hoje comunicamos mais do que nunca e, no entanto, as diferenças são mais acentuadas que nunca. Existe um mundo informativamente opulento (o centro do sistema) e um mundo informativamente muito pobre (a periferia). 2) O reduzido número de países fonte ou países emisores da informação internacional, dentro dos quais se pode observar um grau de concentração muito elevado com expressão nos conglomerados transnacionais. A maioria desses conglomerados encontra-se nos países mais ricos do sistema, principalmente nos Estados Unidos. 3) A unidireccionalidade dos fluxos de informação, destacando-se outra particularidade, em casos de suposta reciprocidade: os que gerem o fluxo de retorno são, sobretudo, agentes dos media ocidentais, cujos critérios surgem determinados pelo seu próprio sistema cultural e pelo mercado que compra a informação”.

Segundo estudo do Ministério alemão da Cooperação para o Desenvolvimento, em 1983, a informação referente aos países do sul ocupava apenas 4,5% de toda a informação sobre o estrangeiro. Hanelore Döbler (2002) afirma que, depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, esta percentagem se tornou ainda mais reduzida: “Os conflitos do leste europeu são, de todos os pontos de vista (humano, económico, político), mais urgentes de ser noticiados do que qualquer guerrilha do outro lado do hemisfério”.

Larson, McAnany e Storney (1986), num estudo efectuado ao noticiário CBS Evening News (CBS – EUA), notaram que a América Latina ocupava o penúltimo lugar na lista de menções ou aparições (seguida por África). No entanto, e apesar desta escassa participação nos noticiários, subia ao segundo lugar no referente a notícias sobre conflitos. 29,3% das notícias sobre a América Latina reportavam a crises e conflitos, percentagem que atingia os 37,7%, para África.

Terceiro Mundo maltratado, quando não é ignorado. Um panorama que, longe de ser exclusivo dos telejornais, se estende à restante programação televisiva. Já em 2002, foi divulgado estudo efectuado aos conteúdos da televisão britânica, conclusões denunciando a exclusão dos países subdesenvolvidos de programas de informação de regularidade não diária, assim como dos documentários:

“Os britânicos sabem cada vez menos o que se passa nos países do Terceiro Mundo. A culpa, segundo um estudo da 3WE, uma rede que congrega organizações de solidariedade internacional, é das televisões que desinvestiram nos documentários e programas de informação sobre o quotidiano dos países subdesenvolvidos. O entretenimento e o lazer tomaram o lugar da informação e análise. E esses países passaram a ser retratados apenas através de ‘reality shows’, magazines de viagens e espectáculos de variedades, tendência que se manteve mesmo após o 11 de Setembro”.2

Martyn Lewis, que foi um dos pivots mais destacados da BBC-TV, referia-se, há anos atrás, a estudo da UNICEF segundo o qual a maioria das pessoas pensava que 50 a 70% das crianças em todo o mundo estavam a morrer de fome — quando o número real é de 1 a 2%; e que só 20% das crianças entre os 6 e os 12 anos de idade frequentam a escola — quando quase 90% o fazem. “A maioria das pessoas imagina os países em desenvolvimento a partir das notícias sobre os desastres”, lamentava Lewis. Conclusão:

“Os súbditos de Sua Majestade sabem cada vez menos sobre a realidade, organização e modo de vida de mais de 80% da população mundial. Ou seja, de cinco mil milhões de pessoas, dispersas pela África subsaariana, Índia, América Latina e outras zonas economicamente frágeis do globo”.

Os resultados de muitas destas pesquisas levam investigadores vários a alertarem para os perigos de um mundo hegemónico, perigos assentes na manipulação da informação a favor das grandes potências, a favor do Norte rico e civilizado contra o Sul pobre e selvagem.

