Sala de Prensa

104
Junio 2008
Año X, Vol. 4

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


O computador no jornalismo brasileiro

Marcelo Soares da Silva *

Em abril de 2003, completou vinte anos a primeira experiência de informatização no jornalismo brasileiro. Ela ocorreu na Folha de S.Paulo, em 1983, quase um ano antes da implantação do Projeto Folha,1 e foi o marco simbólico das reformas no jornal. Cinco anos depois da primeira redação informatizada, todos os principais jornais brasileiros já contavam com computadores.2

Hoje, os computadores são uma ferramenta básica do trabalho jornalístico, tanto para escrita quanto para comunicação e pesquisa. Mas, na época, a mudança foi quase repentina para os jornalistas. Dez anos antes, em livros e seminários, o computador era ficção científica.3 Vivia-se no período de reserva de mercado para a indústria nacional de informática, e qualquer compra de computadores em grande escala – como para redações, por exemplo – envolvia uma burocracia mastodôntica.

Segundo Maria José Baldessar,4 "a adoção do computador foi simultânea no país inteiro, revelando a necessidade das empresas de se modernizarem para enfrentar as exigências do mercado". O uso dos novos sistemas visava reduzir custos no futuro, tornando mais direta a relação entre a redação e a gráfica, mas também estava vinculado a um contexto de modernização administrativa das empresas, profissionalizando seu pessoal e criando sistemas industriais de gestão da produção.

Baldessar resgata relatos sobre a adoção das máquinas de escrever pelas redações brasileiras, entre o final dos anos 30 e meados dos anos 40, para traçar um paralelo. O uso da máquina de escrever era exigido para que os gráficos não tivessem problemas para compreender as diferentes caligrafias dos jornalistas, e assim pudessem compor o texto mais rapidamente para que as páginas fossem impressas mais cedo. O mesmo ocorreu na implantação dos computadores, quatro décadas depois. Segundo Carlos Eduardo Lins da Silva, pouco tempo depois da implantação dos terminais a Folha anotava uma vantagem de 40 minutos no processo industrial do jornal em relação ao sistema anterior.

Segundo Elio Gaspari,5 a primeira onda de informatização deu gradualmente aos jornalistas funções de gráficos, mas não trouxe mudanças significativas no conteúdo das notícias. Para os jornalistas, o computador era uma máquina de escrever sem papel. Em setores técnicos como a fotocomposição, a máquina organizava o texto em títulos, colunas e legendas, que depois eram recortados e colados em chapas de acrílico (os pestapes, aportuguesamento de "paste-up", suporte para colagem). O procedimento durou até meados dos anos 90, quando foram adotados programas de editoração eletrônica que permitiam ao diagramador compor a página toda na tela. Também nos anos 90 foram incorporados às redações softwares que tratavam fotos, ampliando-as e diminuindo-as e colocando-as diretamente na página – eliminando o setor de fotomecânica, em que o tratamento das imagens era feito em grandes câmaras escuras.

Nada disso, nos primeiros 15 anos, alterou a forma como os jornalistas apuram a informação – apenas como eles a apresentam. "Os jornalistas foram obrigados a produzir textos mais curtos, a escolher títulos sintéticos, a se preocupar com o uso da imagem. Proliferaram as colunas de notas curtas, que têm um número elevado de leitores. Passou-se a utilizar com mais intensidade recursos gráficos como tabelas, quadros e mapas", enumera Alzira Alves de Abreu.6

A pesquisadora, uma autoridade no estudo da história política brasileira do século 20, observa que outras alterações na forma do jornal, além da redação, também foram conseqüência da introdução dos computadores e levaram a mudanças na redação:

O objetivo das empresas de comunicação, ao adotar novas tecnologias, era em última instância baratear seus custos operacionais. Essa economia futura exigia de início pesados investimentos em equipamentos, que por sua vez requeriam a imediata rentabilidade do veículo. Foi nesse quadro que, levando-se em conta que quanto mais público, mais publicidade, um novo elemento se tornou fundamental para os meios de comunicação: o marketing.7

O marketing levou à criação de cadernos voltados para públicos específicos e suplementos publicitários. Levou, nos anos 90, à tendência do "infomercial", uma mistura de publicidade com informação jornalística – que causa polêmica no mundo inteiro. "Por pressão da publicidade, por exemplo, quase todos os jornais de grande circulação nacional passaram a usar cor, o que os obrigou a melhorar a qualidade do papel", escreve Alzira Alves de Abreu.8 Mas a maior parte dessas decisões estava fora da redação.

