Sala de Prensa


10
Agosto 1999
Año II, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


Meios de Comunicação e a construção da
temporalidade mundo

Marialva Barbosa *

Até que ponto as temporalidades existentes no mundo contemporâneo foram construídas pela ação da mídia? Como algumas questões políticas e econômicas da atualidade podem ser explicadas a partir da inserção da Terra-Pátria, utilizando a expressão de Edgar Morin, numa nova dimensão temporal? A relação dos meios de comunicação com o tempo é, de tal ordem, que é possível categorizá-la como sendo uma questão mediática. Não só porque participam da sedimentação no imaginário de uma nova temporalidade-mundo, mas porque a configuração narrativa da mídia – notadamente audiovisual – se inscreve numa relação de natureza, sobretudo, temporal.

A menos de um ano do fim do milênio, há a lembrança constante, de que um novo século está prestes a começar. No Brasil, os meios de comunicação se apressam em estabelecer dois marcos, construídos de forma complementar: de um lado o fim do milênio e de outro, no mesmo patamar, os 500 anos do Descobrimento. Dois mil é, assim, associado à entrada do país num novo ciclo: o terceiro milênio que, por sua vez, coincide com a sua maturidade como Nação.

O que chama atenção, além da demarcação simbólica dos dois momentos singulares, reduzidos a um mesmo instante pontual, é o fato de ser a maior emissora de televisão do país – a TV Globo - a promotora oficial das comemorações do meio século de Brasil. Que as comemorações são um instrumento primordial no discurso dos meios de comunicação já foi exaustivamente constatado. Mas o que isto representa? Que tipo de construção é engendrada e/ou referendada pelos meios de comunicação para o milênio que se enuncia? Que papel têm os meios de comunicação na construção do tempo como acontecimento? E, sobretudo, que temporalidade se cria em correlação com esta memória singular, afirmação de um novo momento para a construção de uma idéia de Nação?

Qual é o "espirito do tempo" deste final de século e que papel desempenha a ação da mídia na construção desse espírito?

Italo Calvino destaca em suas Leçons américaines (1989: 99-100) os motivos dominantes deste final de milênio - "rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência" - ao mesmo tempo em que sublinha as conseqüências da "chuva ininterrupta de imagens" sob a qual vivemos.

"A mídia não cessa de transformar o mundo em imagem, multiplicando-o numa fantasmagoria de jogos de espelhos: essas imagens, freqüentemente, são desprovidas da necessidade interna que deveria caracterizar toda imagem, ao mesmo tempo em que é forma e significado, impondo atenção e sentidos virtuais". (CALVINO: op. cit: 100)

Sublinhando o caráter transitório, acrescenta que grande parte dessas imagens se dissolve como os sonhos e, ao mesmo tempo em que não deixa nenhum traço na memória, deixa uma sensação de estranheza e mal estar.

Também Régis Debray (1991: 242) observa que a compressão do tempo, que aboliu as distâncias entre os continentes, modifica nossa relação com a cultura e com o consumo dos objetos de conhecimento. O homem do mundo contemporâneo quer adquirir uma bagagem cultural tão rapidamente como consome um almoço num fast-food. E os meios de comunicação forjam essa aceleração, na medida em que faz parte da conquista do público informar, cada vez mais, em tempo-real, isto é, no momento mesmo da ação acontecimental.

O jornalismo, particularmente, se situa numa tensão permanente entre o mundo e o tempo. Os acontecimentos ganham sentido pela apropriação e interpenetração dos grandes sistemas de mediação, movimento obrigatório para chegar ao público que, assim, forma uma opinião e uma representação do mundo.

Se até bem pouco tempo o objetivo dos meios de comunicação consistia em informar o mais rapidamente possível, hoje os meios técnicos de captação e transmissão possibilitam que o acontecimento seja mediatizado enquanto se desenrrola.

