Sala de Prensa


12
Octubre 1999
Año II, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


A formação universitária dos Jornalistas

Nilson Lage *

Gostaria inicialmente de agradecer à comissão organizadora, à Associação Brasileira de Escolas de Comunicação e à Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo, na figura de seu presidente e diretor, o Professor Doutor Tupan Gomes Correia, a honra que me concede, e à Universidade Federal de Santa Catarina, ao convidar-nos para proferir essa palestra inaugural. Lamento a minha incompetência na língua de Cervantes, mas, para não torturar os companheiros dos demais países da América Latina com enunciados absurdos, falarei em português. O texto da palestra estará disponível e creio que, como nossos idiomas são parecidos, não haverá dificuldades em compreendê-lo.

1. Jornalistas e militância

Em artigo publicado em El País, da Espanha, e reproduzido no sítio Sala de Prensa, do México, Robert Fisk, decano dos correspondentes ocidentais no Oriente Médio, traça um retrato ridículo dos jornalistas enviados para a cobertura da recente guerra de Kosovo. Fantasiados de militares, convencidos da lógica absurda de que faz sentido arrasar um país quando não se gosta de seu governo, submissos e passivos diante dos oficiais da OTAN, esses jornalistas tornaram-se porta-vozes da guerra imperialista, repetindo denominações como "bombardeios humanitários" para os raids aéreos, "danos colaterais" para a destruição de alvos civis e "campanha militar", quando praticamente não havia resistência da débil aviação iugoslava.

Não lhes passou pela cabeça desconfiar do direito de alguém muito forte agredir outro mais fraco, sem riscos, sem culpa e sem direito a contestação: toleraram a covardia como política de Estado. Mais que isso: aceitaram um clássico princípio de propaganda formulado por Jean-Marie Domenach na década de 1950: da simplificação e do inimigo único. Obedientes a ele, concordaram em associar o Presidente Slobodan Milosevic a Adolf Hitler, os sérvios aos nazistas e os albaneses aos judeus da Segunda Guerra Mundial.

No entanto, observa Fisk, "desafiar a autoridade faz parte do trabalho de um jornalista". Qualquer autoridade. E esse é o primeiro ponto que se deve considerar quando se trata de nossa profissão. Jornalistas não são sacerdotes nem se espera que sejam militantes de causa alguma. Dessa não-militância é que resulta sua competência moral para o desafio. Devem desenvolver uma persona profissional tal que – a despeito de crenças e valores pessoais, compromissos de classe e de cultura – possam registrar os fatos e idéias do nosso tempo com honestidade, concedendo à fonte o direito de ser como é e ao público o direito de escolher de que lado ficar.

No entanto, desde sua formação escolar e ao longo da vida, jornalistas são assaltados por ideólogos de diferentes cores – revolucionários, reacionários, guerreiros, pacifistas, homossexuais, ecologistas e místicos– todos pretendendo convencê-los a aceitar versões sem crítica e a fraudar os fatos em nome de grandes ou pequenos objetivos.

Nas últimas décadas, esse assalto às escolas de jornalismo e aos meios em que circulam jovens jornalistas tornou-se insuportável. Antropólogos insistentes, sociólogos apaixonados, psicólogos confusos somam-se às estruturas de propaganda do Estado e do poder econômico para despejar sobre estudantes e repórteres as fantasias de suas frustrações e de seus conhecimentos transformados em matéria de doutrina.

Nada contra a Antropologia, a Sociologia ou a Psicologia. No entanto, vemos um encontro nacional de estudantes de Comunicação como esse que se realiza agora em Maceió, capital das Alagoas, estado nordestino brasileiro que é um dos lugares mais miseráveis do universo, segundo no ranking mundial de mortalidade infantil. E o que discutem esses estudantes? As condições históricas que conduziram a essa pobreza? A odiosa contradição entre a miséria do povo alagoano e o luxo da orla marítima, com sua alta concentração de automóveis caros, playboys, drogas, pistoleiros e prostitutas? Especulam sobre a ameaça de intervenção dos Estados Unidos na Colômbia? Meditam sobre o servilismo dos correspondentes de guerra em Kosovo? Questionam a possibilidade de se estender a todos os homens, ou à maioria deles, os avanços da ciência e tecnologia modernas? Não. Discutem o sexto sentido, a holística e o tarô.