O silêncio e o texto final

Desde o início, a mudança trazida pela tecnologia no trabalho dos jornalistas era percebida fundamentalmente na forma como se tratava o texto – até porque, historicamente, o jornalismo é mais facilmente compreendido como uma atividade de produção de textos, não exatamente de informação. Os jornalistas que acompanharam o processo observavam, com admiração, como o computador permitia um controle maior sobre o texto (não era preciso bater novamente o texto inteiro para corrigir uma só linha, por exemplo) e como as redações ficaram mais limpas e silenciosas. Darci Demétrio, um veterano das redações gaúchas, escreveu o seguinte sobre o assunto em 1991:

Antes, o piso vivia coalhado de papéis amassados, porque na pressa de fazer suas tarefas o jornalista não tinha muita preocupação em jogá-los na cesta de lixo. Agora, o ambiente é semelhante ao da sala de uma dona-de-casa obcecada pela limpeza. O papel também perdeu a utilidade; só quem o usa é quem sai à rua em busca de notícias e os diagramadores. Mas calculadoras, réguas, catálogo de títulos e letras, usados pelos diagramadores, também vão pro espaço. Os cálculos são feitos pelo computador e devolvidos em forma de expressões em código, ao terminal.9

Uma expressão-chave encontrada em praticamente todos os textos publicados sobre os computadores nas redações entre o final dos anos 80 e o começo dos anos 90 é "texto final". Ela é recorrente, por exemplo, em artigos da Revista Imprensa e da Revista de Comunicação entre 1987 e 1995, e em trabalhos sobre a entrada o computador nas redações. Um exemplo é este trecho de um estudo de Sérgio Capparelli sobre as mudanças organizacionais a partir da chegada do computador ao jornal Zero Hora, em 1988:

Ainda no início dos anos 70, a rotina do trabalho jornalístico pressupunha uma pauta, o deslocamento junto com um fotógrafo para a cena de um acontecimento, entrevistas, volta à redação, reconstrução do fato através de modelos do discursos jornalístico, leitura do texto produzido por um chefe de reportagem, correções do texto por um redator ou copidesque edição, cópia do texto para impressão, revisão e passagem para o processo industrial propriamente dito. A primeira mudança foi o fim do copidesque nos anos 70, pois o jornal começou a contratar repórteres com texto final, submetidos a uma contagem periódica do número de laudas produzidos num determinado período de tempo. A informatização do jornal em 1988 reforçou essa tendência, com a utilização do texto já digitado pelo próprio repórter levando a despedida em massa dos revisores, cargos privativos de jornalistas.10

Texto final significava que o repórter era o último a mexer em seu texto antes de o editor mandá-lo para a página. Na Folha, a informática levou à extinção do cargo de revisor de provas tipográficas – com cem demissões – e também à necessidade de o repórter escrever diretamente o texto que seria publicado, sem a intermediação de redatores ou revisores. Segundo Carlos Eduardo Lins da Silva, isso acabou com a desculpa do "erro de revisão" para justificar problemas nos textos.11 O setor de copidesque, introduzido na imprensa brasileira nos anos 50, passou a ser extinto a partir da década de 70.

Em vários jornais, parte do arquivo foi transposta para sistemas informatizados.12

Mudanças com a internet

Os jornalistas brasileiros só começaram a perceber alguma possibilidade de usar o computador para melhorar a qualidade da informação que publicam a partir da chegada da internet às redações. Ela só se tornou comum entre 1997 e 1998.

Antes disso, já havia algumas experiências. Desde 1995, o Jornal do Brasil havia implantado o pioneiro JB Online. No mesmo ano, a Folha de S.Paulo colocou em sua redação um terminal para que uma jornalista fizesse pesquisas. Foi criada uma coluna sobre a rede e a Folha, em sociedade com o grupo Abril, criou o Universo Online. Em 1996, a RBS compraria o provedor de acesso Nutec, transformando-o no Zaz. Mais tarde, ele seria vendido à empresa espanhola Terra, que seria comprada pela Telefónica de España.