Essa aceleração do tempo mediatizado, utilizando-se da simultaneidade, é acompanhada pelos efeitos da virtualidade e da interatividade que também desempenham enorme influência sobre as visões de mundo do público. O real pode ser, pela ação do indivíduo, mesmo à distância, objeto de mudança, o que dá ao presente uma visão de transitoriedade absoluta. O presente não mais "emerge do tempo" (Arendt: 1974) , mas é construído na interatividade virtual.

O presente passa a ser o fato no momento de sua transformação em acontecimento, dando ao espectador a impressão de que está diante da realidade e da vida e permitindo-o, ao mesmo tempo, ter a sensação de participar mais intensamente, ao lado de um vasto auditório, na constituição do próprio acontecimento.

O segundo aspecto que cria um enorme interesse pelas chamadas transmissões em tempo real é a imprevisibilidade: o que acontece está sendo escrito no momento mesmo da transmissão o que pode significar surpresas.

Tempo e Narrativa

Refletir sobre o tempo mediatico é analisar, também, a relação intrínsica entre tempo e narrativa. A forma que assume determinadas narrativas induz ao como desta relação, ou seja, a forma como o público se comporta diante da mensagem.

A narrativa da televisão, caracterizada sobretudo pela fragmentação, leva a uma apropriação igualmente fragmentada, permitindo uma pluralidade de ações no instante mesmo da recepção. Assim, se por um lado na contemporaneidade o público se expõe por um longo período à mensagem televisiva, esta exposição se dá numa lógica de fragmentação e de divisão da atenção. Pode-se ler, enquanto se vê televisão, pode-se conversar enquanto se desenrrola a trama narrativa ficcional ou informacional na tela da TV, entre inúmeras outras ações.

Por outro lado, o sistema mediático funciona segundo as mesmas leis das narrativas míticas e literárias, nas quais desepenham papel fundalmental o tratamento retórico e estilístico próprio, a gestão da temporalidade através da narrativa e, sobretudo, a liberdade de criação do receptor. A narrativa é, como diz Paul Ricouer (1995), "a guardiã do tempo".

A narrativa mediática, por outro lado, inscreve-se no tempo por obedecer a uma temporalidade construída, na qual ordem, duração e freqüência são as contantes. Cada programa televisivo, por exemplo, segue uma ordem pré-estabelecida, dura um certo número de minutos e é exibido numa frequência que se repete. Transformar o tempo abstrato numa forma concreta, que informa sobre este mesmo tempo, é materializar uma idéia preferencial de tempo e considerar a posição do leitor/espectador no ato de recepção.

Ler um jornal, ver uma emissão de televisão, escutar um programa de rádio é estar intrinsicamente inserido no tempo, não só porque se desvenda o acontecimento e sua forma textual, mas porque esta narrativa está inscrita no tempo do leitor e/ou espectador, já que é a partir da apropriação que o acontecimento se transforma em experiência vivida.

Assim, a narração mediática que, em princípio, seria fragmentos do "real", ganha sentido e valor – de acontecimento - na operação de apropriação ou quando é restituída ao tempo de agir, marcando a interrelação do mundo do texto ao mundo do auditório.

Falar de um tempo mediatico é, pois, refletir sobre como a temporalidade mudou a forma narrativa da mídia, mas também como esta configuração dissemina uma visão preferencial do tempo no universo do público.

A temporalidade contemporânea transformou a aceleração e a interatividade em atributos narrativos dos meios de comunicação, modificando a maneira como se opera a construção dos acontecimentos. Estes atributos, entretanto, estão no universo de produção, mas também no de recepção.

Construindo uma narrativa que valoriza esses dois aspectos, a mídia elege uma visão de temporalidade que se dissemina no universo do auditório. Se é necessária, cada vez mais, a difusão do acontecimento no instante mesmo de sua produção, se ao mesmo tempo pede-se a interatividade do auditório, permitindo a ilusão de reconfiguração narrativa permanente, em que se transforma o tempo extra-textual um dos componentes mesmo, segundo Ricouer, do ato de leitura? Se a cada minuto é preciso construir um outro acontecimento, em tempo real, haverá espaço para o extra-textual, reconfiguração em que se transforma o tempo?