Apesar do abandono da NOMIC, a UNESCO continua, ano após ano, a alertar para os riscos de um crescente desequilíbrio dos fluxos informativos produzidos pelos ricos do Norte e pelos pobres do Sul. A opulência dos primeiros incha na mesma proporção que a miséria dos segundos. Nos anos mais recentes, um dado novo veio bater à porta do Norte, obrigando ao despertar de algumas consciências (entre as quais as de alguns jornalistas) em torno do tratamento das notícias do Outro, das novas do estrangeiro. Tudo a ver com as hordas de deserdados do Sul que alguns (media incluídos) vêem batendo cada vez com mais força e mais frequência às portas do Norte rico. O acentuar do paulatino mas constante decréscimo das taxas de natalidade dos países ricos obriga, qual fatalidade, ao recurso a mão-de-obra forasteira. No caso concreto da União Europeia, aos magrebinos, africanos subsaarianos, asiáticos e latino-americanos vieram juntar-se, ultimamente, os desiludidos com os amanhãs que deixaram de cantar no leste europeu. Este alegado aumento dos fluxos migratórios potencia a existência de choques culturais e tem provocado, como é do conhecimento geral, alterações preocupantes no xadrez político-partidário de alguns países da União, com um crescimento fulgurante da extrema-direita xenófoba, e o registo de alguns acontecimentos dramáticos tendo os imigrantes como protagonistas, ou como alvo.

Num ápice se vasculharam os desempenhos dos media, no que ao tratamento do Outro entre nós, do Estrangeiro cá dentro concerne. Os resultados das análises deram positivo quanto à responsabilidade dos media num alegado fomento, mesmo que subliminar, de preconceitos e estereótipos dos civilizados europeus para com a mão-de-obra muito barata, mas de outra cor, insatisfeita e quezilenta que provinha do Sul.

Foi o que se constatou em França, nas eleições presidenciais de 2002. Os media trataram de matraquear, durante anos, o tema da insegurança urbana; de localizar grande parte da violência (individual ou sobretudo em bando) nos arrabaldes das grandes metrópoles, com associação fácil aos imigrantes que habitam estas zonas periféricas. Os resultados estão à vista de todos, como bem assinalou Mário Mesquita (2002):

“A agenda mediática do debate eleitoral, centrada no tema da insegurança, por opção de Chirac e de Le Pen - insuficientemente contrariada pela ‘esquerda plural’ - foi outro factor favorável ao populismo ‘lepenista’. A exploração do medo do ‘outro’ (árabe, negro, imigrante...), reforçada pela hipermediatização de algumas ‘ilustrações’ da ‘desordem’ (designadamente o massacre na assembleia municipal de Nanterre e o assassínio de um idoso em Orleães, na véspera da votação), ajudou a alcandorar o líder do Front National ao lugar de número dois da política francesa”.

“Os jornalistas descobriram há três meses um número incrível de assassinatos repugnantes, desumanos, e dão-lhes um destaque extraordinário, repetem-nos tanto que poderíamos crer que Paris, Marselha ou Lyon eram ‘campos de tiro’ em que se exercitam impunemente bandidos sardos, sobreviventes da Chicago de 1930, ustachas croatas do tempo de Hitler, revolucionários russos do século 19, panteras negras vindas dos Estados Unidos, cangaceiros e jagunços, sem falar de jacarés, piranhas e tigres de Bengala...” – reportava Stefan Braendle, jornalista do austríaco Der Standard.3

Qualquer semelhança com a histeria mediática do último Verão em Portugal, no que à onda de crimes concerne, e que incluiu um dramático sequestro em directo, talvez não seja pura coincidência…

Entretidos a dar notícias do Outro quando lá fora, sentimos calafrios ao sabermos de notícias do Outro, quando cá dentro. Um dia, acordando de sono profundo contabilizando sonhos vários – com pateras, hordas de deserdados arribando à costa rica -, descobrimos que o Outro está entre nós. Tantas vezes pintado com as cores garridas da Internacional da Bizarria, natural se torna a dificuldade em descascar-lhe a pele prenhe de preconceptos e estereótipos com que o cravejámos, por interpostas notícias, televisionadas ou não. Daí até à hipermediatização da violência alóctone vai um passo. Se não temos dinheiro para manter correspondentes lá fora, se o tempo dos satélites para dar notícias do inferno está pela hora da morte, chamamos um figo quando o demo nos assoma à porta, ali no bairro social a meia dúzia de quilómetros da redacção.

Jornalistas fazendo o jogo eleitoral da insegurança, amplificando em demasia a cobertura noticiosa da violencia urbana, criando nos cidadãos um medo do crime que estes graduam em função da difusão e matraqueamento mediático, e não tendo por base estatísticas fiáveis. Neste cadinho é fácil germinarem programas securitários, substituindo-se com mais facilidade a prossecução de um Secury State que um Welfare State. Por detrás da cortina mediática mantêm-se vivas, e sem solução, as causas sociais geradoras da violência. Ficando estas causas por detrás da cortina, mais fácil se torna aos políticos eximirem-se à responsabilidade de as combater.