Por quatro anos, as empresas tateariam no escuro buscando formas de capitalizar o uso da internet. Publicidade? Poucos arriscavam anunciar num meio que não era de massa. Tentou-se o provimento de acesso. O Universo Online foi uma das primeiras e mais bem-sucedidas tentativas, em que pese os gigantescos prejuízos que registra.

Em 1999 e 2000, foi registrado o "boom" da chamada "nova economia". Diversas empresas de internet eram formadas, contratando jornalistas para produzir "conteúdo" (a palavra de ordem) com altos salários, o que inflacionou o mercado. Jornalistas de prestígio, como Ancelmo Góis e Lilian Witte-Fibe, eram contratados a peso de ouro para atrair audiência para websites. O fim do ciclo, em 2001, após a verificação de que não houve novas fontes de recursos financeiros para a mídia, gerou uma série de demissões em massa de jornalistas, os famosos "passaralhos". Essa crise tem impactos até hoje.

Desde 1997, aos poucos os jornais começaram a tentar usar a rede como fonte. Como há pouca bibliografia sobre o assunto, abro aqui um parêntese para um pouco de exercício testemunhal, que ilustra como os jornais se adaptaram à chegada do novo meio.

No Correio do Povo, a internet chegou em meados de 1996. Inicialmente, havia dois ou três computadores que acessavam a rede. Mas também não se sabia exatamente o que fazer dela, nem em termos empresariais e tampouco em termos jornalísticos. O jornal criou um provedor de acesso à rede e um website entre abril e julho de 97. A idéia era cravar a bandeira do Correio do Povo na internet. O site apenas transpunha cada texto do jornal para a internet, sem atualizações durante o dia, como já estava começando a se tornar comum então. Ainda hoje, o site é semelhante ao que era nos seus primórdios.

Dois meses após a implantação do site, o editor-chefe, Telmo Flor, decidiu utilizar a internet para melhorar o uso da informação na redação, para que os jornalistas usassem em seu trabalho os recursos disponíveis online. Até então, eles apenas tinham acesso ao e-mail. Poucos computadores acessavam a rede, e gradualmente foi liberado o acesso em todos eles. Para ajudar os jornalistas nas pesquisas, criei a página chamada Bússola Internética.13

Dividida em seções por editoria (política, economia, geral, rural e variedades), a Bússola tinha links para diversos recursos de pesquisa, que eu passava horas buscando na rede. De dicionários online a enciclopédias, dos jornais de outros países a tradutores eletrônicos, das páginas com informações oficiais a localizadores de cidades no mapa. Isso poupava consultas ao funcionário designado para facilitar o uso da rede e encorajava os jornalistas a se tornarem autodidatas na busca de informações na internet.

Posteriormente, por sugestão e insistência da redação, o website do Correio do Povo passou a contar com um mecanismo de busca de textos já publicados. Até então, como o arquivo de jornais não era informatizado, os jornalistas precisavam contar com a própria memória para saber o que já havia sido publicado anteriormente sobre o assunto do dia. Agora, contavam com um artifício a mais – que, embora menos eficiente que um arquivo digital devidamente indexado, era imensamente mais prático do que o que se tinha antes, com a simpática vantagem de os leitores também terem acesso a ele.

Usar a internet impedia o jornal de levar furos: até então, o editor-chefe contava apenas com um resumo enviado à meia-noite, pela Agência Estado, informando as manchetes dos jornais do resto do país. Com a internet, ele podia conferir alguns jornais de fora do Estado, e por várias vezes ele mobilizou repórteres após a meia-noite para recuperar informações exclusivas publicadas em outro Estado. Usar a rede também permitia aprofundar a informação publicada. Com a internet, se pôde levantar rapidamente uma breve biografia do presidente da Funai morto num acidente de avião em 1998.