Vivemos uma época em que os centros frouxos que assumiram o poder mundial, em última instância, controlam tanto os discursos oficiais quanto os de contestação. Por um lado, as instituições mantêm sua prática do auto-elogio e desenvolvem raciocínios pelos quais sempre estão certas e são justas. Por outro, os descontentamentos são canalizados para questões existenciais, problemas que se situam fora da História ou campanhas em que preocupações legítimas servem de biombo para esconder o medo do conhecimento e o horror à ciência. Milhões e milhões de dólares têm sido aplicados no financiamento de pesquisas, na área das ciências humanas, com o objetivo não de descobrir algo verdadeiro e útil, mas de impedir que elas reflitam as tensões sociais geradas pelo desemprego, pela perda de conquistas sociais e pela concentração de poder e riqueza que caracterizam o processo de globalização.

Estranhas teses resultam desse investimento. Ao lado de um conhecimento que, na área das ciências da natureza, penetra em velhos campos de mistério, desvendando os mecanismos da mente e penetrando nos segredos da vida – desde o genoma até a clonagem – , surgem, na área humanística, afirmações espantosas. Pois não diz Sandra Harding, autora hoje muito citada, em The Science Question of Feminism (Cornell University, 1986) que a Física "é não apenas sexista, mas também racista, classista e culturalmente repressora"? Não afirma outro desses sábios pós modernos, Fox Keller, em entrevista citada por Gross e Levitt, em Higher Superstition (John Hopkins Univesity, Baltimore, 1998), que os aceleradores de partículas "torturam a natureza para arrancar seus segredos"? Não afirma sempre Bruno Latour, em seu extremado relativismo, que não há grande diferença entre ciência e ficção?

Algumas dessas teorias ou fantasias que hoje prosperam são particularmente temíveis para nós, da América Latina. Somos povos mestiços. Nossos colonizadores, da primeira leva da expansão mercantil, não estavam armados com os preconceitos da moral calvinista. Assim, foram brutais, cruéis na exploração dos povos dominados, mas implantaram relativa tolerância racial, que resultou em intensa miscigenação. Levas sucessivas de migrantes resultaram em sociedades nas quais a convivência é não apenas conveniente, mas fundamental. A pregação constante do orgulho étnico, que tanta desgraça causa pelo mundo, é, assim, uma ameaça a nossas sociedades e a nossa existência nacional. Essa defesa disfarçada do apartheid, freqüentemente proposta sobre supostas razões históricas – como se cada um de nos tivesse herdado a culpa pelo colonialismo – não representa, na verdade, oposição ao racismo, mas o reativa, contribuindo para ocultar as relações econômicas que são as efetivamente responsáveis pela desigualdade em nossos países.

Por outro lado, bilhões de dólares estão sendo transferidos dos cofres públicos dos países desenvolvidos para organizações não governamentais. Incumbidas de um complexo de tarefas que supostamente deveriam tornar suportáveis as condições do atual pacto de dominação, essas entidades, ditas não lucrativas, incluem segmentos religiosos e leigos que se caracterizam pelo reacionarismo genérico oposto a qualquer avanço científico. O meio acadêmico é um dos objetivos prioritários de sua atuação. Com ela renascem atitudes medievalistas, velhos misticismos que, na academia, ocupam o espaço vazio dos grandes modelos de explicação do mundo, como o marxismo

No caso da formação dos jornalistas, outra praga, essa cultivada no campo dos estudos de linguagem, compromete ainda mais os programas de ensino. A teoria lingüística, atenta a aspectos técnicos mas não aos políticos, deixou de considerar relevante a existência de línguas de cultura nacionais, optando por igualar dialetos e idioletos numa suposta democracia da palavra. Em decorrência, é cada vez mais difícil encontrar professores capazes de ensinar a língua padrão, normalizando as formas de dizer em países extensos e de cultura diversificada como o Brasil. A língua nacional já não é praticamente ensinada no 1º e 2º graus, onde a substituem, em geral, por supostos exercícios de criatividade. Mesmo na Universidade este ensino está se tornando raro. No entanto, jornalistas escrevem na língua padrão – e a inadequação dos jovens profissionais para a produção de textos é a maior queixa de editores e empresas.

2. O conceito moderno de Jornalismo

Esse é um resumo de nossos problemas que, como se vê, têm origem variada. Uma dessas origens é uma concepção arcaica de nossa profissão. Quando surgiu, no Século XVII, o jornalismo era essencialmente publicismo. A burguesia utilizou amplamente os periódicos impressos em sua luta pelo poder, por todo o Século XVIII. Os jornais eram lidos como panfletos e os leitores valorizavam mais que tudo o editorial.