À desmesurada inflação do tema insegurança nos media - bastas vezes asociada aos imigrantes -, a que se contrapõe um quase apagamento noutras zonas que permitiriam, à partida, uma visibilidade positiva (caso da programação televisiva extra-jornalística), acrescenta-se outro dado, com responsabilidades que alguns autores também atribuem à comunicação social: a veiculação de notícias e de reportagens que deixam passar a imagen de que o Norte rico assiste, impotente, a uma invasão cada vez mais significativa e quase incontrolável de imigrantes provindos do Sul. Cobertura noticiosa que, acusam alguns, tem respaldado medidas securitárias tomadas por vários governos, tendentes a impermeabilizar a fortaleza Europa ou a fortaleza EUA.

Autores há que consideram não se registar, actualmente, nenhum aumento significativo de tais fluxos migratórios; outros apontam o dedo à ausência de contextualização das notícias que os media vão veiculando sobre o tema.

Todos são unânimes em constatar que o volume e o ângulo escolhidos para o tratamento deste fenómeno têm criado na opinião pública ambiente propício à tomada de medidas visando o reforço das fronteiras, controlando com mais aspereza a entrada de imigrantes, deixando pairar a ideia de que, quem bate à porta do Norte rico, é indesejado, um fardo para sociedades que não necessitam do seu contributo enquanto força de trabalho, dispensando ainda com mais fervor a sua contribuição para o fomento da violência, nomeadamente nas grandes urbes.

A construção do imaginário internacional pelos cidadãos está dependente de vários factores, que vão do reduto psicológico às influências do meio – família, instituições sociais de vária índole, também os media. Segundo Astorga (2000), os autores que se têm debruçado sobre esta problemática não exibem unanimidade, quer na despistagem dos factores contribuintes à formação desse imaginário, quer na atribuição graduada da influência de tais factores. Tendo por base a necessidade de integração no meio em que está inserido, o indivíduo vai desenvolvendo um conjunto de representações cognoscitivas que lhe permitem classificar os dados que recebe através dos órgãos sensoriais. O arsenal de imagens mentais de que o indivíduo se mune na sua relação com os outros inclui uma vasta gama de estereótipos - privados ou públicos, tradicionais ou contemporâneos, sexistas ou étnicos, glorificadores ou menorizadores -, que são mobilizados aquando da formação de imagens sobre outros países, culturas ou povos. As fontes externas desempenham papel variável na formação de imagens estereotipadas do Outro – para além da imbricação a outros potenciadores e a outras condicionantes, tais fontes verão a sua influência potenciar-se nos domínios em que o indivíduo revela maior dificuldade de contacto com o estereotipado.

A formação de imagens sobre o Outro quando lá fora pertence a este domínio de maior influência das fontes externas, dada a impossibilidade sentida pela maior parte dos cidadãos de contactar directamente com realidades, hábitos, culturas longínquas. Tais imagens formar-se-ão, assim, tendo por base uma forte mediação das fontes externas, com os órgãos de comunicação social desempenhando aqui papel de relevo. É essa, aliás, uma das cláusulas do seu caderno de encargos, considerada não como um ditame mas como uma virtualidade que todos ostentam com deleite, um enfatizador totalizante propalado à exaustão: media que se preze tem sempre tudo para noticiar, tudo para mostrar, indo ao fim da esquina mas também ao fim do mundo, todos os dias, em todos os lugares, em todas as distâncias e horas…

Nesta linha se inserem as conclusões de vários estudos de agenda-setting, apontando, como sublinha Nelson Traquina (1995: 207-208), para uma maior influência dos media nas questões chamadas unobstrusive — por exemplo, questões de politica externa, por contraponto com as questões chamadas obstrusive, ou seja, asuntos conspícuos para os quais as pessoas podem mobilizar a sua experiência directa.