As pesquisas na internet, guiadas pelo faro jornalístico, também permitiam dar furos. No começo de 1999, durante a crise financeira da desvalorização do real, alta dos juros e troca de presidentes do Banco Central, o editor-chefe solicitou uma pesquisa sobre o que afinal era o sistema de metas de inflação, que havia sido mencionado casualmente por Armínio Fraga quando foi anunciado como presidente do BC. Com base em estudos estrangeiros, o jornal antecipou numa manchete de domingo os principais contornos do  sistema, oficialmente anunciado apenas na semana seguinte.

O uso da internet para fins informativos continuou no Correio do Povo depois de 99. Seu animador foi o chefe de reportagem Paulo Acosta, fascinado pelas possibilidades da informática. Nas eleições de 1986, ele criara um programa de computador simples para tabular e prever as tendências do resultado da contagem de votos para a Rádio Guaíba. Além dos recursos da Bússola, ele recolheu outros websites úteis para os jornalistas do Correio e criou o Saiti,14 que também publica textos informativos e humorísticos.

Isso durou até os primeiros meses de 2001, quando o departamento de informática cortou o acesso dos jornalistas à rede após um ataque de vírus que quase impediu o jornal de ser publicado certa noite. Para evitar novos vírus, em vez de implantar programas antivírus mais eficazes e educar os jornalistas sobre que tipo de mensagens não deveriam ser abertas, os técnicos de informática optaram por castrar o acesso dos jornalistas à rede.

Até a data em que este capítulo estava sendo escrito, Paulo Acosta só havia conquistado a liberação de três computadores para a pesquisa, todos eles fora da rede interna do jornal. Um deles ganhou o apelido de "drive-thru", como as lanchonetes onde se entra de carro, pega-se o lanche e vai-se embora.

Primeiros sinais de CAR

As primeiras menções e tentativas de se implantar a reportagem com o auxílio do computador em redações brasileiras datam de 1994, quando ainda era incerto o panorama das mudanças que a tecnologia traria à imprensa. Internet ainda era quase ficção científica no Brasil, numa época em que o presidente norte-americano Bill Clinton falava de maneira otimista em uma Superestrada da Informação; TV a cabo, uma aposta recém-iniciada no país. Os grupos brasileiros de mídia queriam saber como colocar seus meios de comunicação na era da informática. Foi o início de uma época de grandes investimentos, que teve seu auge entre 1999 e 2000 e declinou logo depois, gerando a profunda crise atual.

Em 1994, uma comissão de editores de jornais brasileiros viajou aos Estados Unidos a convite do governo americano, para conhecer as últimas técnicas e tendências do jornalismo daquele país. Durante dez dias, o grupo visitou redações americanas, observando como os jornais organizam suas equipes de reportagem, como eles imprimem jornais, como os jornalistas se associam. Marta Gleich, hoje editora-chefe de Zero Hora, esteve na comitiva e forneceu a este trabalho o panorâmico relatório que apresentou, na volta, à direção do jornal. Naquele tempo, a principal preocupação refletida pelos jornalistas era sobre a permanência dos jornais num mundo informatizado. No relatório, Marta transcrevia declaração de um dos diretores do New York Times, dizendo que o Times seguiria editado mesmo após a publicação de sua última edição de papel.15

Outro dos jornalistas presentes à comissão era Marcelo Beraba, então um dos principais editores da Folha de S.Paulo e, oito anos mais tarde, fundador e primeiro presidente da Abraji. Em entrevista para este trabalho, ele conta que ficou impressionado com as aplicações da informática para a reportagem, também mencionadas em um parágrafo do relatório de Marta Gleich. Elas foram apresentadas durante visita à Investigative Reporters and Editors. Ao voltar a São Paulo, Beraba solicitou à direção do jornal a instalação de uma bancada de computadores com os principais recursos informatizados da época, para que alguns jornalistas selecionados pudessem começar a experimentar com análises de bancos de dados. No pequeno grupo, estavam José Roberto de Toledo, Fernando Rodrigues, Cláudio Tognolli, Mário César Carvalho e João Batista Natali. Ao lado de Beraba, os três primeiros fazem hoje parte da diretoria da Abraji.

Todos os jornalistas que fizeram parte daquele grupo passaram a aplicar análises informatizadas em seus trabalhos. Fernando Rodrigues, por exemplo, produz desde 1996 um caderno anual chamado "Olho no Congresso" ("Olho no Voto" em anos eleitorais), que compara o desempenho parlamentar de todos os deputados federais e senadores, atribuindo notas a eles. Tognolli e Rodrigues foram enviados a um congresso da IRE naquele ano.