A mudança começou com a Revolução Industrial, no Século XIX. Na medida em que o público leitor se tornava multidão, graças à difusão do ensino público na Europa, as triagens cresciam e o investimento na produção de um veículo aumentava, com a mecanização, o conteúdo relevante dos jornais deslocou-se para os segmentos de informação e entretenimento. Foi aí que nasceu a notícia, a reportagem e o jornalismo como o conhecemos hoje.

O controle dos veículos pelos bancos que os financiam e pela publicidade que os sustenta não consegue impedir, assim, a diversidade, que é sustentada por uma razão de mercado. O jornal – a informação jornalística em geral, em impressos, no rádio, na televisão ou na Internet – é atualmente produto de primeira necessidade, sem o qual o homem moderno não consegue gerir sua vida produtiva, programar seu lazer, orientar-se no mundo e, finalmente, formular suas opiniões. É uma forma de conhecimento e um serviço público essencial. Nesse contexto, nada mais inútil do que um jornalista militante, cujo discurso se pode adivinhar antes mesmo de lê-lo ou ouvi-lo.

A técnica da notícia jornalística é um dos raros exemplos de texto desenvolvido fora da tradição da literatura, com base na maneira espontânea com que as pessoas contam umas às outras suas experiências. Ela se difundiu basicamente a partir dos Estados Unidos quando, após a guerra civil, esse país viveu sua própria revolução industrial com rapidez e intensidade sem precedentes, alimentada por levas e levas de imigrantes da Europa.

Nada disso pertence ao universo de conhecimento da Academia. Atrasada em relação à realidade, ela vê no jornalismo apenas doutrinação e nos jornalistas instrumentos do poder. A teoria dominante nos meios universitários é ainda a da agulha de injeção, segundo a qual os veículos inoculam nas pessoas um veneno para o qual elas não têm defesa. Essa crença perpassa os textos da influente Escola de Frankfurt, base da formação da maioria dos críticos de imprensa do meio universitário. No âmbito de Frankfurt, revestida de formas requintadas de pensamento e estilo, na tradição da filosofia alemã, a classe operária, que Marx sonhou ser a portadora do futuro da humanidade, transforma-se paulatinamente em massa, objeto inerte de dominação.

Ao mesmo tempo, inspirados no estruturalismo lingüístico, os críticos acadêmicos buscam nos jornais mitos e metáforas, sem perceber que eles não são criados ali, mas em centros de poder, entre os quais avulta a própria academia.

De todas as invenções da minoria culta contra o jornalismo, talvez a mais perversa seja a da categoria da alienação. Segundo a doutrina que se ensina em nossas escolas, todo noticiário que não é político, que não se reporta ao teatrinho de fantoches onde se apresentam figuras como Pastrana, Banzer, Chaves, Menen ou Cardoso, é pura alienação. No entanto, se a revista erótica é alienante, também é alienante a mulher amada. Se o suplemento de turismo é alienante, também é alienante a paisagem magnífica. Se a notícia esportiva é alienante, também é alienante a prática do esporte. Se a revista para adolescentes é alienante, também são alienantes as paixões e os conflitos da adolescência. A vida se resume, então, ao universo patético em que supostos revolucionários meditam sobre sua própria impotência.

Outra vertente da crítica inábil do jornalismo é uma visão estreita do próprio processo de comunicação. Embora haja vários modelos para esse processo, a Academia elegeu o primeiro e o mais simples deles, o de Shannon e Weaver, como paradigma. Pelo modelo de Shannon e Weaver, desenvolvido por esses engenheiros para dar conta de circuitos telefônicos, a mensagem é produzida pelo emissor, codificada, caminha por canal até o receptor, que a decodifica e reconstitui. O erro consiste no conceito de produzir: é possível que Van Gogh tenha efetivamente produzido a mensagem de seus quadros; não é verdade, no entanto, que o repórter de polícia produza em sua mente a mensagem em que relata um atropelamento. Ele apenas a formula a matéria, com base em informações que colhe na fonte. Jornalistas não inventam ou criam a informação que publicam. Eles partem de relatos e da observação e traduzem para uma linguagem padrão o conjunto do que perceberam.