A aceleração do tempo longe de ser somente produção é criaçao da mídia na contemporaneidade. O tempo mediático é um continum de aceleração e de transformação do futuro no instante. Se o futuro se transforma permanentemente em presente, na lógica construída não há futuro e sim um presente continum.

A urgência impede a reorganização da narrativa e os seus múltiplos jogos de temporalidade. É nesse sentido que se torna também essencial para os meios de comunicação sublinhar o que é memoravel ou não, já que o passado, apresentado como imóvel e inacessível, é efetivamente materializado em narrativas, na qual o espectador tem a ilusão de participar.

Mas, se grande parte dessas imagens "se dissolve no sonho" ou na ilusão de sua própria profusão é necessario construir também a memória. Se ela não mais existe, precisa ser elaborada e esse passa a ser um atributo natural da mídia. É preciso reinventar as tradições.

A ilusão de uma temporalidade direta se sobrepõe a de uma imagem real. Se é possível difundir o acontecimento no momento de sua produção. Isso quer dizer que se constrói a idéia da mídia como guardiã da mais absoluta autencidade e verdade. A imagem é a real, já que o acontecimento não é mais recontado.

Da mesma forma que a eclosão da transmissão direta mudou a relação entre narrativa e temporalidade, os sistemas virtuais embaralharam as antigas categorias da ficcional, histórico e jornalístico. Se o acontecimento mostrado é o que está se desenvolvendo naquele momento, os meios de comunicação não são apenas arquivos para o futuro, mas arquivos permanentes do presente. E a narrativa que produzem não é mais a mescla de ficcional com o informacional, e sim a narrativa histórica do imadiato.

A esta virtualidade acrescentou-se a lógica da interatividade que produz a ilusão de ter não apenas a imagem em tempo real, mas o poder de modificá-la. Com isso, cria-se a certeza poder construir não apenas o futuro, mas também o presente, já que este pode ser modificado, a partir de um ato de vontade. A interatividade tem, pois, uma relação intrínsica com as novas lógicas temporais.

Todos os dados do mundo podem estar accessíveis, hoje, em linha direta e em tempo real a partir de um computador pessoal. A metáfora da nevegação com que frequentemente designamos a gestão desses programas, mostra que o sentido é desafiar a inércia e abolir o espaço e o tempo.

"Ilusão participativa ou revolução da nossa relação com o mundo e o conhecimento? Ainda é cedo para julgar se esses acessos em tempo real aos bancos de dados de uma aldeia global nos levarão a uma melhor forma de mediar o real ou aos labirintos das bibliotecas de Babel, como diz Borges". (LITS: 1995)

Relações temporais

A relação temporalidade e midia não se dá exclusivamente na configuração narrativa do discurso. Diversas são as interseções de natureza temporal que o leitor/espectador estabelece, algumas de natureza bastante concreta.

Para algumas passoas, estar diante de um programa de televisão ou escutar uma emissão radiofônica pode ter o sentido de "passar o tempo" e a televisão responde perfeitamente a esta expectativa. Para outras, ao contrário, significa gerir o tempo, de forma racional, permitindo fazer diversas outras coisas, num duração limitada, e que seria dedicada a uma única atividade. Olhar a televisão pode parecer "tempo perdido", e neste sentido reveste-se a ação de uma valoração real.

Por outro lado, a percepção concreta que temos sobre o tempo e a divisão que estabelecemos das horas do dia e da noite tende a se modificar sob a influência da mídia. Jacques Attali em sua Histoires du temps (1993) lembra que a definição do tempo universal ligada ao meridiano de Greenwich data de 1885 e que no século XIV o dia não era dividido em 24, mas em sete horas canônicas. Mesmo hoje não se vive de maneira unívoca a mesma relação temporal. Uma série de estudos publicados pela UNESCO (1975) mostra a permanência de divisões tradicionais do tempo em numerosas regiões.