Entre os vários media, a televisão assume aqui papel primacial, quer pelo efectivo de consumidores que mobiliza todos os dias (em número significativamente superior ao da imprensa escrita ou da rádio); quer pelo tempo que os cidadãos lhe dedicam, também bastante superior ao despendido na fruição de outros media; quer pelo tipo de público a que se dirige. Sendo, como é sabido, um media transversal, recolhe mais telespectadores junto das classes baixa e média/baixa, por natureza as que se encontrarão menos munidas de instrumentos que lhes permitam questionar a informação recebida (por ex: maior índice de analfabetismo, puro ou funcional; ou, quando alfabetizadas, com habilitações académicas inferiores às das classes alta e média/alta); por natureza as que menos vezes se socorrerão de outros meios (rádio, imprensa escrita, internet), para um saudável exercício do contraditório; por fatalidade, as que disporão de menos meios para viajar, conhecendo, em directo e ao vivo, o Outro quando lá fora, e não por mediação de interposta televisão. Em consequência, o volume de questões ditas unobstrusive ganha relevo muito mais significante junto dos indivíduos que se informam exclusiva ou primacialmente através dos telejornais. O corolário lógico desta constatação obrigaria a uma maior responsabilidade social do meio/televisão no que toca à confecção de produtos informativos, no global, e das notícias veiculadas sobre o estrangeiro, em particular.

Não acontece assim. A selecção dos gatekeepers televisivos portugueses – constrangida de facto pelo mayor volume de desgraças produzidas por tal grupo de países; manietada pela falta de recursos (compreensível pelo facto de tais profissionais não trabalharem num país muito rico; menos compreensível se tais recursos se manifestarem escassos apenas pelos apetites de lucro dos detentores dos canais televisivos); subordinada imensas vezes ao produto fornecido pelas agências noticiosas – tal selecção revela, pesem todos os embraiadores, uma linha norteadora determinada a expor o que de pior acontece nos países do Terceiro Mundo.

Notamos um predomínio avassalador da notícia-mercado em detrimento da notícia-serviço. O jornalismo televisivo funciona, neste caso concreto, como redutor do campo de conhecimentos dos indivíduos. E isto por privilegiar os epifenómenos em detrimento da origem, natureza e essência dos acontecimentos, processos e situações.

Não é exclusivo das televisões lusas, vale de pouco, mas valha-nos isso; não é patente que o jornalismo televisivo possa registar, mas é sem dúvida uma prática que nos deve preocupar a todos, a começar, desde logo, pelos que detêm um presumido, mesmo que débil poder de agendar.

Preocupar, pelas malformações que tal selecção inculca ao mapa-mundo das notícias; pela contribuição nada despicienda para a formação, nos telespectadores, de um imaginário tenebroso do Terceiro Mundo; pelas consequências que daí poderão advir para os cidadãos consumidores de notícias televisivas situados no largo patamar dos mais permeáveis à indução de estereótipos e preconceitos; pelo fomento do medo em relação ao Outro diferente de nós, quer esse Outro morra em peles lá longe ou venha para junto de nós morrer aos poucos.

Responsabilidade social e cívica que se exige com mais vigor ainda, quando a contribuição para a formação de estereótipos excluentes do Outro se vai reflectindo e ajudando a conspurcar o quadro relacional de uma sociedade como a portuguesa, onde, a exemplo da União a que pertencemos, vão germinando focos de conflitualidade entre os autóctones e os alóctones que por aqui labutam, trocando as voltas - por mor da roda que faz girar o mundo, da roda que muitas desgraças cria do lado de lá e poucos rebentos consegue parir do lado de cá - a um fluxo que já teve sentido inverso, quando de Portugal saíam muitas malas de cartão.

Olhamos para as notícias dos últimos dias e ficamos sabedores de que a Espanha precisa urgentemente de 100 mil imigrantes qualificados por ano4; que em Lisboa mil pessoas se manifestaram contra a “perseguição, criminalização e estigmatização dos imigrantes ilegais na UE”, pedindo, tais homens e tais mulheres, que deixem de ser olhados “como meras mercadorias, com um olhar estigmatizante e de desprezo”5. Destaco uma frase ouvida nessa manifestação: “Toda a gente debe ter directo a directos mínimos”.

No entanto, ao levantarmos os olhos do jornal, deparamo-nos com um outdoor no qual pintaram um avião e a frase “Façam boa viagem”. Encimando o avião simbolicamente negro, lemos mais: “Basta de imigração. Nacionalismo é a solução. Portugal aos portugueses”. Ao passearmos os olhos pela rotunda, vemos mais: uma ovelha ariana expulsando à patada seis ovelhas negras, de seus nomes “Criminalidade”, “Fronteiras abertas”, “Subsídiodependência”, “Desemprego”, “Baixos salários”, “Multiculturalismo”.