Se os intelectuais fossem mais laboriosos em sua pesquisa, constatariam que o modelo de Gerbner, por exemplo, dá conta desse processo em que, em lugar de produzir a mensagem, o emissor percebe uma informação, a reelabora e transmite. Mas também não é certo que as proposições de uma linguagem sejam apenas conceitos codificados. Uma frase simples, como "todo homem é mortal", tem 144 significados diferentes, se consideradas as ambigüidades de suas partes e das regras que as combinam. O processo de decodificação é, na verdade, complementado por amplo e inteligente processo de inferências, estudado, no âmbito da Teoria da Cognição, por autores que a Academia latino-americana ainda conhece pouco, como Paul Grice e sua Teoria da Conversção; Johnson Phillip-Laird e sua Teoria dos Modelos; Dan Sperber e Deidre Wilson e sua Teoria da Relevância.

3. Os problemas atuais do Jornalismo

No meio profissional, aquele que se refere á realidade e não ao delírio acadêmico, os problemas são outros. Por exemplo: a concentração dos grandes veículos de comunicação e, em contrapartida, a existência crescente de veículos alternativos, dos quais o mais evidente é a Internet. Com a edição não-linear em rádio e televisão e a pluralidade de canais, que já são centenas e poderão chegar aos milhares ou centenas de milhares em pouco tempo, abre-se um campo fantástico à democratização da informação. Como a produção jornalística obedece hoje a padrões profissionais de qualidade, inigualáveis por amadores, coloca-se a questão de formar produtores para essa intensa demanda.

Ou ainda a questão ética. Até que ponto a prática do jornalismo fere direitos individuais e o direito das instituições de resguardarem seu prestígio e seus segredos? Até que ponto devem os jornalistas de nossos países concentrarem-se na cobertura dos atos e feitos oficiais, quando sabemos que nossos governos, nas atuais circunstâncias, são meros títeres de poderes maiores, sejam políticos ou econômicos? De que forma revelar a realidade de nossos países, sem banalizar e folclorizar a miséria? Como tornar atraente para o público em geral a informação macroeconômica e de ciência e tecnologia que são o que há de mais nobre no jornalismo contemporâneo? Que transformações trará, para técnica tradicional da notícia, a incorporação necessária de infográficos e, em geral, dos recursos multimídia? Como gerir com eficiência pequenas, médias e grandes unidades produtoras de informação em ambientes altamente competitivos? Quais os recursos legais para enfrentar o recrudescimento da censura e das formas veladas de controle da informação pelo Estado e pelas instituições do poder financeiro?

São problemas concretos. Se nos dispomos a enfrentá-los e a engajar nesse processo as instituições universitárias, precisamos de uma nova abordagem do jornalismo, de uma visão crítica com relação aos preconceitos com que tradicionalmente a Academia vê o nosso ofício.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que a ética do Jornalismo é de formulação simples. Jornalistas devem basear-se:

  1. na reverência diante dos fatos e das verdades científicas;
  2. no descompromisso com teorias e versões de fatos; e
  3. no respeito às pessoas que, sendo fonte ou público, sustentam tais teorias e versões.

Dos três itens, o mais sensível e o segundo, que trata do descompromisso com teorias e versões. Transmitir informações, interpretá-las sem comprometer-se, preservando, ao mesmo tempo, os valores e crenças individuais, é um exercício de uso da terceira pessoa que envolve treinamento e competência crítica. No entanto, ainda o estuprador, o celerado, o pedófilo, um serial killer, um imperador como Nero ou um ditador como Adolf Hitler devem ter suas razões expostas, porque jornais se escrevem para seu tempo e para a História.

Mesmo a opinião manifesta, que é mais rara e cada vez menos relevante no jornalismo moderno, deve contentar-se em ser expressão de um sentimento coletivo e não do viés pessoal do jornalista que a formula. Nada mais tolo do que um editorialista assalariado de jornal econômico assumir como se fossem suas as teses do grande capital ou do que o jornalista empregado de um sindicato de alfaiates fingir serem suas as reivindicações dos alfaiates.

4. Por uma formação específica

Diante desse quadro, chegamos, por fim, à formulação de nosso problema: como formar jornalistas, nas circunstâncias atuais?

Em primeiro lugar, defendemos a formação universitária, apesar de todas as dificuldades que expusemos longamente. As razões dessa escolha fundam-se no senso comum. A responsabilidade envolvida no tráfego de informações, a sofisticação tecnológica e a relevância do direito dos cidadãos à informação indicam a necessidade de estudos demorados para a prática do Jornalismo – estudos que, como acontece com as demais profissões de nível superior, deverão estender-se por toda a vida.