Vindo daquele grupo, o primeiro jornalista no Brasil a usar sistematicamente os computadores como uma ferramenta de apuração tal qual o bloco de notas e o gravador foi José Roberto de Toledo, ex-repórter especial da Folha de S.Paulo e hoje editor-chefe do Jornal do Terra. Desde 94, ele faz reportagens com análises de bancos de dados – principalmente sobre questões sociais, como violência, desemprego e pobreza. Mais recentemente, ele usou essas técnicas para analisar dados eleitorais sobre mapas, mostrando tendências regionais de voto.

A Folha continuou investindo na exploração das possibilidades da técnica. A partir de 1997, o jornalista mexicano Pedro Armendares, do Centro de Periodistas de Investigación, passou a ser convidado para falar sobre CAR aos alunos do treinamento em jornalismo promovido três vezes ao ano pelo jornal. Em um breve período no Jornal do Brasil, Beraba buscou implantar por lá as técnicas de CAR entre 1996 e 1998. Enviou o repórter Bruno Thys a um congresso da IRE, e por algumas vezes convidou Pedro Armendares para dar palestras sobre o assunto no jornal.

O primeiro registro bibliográfico no Brasil sobre o uso de computadores para análise de dados com fins jornalísticos está no livro "Reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa", de Nilson Lage.16 Publicado em 2001, ele reserva um capítulo para apresentar as técnicas usadas nos EUA, com exemplos de reportagens bem-sucedidas e avaliações sobre as vantagens do uso desse tipo de técnica. "Trata-se de colher e processar informação primária ou, pelo menos, intermediária entre a constatação empírica da realidade e a produção de mensagens compreensíveis para o público", explica.17

No final de 2002, na reunião que formou a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, uma palestra do jornalista norte-americano Brant Houston, da Investigative Reporters and Editors, marcou a primeira vez em que jornalistas brasileiros – fora de iniciativas específicas e reservadas – tiveram acesso a informações sobre pesquisa e análise de informações online. Ele falou sobre como os jornalistas podem refinar seu método de busca de informações, mostrando como exemplo uma base de dados preparada por um jornalista americano – sobre ferimentos sofridos por caçadores –, demonstrou algumas operações dentro dela e mostrou a reportagem feita a partir do material.

Vera Pinheiro, do Jornal ANJ, resumiu assim a fala de Houston:

A festa acabou. A gente precisa aprender a escrever sobre números. Se repórteres entrevistam pessoas, podem entrevistar dados. A linguagem pode ser estranha, no início, mas depois que se 'aprende a buscar coisas úteis para construir uma história', fica-se mais confortável com as informações e mais feliz por ser capaz de fazer isso. Isso serve para quem não tem intimidade com os recursos que o computador oferece ao trabalho jornalístico e para quem não gosta de lidar com números, dados, estatísticas.18

"The party is over" foi a primeira frase da resposta de Houston a um jornalista da platéia que levantou a questão sobre a validade de fazer esse tipo de análise de dados. Segundo esse repórter, a falta de treinamento dos jornalistas para lidar com números tornaria inviável a técnica. Houston aproveitou a deixa para conversar com os jornalistas sobre alguns raciocínios que o jornalismo com o auxílio do computador traz sobre o papel da fonte (já discutidos em parte nos capítulos anteriores). Ainda no relato de Vera Pinheiro:

Lembrando que as pessoas não são perfeitas e os dados que elas produzem também não o são, Brant recomendou que os repórteres procurem saber de onde vêm os dados, como foram feitos os cálculos, que leiam toda a documentação para saber quem colocou os números da informação, quais são as falhas e só depois fazer a matéria. 'Os dados são limitados porque são feitos por pessoas, e todas as pessoas são falíveis e limitadas. Você não pode desafiar os números que não conhece'. 'A gente tem se cuidar e quem fez a estatística também', disse Brant, enfatizando que não se pode publicar dados estatísticos sem checar a metodologia e, se não entender, perguntar: 'por favor, me mostre como entender esse dado'. Além disso, sugeriu conversar com várias pessoas da área da matéria que está sendo elaborada. Sim, admitiu Brant, 'usa-se tempo para construir uma reportagem séria'. Para ele, uma boa reportagem não é escrita sem entrevistas adicionais e não admite apenas cópia de números. 'Temos de ter incertezas'. Embora o jornalista não tenha respostas certas, quando olha os dados tem perguntas novas. E mais: 'não se fala sobre números sem falar com pessoas'. Brant disse que não se sente bem com uma reportagem se ele não entrevistar pelos menos três pessoas que não se falam entre si.19