Respiramos fundo sabendo que quem quer o Outro lá fora, mas bem lá fora, é um partido de expressão quase nula no país. Para logo ficarmos sem ar quando ligamos a rádio e ouvimos a líder do principal partido da oposição atribuir, como um dos méritos das anunciadas grandes obras públicas o combate ao desemprego, mas da Ucrânia e de Cabo Verde.

Questionada se não considera que “as obras públicas ajudarão, pelo menos, o factor desemprego”, respondeu: “[Ao] desemprego de Cabo Verde, desemprego da Ucrânia, isso ajudam. Ao desemprego de Portugal, duvido”.

Passando em revista os comentários a esta notícia, comentários publicados na web, o aplauso supera a reprovação. Apenas um para amostra:

em portugal a medida para acabar com a emigração ilegal é... xaran, legalizar os ilegais estendendo os já demasiado longos prazos para a legalização. Bom... A seguir o que acontece… subsidiozinho... Mesmo os que vão parar á cadeia, quandeo saem, têem á sua espera o belo do cheque... E já agora, quando o sr for assaltado e espancado por 3 gajos (pretos, mas não se pode chamar preto porque é racismo) que p além de lhe roubarem o que podem ainda lhe dizem, no gozo (ou talvês não) que um dia destes serão os portuguêses a trabalhar p eles, fale comigo, ok?”.6

Não é só pelos EUA que se teme o efeito Bradley, por certo substituído pelo efeito Obama caso o senador tivesse perdido as eleições. Ele mora, em estado latente, em muitos de nós, em muitos de vós. Pronto a irromper ao mínimo estímulo, ou, sendo condescendentes, a uma cadenciada sucessão de estímulos.

E é isso, infelizmente, o que os telejornais portugueses vão fazendo. Fazem as nossas cabeças, de mansinho, subliminarmente, sem que nos demos conta do perigo. Porque o veneno surge garridado com as cores exuberantes do politicamente correcto, do cidadão de etnia cigana em vez do cigano, do afro-americano em vez do negro, do toxicodependente em vez do drogado. Só que o politicamente correcto esconde selecção corrécia, mais ainda quando se trata de noticiar o Outro quando lá fora.

Acontece que o Outro, o de lá de fora, começa a estar cada mais vez mais cá dentro.

Dos 102.492 bebés que nasceram em Portugal em 2007 - ano em que a população entrou em crescimento natural negativo -, 9,6% nasceram de mães estrangeiras, segundo os dados demográficos do Instituto Nacional de Estatística (INE).

O aumento dos imigrantes em Portugal tem sido, aliás, um dos travões ao declínio demográfico. E, em termos de natalidade, os números do INE mostram que, entre 2002 e 2007, a proporção de nados-vivos de mães de nacionalidade estrangeira aumentou de 6,7 para os 9,6% registados o ano passado. Se somarmos os casos em que é o pai a ter nacionalidade estrangeira, a percentagem aumenta de 8,8 para 11,8%, no mesmo período.

Em termos absolutos, as mães estrangeiras residentes em Portugal tiveram 9.887 crianças no ano passado, o que dá uma média de 27 bebés por dia. Destes, 6.676 nasceram de pai e mãe estrangeiros e 2.881 nasceram de mãe estrangeira e pai português (os restantes 330 aparecem como filhos de pais cuja nacionalidade é ignorada).7

Acontece que o Outro, quando cá dentro, não trata apenas de parir, mas também de casar. A notícia é do passado dia 2 de Novembro. Em 2007, segundo o INE, Portugal registou uma taxa de nupcialidade de 4,4 casamentos por cada mil habitantes, o valor mais baixo desde 1990. Face a esta alteração na sociedade portuguesa, a subida de matrimónios entre portugueses e estrangeiros ganha um peso ainda mais acentuado. Há dez anos, os chamados casamentos mistos representavam 1,9% do total; o ano passado, 12,2%. O número de casamentos entre portugueses e estrangeiros registados em Portugal mais do que quadruplicou em dez anos.

Parir, casar, pasme-se, criar emprego! A notícia é do passado dia 3 de Novembro: “Número de empresários imigrantes cresceu quase 2% em cinco anos”. Entre 2000 e 2005, a importância relativa de estrangeiros no total de trabalhadores por conta própria passou de 3,6 para 5,4%. Olhando a intervalo temporal mais longo, duas décadas, em 1981 tínhamos 4.500 empregadores estrangeiros, em 2001 a cifra atingiu os 20.500.8

A notícia é desta manhã, 10h 33’. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) deverá ter 110 milhões de habitantes mais em 2050, passando para cerca de 357 milhões de pessoas, segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), num relatório apresentado esta quarta-feira em Lisboa. Os dados do estudo do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) apontam para um crescimento da população de cerca de 44% nos países da CPLP, que em 2050 concentrará quase 4% do total da população mundial - que deverá ter 9,1 biliões de pessoas.