A mídia permite, sob certo aspecto, a utilização disseminada de um mesmo corte temporal. Se no século XIX, o desenvolvimento das estradas de ferro e, num segundo instante, do telégrafo e do telefone, tornou imperativa a unificação da hora, o rádio a partir dos anos 20 e depois a televisão permitiram a difusão da hora oficial, de maneira cada vez mais extensiva para o conjunto da população. Não se pode abstrair o fato de ser a televisão hoje uma espécie de relógio contemporâneo que rege o tempo na vida cotidiana. Jantamos antes ou depois do jornal das oito, saimos para o trabalho antes ou depois do noticiário da manhã e marcamos nossos encontros após a emissão do programa x ou y.

Tendendo também a se apropriar do tempo, de tal forma, transforma a hora real num abstrato. Assim, programas de televisão como Jô Soares 11 e 30 são difundidos a meia noite e, por vezes, até mais tarde, mas o tempo real continua sendo 23 horas e 30 minutos. Por outro lado, a hora passa a ser construída como se fosse uma particularidade da emissora x ou y: são 7 horas da manhã na rádio x ou na televisão y.

A estruturação do tempo nas grades de programação dessas emissoras se impõe de maneira imperativa, com o mesmo rigor do trabalho, tendo, ao mesmo tempo, um sentido de ritualização. Regis Debray (1991: 322) remarca esta função religiosa. Para ele, os programas distribuídos na grade de horários, de maneira rígida, ritmam o tempo cotidiano e semanal, como no passado ocorria nos mosteiros com as rezas matinais.

Para além de tudo isso, os meios de comunicação veiculam uma temporalidade que lhes é extremamente própria. Ao olharmos um filme ou uma novela de época, utilizamos parte de nosso tempo disponível para entrarmos num outro tempo. Fazem, assim, uma espécie de buraco na realidade do tempo e inserindo-nos num tempo imaginário.

Ao transmitirem em tempo real o acontecimento ou ao reconstruírem o passado, reconfigurando-o na narrativa, dão a impressão de que é possível estar inserido na realidade e na vida e, mais além, de ser possível participar de forma mais intensa, ao lado de um vasto auditório, de um acontecimento presente ou passado.

Assim como procuram, cada vez mais, informar o que está acontecendo, agora, no mundo, os meios de comunicação audiovisuais preocupam-se em difundir imagens de um passado, mais ou menos distante, dando a impressão de nossa presença no tempo, de participação, criando, pois, uma nova relação do espectador com este passado. Essa relação resulta numa outra modificação – extremamente profunda – da nossa relação com o tempo e que tem reflexos na própria forma como representamos a morte.

Reconstruindo o passado, seja na ficção, seja no discurso informativo, a televisão sugere para o espectador do presente que o passado não desapareceu, já que ao torná-lo accessível, faz com que continue a existir de alguma forma. Dando-lhe a aparência de vida, induz a idéia de que o presente e o futuro são predeterminados, tal como os filmes.

Por outro lado, ao associar o presente a uma realidade concreta – o tempo real – relega o futuro ao tempo da não existência. Se o passado pode ser reconstruído e o presente se constitui de instantes que são substituídos sem cessar, a idéia de futuro se dilue dentro do próprio presente.

A percepção generalizada da temporalidade, que não anula os seus sentidos particularizados, permite, pois, afirmar que há um sentimento do tempo ou como diz Italo Calvino um certo "espírito do tempo" que marca este final de milênio. Essa afirmação supõe uma espécie de adesão a uma consciência coletiva de um tempo soberano e simplificado, que rege nossas relações sociais.

Mas para que exista essa adesão é preciso criar figurações e abstrações que possam ser compreendidas pela sociedade. E essas reduções são estabelecidas pela mídia, não só reconfigurando a temporalidade na sua narrativa, mas difundindo a mesma presença do tempo, imperceptível e imemorial.

Por outro lado, ao construir e tornar visíveis novas temporalidades – tempo real, tempo mundo, tempo mutacional da interatividade – os meios de comunicação desempenham um papel único na construção da subjetividade coletiva em torno de uma mesma relação temporal.

Além disso, ao selecionar o que deve ser objeto de uma duração, ao interferir mesmo nesta lógica, podemos dizer que estabelecem um movimento próprio do tempo que espelha a imagem e a vivência particularizada de culturas específicas.