Formada a Abraji, foi criado um comitê especialmente voltado ao treinamento de jornalistas em técnicas informatizadas de pesquisa jornalística, dirigido por Toledo (diretor do comitê). Em agosto de 2003, um grupo de 22 jornalistas selecionados por Toledo participou de um curso dado por Brant Houston e um colega seu, Ron Nixon, nas dependências da Folha de S.Paulo. A idéia do curso era formar instrutores em CAR, sediados em diversas regiões do país, para que possam ser multiplicadores do uso da técnica por meio de cursos locais.

Nos meses posteriores a esse curso, houve treinamentos em Ribeirão Preto (SP) e em duas redações do grupo Globo: a de O Globo e a da equipe de jornalismo da TV Globo. No seminário da Abraji em Recife (PE), em novembro de 2003, foram dadas oficinas de CAR para quatro turmas de estudantes e profissionais. Na Rede Globo, no dia seguinte ao curso foi ao ar no Jornal Nacional uma reportagem questionando estatísticas da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro – toda ela apurada em uma planilha de Excel, mostrando como o governo ocultava dados de violência letal, separando nas estatísticas as ocorrências de homicídios das de encontro de cadáver – reduzindo, assim, os números.

Existe curiosidade pelo assunto, conforme demonstrada pela demanda por cursos de CAR nos seminários da Abraji e em consultas por e-mail à entidade. Mas ainda não se sabe ao certo o grau de segurança média dos jornalistas brasileiros no uso do computador. Em geral, ainda é raro que jornalistas brasileiros usem outros recursos informatizados para a busca e análise de informações, além da internet. Até hoje, não há levantamento preciso, além do anedótico, sobre o assunto no Brasil.

O uso da internet possibilitou avanços, como a pesquisa em bancos de dados online (como o do IBGE). Permitiu que jornalistas brasileiros iluminassem capítulos obscuros da história garimpando em sites de universidades americanas arquivos de documentos liberados pelos serviços de inteligência dos EUA, produzidos nos anos 60 e 70. Permitiu entrevistar por e-mail personalidades mundiais de destaque, e de forma democrática: tanto grandes meios, como O Globo, quanto meios menores, como a Folha da História, podiam fazer entrevistas com um Noam Chomsky, tendo seu e-mail e algum domínio do inglês.

Mas, como visto nos capítulos anteriores, o uso jornalístico dos computadores não se resume ao uso da internet, ao processamento de textos e imagens e à composição de páginas. Há aplicações, como os programas de manejo de bancos de dados e as planilhas de cálculo, que permitem encontrar grandes pautas – mas poucos jornalistas os utilizam.

Para avaliar a familiaridade com o computador

Não existem estudos sobre como os jornalistas brasileiros utilizam o computador para o seu trabalho. Com base nos censos americanos já debatidos no capítulo anterior, montei um questionário para avaliar a situação nacional. Ele cobre questões demográficas e técnicas. A intenção era avaliar o quanto a idade, localização e condição empregatícia do jornalista influi em sua familiaridade com o computador e percepção de necessidades (ou mesmo desejabilidade) de treinamento para um melhor uso em seu trabalho. Também avaliaria a familiaridade específica com determinadas utilidades informáticas.

Devido ao baixo número de respostas recebidas, não serão publicados aqui os resultados obtidos. Como essa informação teria enorme valor e justificaria um futuro trabalho, descrevo abaixo a metodologia criada por analogia para obtê-la.