O relatório do UNFPA, que traça o retrato da população mundial, não apresenta dados relativos a São Tomé e Príncipe, cuja população actual está estimada em cerca de 206 mil pessoas. Dos sete países da CPLP abrangidos, todos vão registar um crescimento populacional até 2050, à excepção de Portugal, que perderá habitantes, estimando a ONU que passe dos actuais 10,7 milhões para 10 milhões.

Preparava-se o século XIX para dobrar a quadra dos finados e o Jardim de Aclimatação de Paris regorgitava de gente, atraída pelo zoo humano, uma mostra de seres humanos exóticos, selvagens até a curiosidade dos civilizados franceses dizer basta. Nada de novo, e muito menos cruel que o espectáculo oferecido em 1832 por um feirante, primeiro em exposição ambulante, depois com residência fixa na Rue du Rivoli. O de 1832 oferecia, em jaula e com regulares chicotadas, os quatro últimos representantes da tribo dos Charruas (índios que nomadizavam entre o Uruguai e a Argentina, antes da sua exterminação). Houve quem protestasse, Razanajao (2001) lembra ter o sabujo fugido para a Alemanha, levando consigo as atracções. Na Alemanha, o comerciante de animais selvagens Kart Hagenbeck exibia Samoas e Lapões como populações totalmente naturais. Tal o sucesso que mandou colaborador seu ao Sudão egípcio à cata de animais, também de Núbios para renovar a atracção. Em 1877, o zoo humano do Jardim de Aclimatação de Paris também gerou protestos, mas de nada valeram. A moda pegou noutras capitais, de Bruxelas a Londres e Berlim, os antropólogos chamavam-lhe um figo nunca sonhado, espécimes à mão para as competentes medidas antropométricas. A Exposição Universal de 1889 não tinha apenas a Torre Eiffel como atracção, também uma cidade negra habitada por 400 figurantes indígenas; a Universal de 1900 apresentava o célebre dioramo vivo sobre Madagáscar. Houve mais do género, nas exposições coloniais de Marselha (1906 e 1922) e de Paris (1907 e 1931). Sem contar com as inúmeras representações programadas no Champ-de-Mars, nas Folies-Bergère ou na Magic City.

“Não havia uma cidade, uma exposição e um francês que não tivessem visto, numa tarde ensolarada, uma reconstituição, com seres reais, das regiões selvagens, povoadas de homens e animais exóticos, isto entre um concurso agrícola, a missa dominical e um passeio pelo lago” – notam Bancel, Blanchard e Lemaire (2000). “Foi assim que milhões de franceses, de 1877 aos inícios dos anos 30, foram ao encontro do Outro. Um outro posto em cena e em jaula. Quer se tratasse de gente anormal vinda de todos os cantos do mundo ou indígena do Império, tal facto constituiu, para a grande maioria dos metropolitanos, o primeiro contacto com a alteridade. O impacto social destes espectáculos na construção da imagem do Outro foi imensa” – acrescentam.

A moda voltaria, em 2002, desta feita na Bélgica. O parque animal de Champalle ofereceu, durante os meses de Julho e Agosto, uma exposição de pigmeus bakas, vindos expressamente dos Camarões. “Partam à descoberta da África negra e dos Pigmeus… Eles estão em Yvoir; pela primeira vez, vieram dos Camarões até à Bélgica para vos mostrar a sua cultura, o seu modo de vida, as suas danças…” – incitava o site da autarquia local. Desta feita tratava-se, segundo os organizadores, de uma operação humanitária, com fundos alegadamente destinados a financiar furos artesianos, quatro centros de saúde e quatro escolas no sul dos Camarões. “Eles cantarão e dançarão para agradecer a vossa presença”, informava um folheto distribuído à entrada. Houve protestos, o Centro para a Igualdade de Oportunidades belga (CEC) reconheceu as louváveis intenções do projecto, criticando a escolha do lugar, conhecido como parque animal e botânico, e o modus operandi que recorda um passado colonial e paternalista.9