Em segundo lugar, admitimos a formação profissional pós-graduada, desde que em cursos com extensão equivalente ao mestrado e com mais de metade da carga horária ocupada por disciplinas técnicas.

Em terceiro lugar, o mais importante, advogamos uma orientação nova nas escolas, que devem voltar-se para a realidade dos jornalistas como categoria e da atividade como empreendimento. Isso implica, naturalmente, o distanciamento dos estudos de comunicação, tais como vêm sendo habitualmente praticados, porque neles não há lugar para o Jornalismo como o concebemos.

O conceito de comunicação, em sua origem histórica, é avesso ao Jornalismo. Ele é considerado exclusivamente por sua vertente originária, publicística, rejeitando-se toda possibilidade de um Jornalismo que seja serviço público e de uma informação que seja conhecimento.

São várias as origens dessa distorção.

Ela encontra, como vimos, guarida no pensamento acadêmico marxista, embora Karl Marx tenha sido, em sua maturidade, um jornalista competente no conceito atual, como prova a leitura de sua produção, como correspondente de jornais americanos na Europa. Pode-se mesmo dizer que a incapacidade para formular um conceito correto de Jornalismo é fator relevante no complexo que conduziu ao fracasso da experiência soviética, na medida mesmo em que ela não conseguiu gerar uma sociedade democrática.

Mas a visão reacionária do Jornalismo está também implicada no modelo da comunicação social concebido na sociedade ocidental, a partir da idéia de "fabricação do consentimento" para o progresso, implicada nas teses de Walter Lippman, na década de 1920. Na década de 1960, quando os americanos temiam a difusão pela América Latina dos ideais da Revolução Cubana, a Ciespal impôs a nossos países um ensino polivalente que deveria formar, ao mesmo tempo, jornalistas e publicitários, radialistas e cineastas, relações públicas e produtores de livros. Associando jornalismo a jornal, sem perceber, num caso típico de miopia de concepção, que se tratava de algo mais amplo – a informação pública – , a Ciespal subordinou, assim, a formação dos jornalistas a uma área teórica ideologicamente comprometida. E esse legado nos ficou da guerra fria.

Para consolidar o casamento tempestuoso, ao longo desses anos, contribuiu o fato de que o jornalismo, sendo profissão que nasceu à margem da Academia, não contava em seus quadros com professores de carreira, pós-graduados, em número bastante. No entanto, no Brasil, nos últimos 15 anos, a partir do currículo mínimo de 1984, que impôs que as disciplinas técnicas ocupassem metade do tempo do curso, formou-se a massa crítica necessária. Há hoje bem mais de uma centena de jornalistas com doutorado e mestrado, muitos mais se formam a cada ano, e a eles se somam dezenas de profissionais de outras áreas, interessados no Jornalismo, fascinados por ele ou empenhados e estudá-lo a sério e sem preconceitos.

Cursos de Jornalismo devem ser coordenados por jornalistas competentes e ministrados dominantemente por jornalistas atentos à realidade da profissão. Isso hoje já é possível.

E de que deve constar um curso de Jornalismo? A nosso ver, é adequada a porcentagem de 50%, em cursos de quatro anos, prevista na legislação brasileira para as disciplinas técnicas. O jornalista é, antes de mais nada, pessoa que escreve e edita informação em diferentes meios e a competência algo fundamental para que se possa exercer a profissão com dignidade.

Quanto ao restante do curso, ele deve incluir uma porcentagem não superior a dez por cento do total – ou um quinto das disciplinas não-técnicas – com a exposição das teorias da informação e da comunicação, com ênfase para os estudos teóricos de inferência, que incluem o binômio lógica/reconhecimento de padrões. Nos 40 por cento restantes, é essencial prover informação ampla, honesta e equânime sobre os fatos e idéias de nosso tempo, criando as bases de um aprendizado que se estenderá ao longo do exercício profissional e por toda a vida do jornalista.

Esse é o projeto que temos. O projeto em que está engajada a Universidade em que trabalho. O projeto a nosso ver mais justo, que submeto a apreciação dos eminentes colegas professores aqui reunidos.


* Nilson Lage es periodista, profesor-investigador de la Universidade Federal de Santa Catarina y colaborador de Sala de Prensa. Esta fue la ponencia inaugural del II Encontro Latino-americano de Professores de Jornalismo, celebrado en São Paulo, Brasil, en agosto de 1999.


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