O questionário – um formulário de sete páginas em formato .rtf (que abre nos principais processadores de texto) – foi enviado à lista de discussão da Abraji, que reúne quase 300 jornalistas.20 Ela é um universo de pesquisa interessante porque reúne de estudantes interessados no glamour da investigação jornalística a repórteres tarimbados e editores ocupados, de todos os Estados do Brasil e, eventualmente, do exterior.

Segundo Philip Meyer, pesquisas com formulários enviados pelo correio ou pela internet são ideais para mapear pequenos grupos.21

Alguns dos entrevistados que responderam à pesquisa, porém, observaram problemas sérios no tamanho do questionário em relação ao meio utilizado para a pesquisa. José Roberto de Toledo observou que muitos jornalistas poderiam se sentir intimidados pela forma e extensão do formulário, reduzindo a margem de respostas. Foi dado um mês de prazo. No primeiro dia, sete formulários foram recebidos. Apenas cinco vieram depois. Para uma pesquisa válida, será necessário repensar a forma de abordagem e amostragem.

Fiz algumas adaptações à metodologia de Bruce Garrison, descrita no capítulo anterior. Nos EUA, antes de a internet se popularizar, era comum os jornais assinarem serviços de pesquisa de textos online, como a base de dados Lexis-Nexis.22 Também antes da popularização da internet, os jornais tinham a opção de assinar serviços de bulletin-board system (BBS), que eram uma internet em menor escala, de troca de conteúdos entre os usuários desse sistema. No Brasil, isso não alcançou as redações, retardando a visualização da possibilidade de uso jornalístico de informações disponíveis online.

Outra alteração foi nas perguntas sobre os programas usados pelos jornalistas. Ao invés de manter o termo tecnicamente descritivo ("planilhas", "gerenciadores de bases de dados"), preferi descer ao nível mais popular dos usuários de informática: "Excel ou semelhantes", "Access ou semelhantes", etc. Também busquei maior precisão nas utilidades: "Excel ou semelhantes (para cálculos)", "Excel ou semelhantes (para organizar dados e elaborar gráficos)", etc.

Algumas das questões buscam mensurar o fato de que algumas redações brasileiras restringem o acesso dos jornalistas à internet, por medo de vírus ou por outras justificativas.

Também incluí no questionário perguntas sobre o grau pessoal de familiaridade dos jornalistas com o computador. Desde os anos 80, se tornaram populares no Brasil os cursos de informática, a que muitos acorrem para aprender o básico para mexer em um computador. A partir da segunda metade dessa década começaram a se popularizar microcomputadores caseiros, como o MSX, o TK-90X e os CP-400 (algo entre um videogame e um computador, ligados à TV e usados para jogos, surgidos durante a reserva de mercado para a indústria nacional de informática, derrubada no início dos anos 90). Hoje é comum às famílias de classe média (onde se encaixam os jornalistas) ter um PC em casa, quase como um eletrodoméstico análogo à TV.

O questionário inclui questões abertas e fechadas. As fechadas buscam avaliar com quais ferramentas da informática o jornalista já tem intimidade, ou quais já usou pelo menos como tentativa. Elas buscam também saber qual é a freqüência com que o computador é usado pelos repórteres brasileiros como algo mais do que uma máquina de escrever que deixa de funcionar quando falta luz. Também busco avaliar quais são os principais usos da internet feitos pelos jornalistas para seu trabalho. Nas questões abertas, peço exemplos desse uso, tanto perguntando por reportagens feitas com análise de bases de dados quanto com pesquisa na internet.

A partir dos dados americanos e do conhecimento da realidade brasileira sobre o contato entre jornalistas e informática, pode-se derivar algumas hipóteses preliminares:

a) Saber usar bem a internet é uma habilidade considerada desejável pela maioria dos jornalistas para seu trabalho;

b) Jornalistas com mais experiência de apuração tradicional tendem a dar menos importância aos recursos da informática em seu trabalho;

c) Jornalistas mais jovens, com experiência prévia em informática, tendem a ser mais abertos a isso;

d Essa habilidade provavelmente será mais bem cotada do que a de usar recursos de análise de informação, como planilhas e administradores de bases de dados;

e) Jornais maiores tendem a investir mais na obtenção dessas habilidades, e a valorizar jornalistas que as tenham;

f) Confia-se principalmente nas informações colocadas no ar pelos governos, por serem de fontes oficiais (tradicionalmente consideradas mais seguras);

g) O principal recurso online usado pelos jornalistas são os mecanismos de busca como Yahoo e Google;

h) Apenas uma minoria de jornalistas está disposta a incorporar a análise de bases de dados a seu trabalho;

i) Muitos usam poucos recursos da informática e deixam de aprender a usá-la com mais proveito a seu trabalho por falta de tempo.