Em 1904, Ota Benga, pigmeu do Congo, 23 anos, um metro e meio de altura, 47 quilos, por duas vezes casado, foi trazido pelo explorador africano Samuel Werner para os EUA, entregue aos cuidados do director do Zoo do Bronx. Apresentado no mesmo ano, ao público, na Feira Mundial de St. Louis, na companhia de outros pigmeus, regressou em seguida ao Zoo de Bronx, onde permaneceu largos anos, numa jaula de macacos. “Pela primeira vez na história de todos os zoos americanos, um ser humano era apresentado numa jaula. O director do zoo do Bronx não descortinava diferenças aparentes entre os animais selvagens e o pequeno homem negro” – afirma Jerry Bergman.10 Milhões acorreram ao zoológico, atraídos por tão bizarro fenómeno. Só num domingo, o New York Times [18.09.1906] contara 40 mil visitantes. O engrossar dos protestos fez com que Bi (nome carinhoso por que era conhecido) deixasse a jaula, indo trabalhar para uma fábrica de tabaco na Virgínia. Em 1916 matou-se, com uma pistola emprestada.

Talvez fosse importante afixar a história de Ota Benga nas redacções televisivas, também a dos Charruas chicoteados, dos Núbios, dos Samoas, dos Lapões. Os gatekeepers talvez pensassem duas vezes antes de se decidirem pela introdução, na gaiola catódica, de muitas estórias sobre os Bengas deste mundo, incapazes de se libertarem das grades que os confinam a uma vida de desgraçada miséria.

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Notas:

1 “A AGENDA-MONTRA DE OUTRAS AGENDAS - Mimetismos e determinação da agenda noticiosa televisiva”. Dissertação de Doutoramento em Ciências da Comunicação, especialização em Discurso dos Media, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Orientadores: Prof. Doutor Francisco Rui Cádima (Universidade Nova de Lisboa); Prof. Doutora Isabel Nobre Vargues (Universidade de Coimbra).
2 “Televisão britânica ignora países subdesenvolvidos”, PÚBLICO, n/a, 15.07.2002 (www.publico.pt).
3 Excertos do Der Standard, Le Soir e Corriere della Sera publicados no artigo “Imprensa francesa fica muda após eleição”, Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo, 30.04.2002 (http://www.observatoriodaimprensa.com.br).
4 “Espanha precisa de 100 mil imigrantes qualificados por ano”, Diário Digital, n/a, 23.10.2008 (www.diariodigital.pt).
5 “Manifestação contra xenofobia reúne mais de mil pessoas em Lisboa”, PÚBLICO/LUSA, n/a, 12.10.2002 (www.publico.pt).
6 Comentário de “Alexandre – Lisboa” à notícia “Imigração: associações e sindicatos manifestam-se hoje em prol dos direitos dos imigrantes”, PÚBLICO/LUSA, n/a, 12.10.2008 (www.publico.pt).
7 “Estrangeiras são responsáveis por 9,6 por cento dos nascimentos”, Natália Faria, PÚBLICO, 29.10.2008 (www.publico.pt).
8 “Imigração: Número de empresários imigrantes em Portugal cresceu quase dois por cento em cinco anos”, Jornal de Notícias/LUSA, n/a, 03.11.2008 (www.jn.pt).
9 “Un village pygmée exposé dans un parc animalier belge”, Julie Majerczak, Libération, 9.08.2002 (http://www.liberation.com/). Sobre as razões aduzidas pelo promotor da exposição, o belga Louis Raets, ver “Les Pygmées ne repartiront pas sans rien”, Marc Metdepenningen, Le Soir, 12.08.2002, (http://users.skynet.be/wirira/pygmeeslsoir-120802.htm). Sobre a posição da embaixada dos Camarões na Bélgica, ver “Les Belges, les Pygmées et le Cameroun”, Jean Vincent Tchienehom, Le Messager, Douala, Camarões, s/d (http://www.wagne.net/messager/messager/1399/messager.html).
10 “OTA BENGA: The man who was put on display in the zoo!”, Jerry Bergman, Onehumanrace.com, 27.09.2002 (http://www.onehumanrace.com/).

______
Fontes:

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* Dinis Manuel Alves é diretor da Licenciatura em Comunicação Social do Instituto Superior Miguel Torga, Coimbra, Portugal. Oração de Sapiência proferida por ocasito da Abertura Solene das aulas no ISMT, 12.11.2008 Esta es su primera colaboración para SdP.


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