Notas:

1 A história da informatização da Folha é contada em várias fontes. A principal é SILVA, Carlos Eduardo Lins da. "Mil Dias". O jornalista participou do processo de implantação dos terminais e do Projeto Folha, e o livro é um estudo sobre essa experiência. O artigo "Informatização e Edição", de Caio Túlio COSTA (in FOLHA. "Seminário de Jornalismo", 1986) também relata detalhes sobre os obstáculos encontrados na época.
2 DEMETRIO, Darci. "Não Quebre a Cara". Vozes, 1991.
3 Nos Cadernos de Jornalismo do JB, o computador era apresentado como algo extremamente distante. No "Seminário de Alto Nível para Jornalistas", ocorrido nesta UFRGS em 1974, a menção tecnológica era às telecomunicações. No livro "O Papel do Jornal", de Alberto DINES, nenhuma menção.
4 BALDESSAR, Maria José. "A Mudança Anunciada: o Cotidiano dos Jornalistas e a Revolução Informacional".
5 JORNAL ANJ.....
6 ABREU, Alzira Alves. "A Modernização da Imprensa (1970-2000). Zahar, 2003.
7 ABREU, idem.
8 ABREU, pg. 29.
9 DEMETRIO, idem, pg.93.
10 CAPPARELLI, Sérgio. "Zanzibar de novas tecnologias: imprensa regional e Zero Hora". Pré-textos Compós, 1997. Disponível em http://www.facom.ufba.br/pretextos/capparelli1.html
11 SILVA, "Mil Dias", pg.
12 Segundo informação fornecida por um dos entrevistados para esta monografia, o jornal onde trabalha, no Rio, chegou ao extremo de acabar com o arquivo do jornal por causa da quantidade de informações disponíveis de graça na internet.
13 Sua versão mais recente está disponível na internet, em http://www.geocities.com/mssilva.
14 Hoje em www.osaiti.com.br.
15 Hoje em dia, em grande parte o mesmo entendimento sobre o futuro da imprensa se consolidou entre as empresas jornalísticas brasileiras. "Entendemos que é esse ritmo de 24 horas e não o suporte – que pode ser tanto o papel quanto a tela – que define o jornal. Consideramos que essa necessidade até se acentua, na medida em que existe uma oferta muito grande, inassimilável de informação, com níveis de credibilidade muito díspares. (...) Então, a idéia de que os jornais tradicionais, seja no velho ou no novo suporte, sirvam como uma espécie de âncora, de referência informativa no meio dessa balbúrdia, dessa cacofonia noticiosa, é até uma oportunidade interessante a ser explorada pelos jornais", disse o diretor de redação da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, em entrevista à Revista Fapesp (janeiro/2004).
16 LAGE, Nilson. "Reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa". Record, 2001.
17 Idem, pg. 156.
18 "Repórteres devem adquirir familiaridade com números". Jornal ANJ, janeiro de 2003. Disponível em http://www.patamar.inf.br/webc/webs/anj/jornal_anj/detalhes.cfm?id_web=53&id_noticia=329.
19 Idem.
20 Para informações sobre como participar da lista, acesse http://www.abraji.org.br/lista.htm
21 MEYER, 2002, pg. 111-112.
22 Que reúne todos os textos, desde os anos 80, de jornais dos EUA e de outros países. Do Brasil, não.


* Marcelo Soares da Silva es periodista brasileño, responsable de la investigación por Internet en la redacción del diario Correio do Povo. Este texto forma parte de la tesis Contribuição ao estudo das condições brasileiras para o uso das técnicas de reportagem auxiliada por computador (Computer-Assisted Reporting) que presentó para obtener la licenciatura en Periodismo en la Universidade Federal do Rio Grande do Sul, y fue remitida por el autor para su difusión en Sala de Prensa, de la que es colaborador.


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