Estabelecer essa idéia de constituição de uma subjetividade temporal pela ação dos meios de comunicação não significa negar que a idéia univoca do tempo e a sua difusão foi e é criada, sobretudo, pelos modos de produção. É antes de tudo a disciplina do trabalho, a divisão das horas do dia entre tempo livre, do lazer, e tempo do trabalho, da produção, que ensejou toda essa construção preferencial.

Entretanto, a entrada em cena das novas tecnologias, possibilitou um outro tipo de homologia. A informatização, a robotização, as novas técnicas genéticas, a energia nuclear mudaram os modos temporais de intervenção humana nos processos de produção, modificando também a noção de tempo.

Gradativamente, de maneira discreta, vai se formando uma nova concepção. As novas tecnologias realizam uma total dissociação do tempo do homem e do tempo da máquina. As qualidades que esses aparelhos, engenhos da modernidade, pedem são, sobretudo, mentais e inscritas numa nova duração. Exigindo o tempo calmo da atenção, da reflexão e do comando, introduzem o homem numa dupla temporalidade: a da reflexão necessária ao controle das tecnologias e a lógica da aceleração, que permite a construção do presente como futuro. Se a primeira temporalidade se dá no espaço da produção e é destinada a poucos, a segunda é de natureza genérica e se distribui de forma massificada pela sociedade.

Subitamente o mundo se fechou em torno de nós. Nada mais é um fato local, o mundo está em todas partes e, paradoxalmente, não está em nenhum lugar. Nada mais é um acontecimento particular e local. Todas as informações, aparentemente, chegam instantaneamente a todos os lugares. Chega-se ao final do século com a certeza de que é impossível escapar dessa temporalidade mundo.

Evidentemente razões de ordem concreta levaram a inserção de todas as nações compulsoriamente nesta lógica.

O avanço do capitalismo e sua hegemonia como sistema econômico mundial forçou o caminho em direção a uma economia globalizada. Na lógica da auto-aceleração, as empresas líderes do mundo politico e econômico encontram o único espaço disponível para a venda de seus produtos. As novas máquinas tecnológias, sob a pressão de um mercado implácavel e de um simbolismo que transforma em ultrapassado tudo o que não é a última novidade, pedem renovação constante. Constatar a obsolescência tornou-se natural. Mas essa idolatria do novo, como contrário de ultrapassado ou obsoleto, foi o caminho criado pela economia capitalista para a renovação do seu aparelho produtivo.

Por outro lado, vive-se o tempo da especulação financeira. O dinheiro como que se dilue no espaço terrestre inteiro, sem materialidade concreta, transmutando-se em índices nas telas dos computadores dos mercados financeiros que se interligam mundialmente. A crise econômica de um país se reflete, em segundos, em todos os lugares do mundo. As bolsas despencam vertiginosamente e o dinheiro – virtual, já que só existe em índices pré-fixados – passa a valer mais ou menos em instantes fugidios. O tempo, como o dinheiro, da economia-mundo caracteriza-se por sua fluidez e virtualidade.

Talvez o exemplo mais emblemático desta virtualidade monetária seja a nova moeda européia. Desde 1 de janeiro de 1999 é possível, em quinze países da Europa, pagar instantaneamente pela compra de qualquer produto em euro. É possivel também investir, poupar, movimentar as contas correntes, tudo, em euro. Mas o euro como moeda – na materialidade concreta e histórica de todas as moedas através dos tempos – só será visível em 2002. Até lá só existe virtualmente.

Chegamos, pois, a virada de mais um século com a atividade econômica mundializada espacialmente e, ao mesmo tempo, desmaterializada. Por outro lado, nos escritórios, nas fábricas, nos bancos, nos centros de poder a execução das tarefas requer não apenas ritmos e cadências determinadas, mas uma nova combinação temporal que se materializa no sicronismo e minutagem exacerbada de todas as operações.

Ao lado deste novo tempo econômico, cohabita um novo tempo tecnológico, no turbilhão de tecnologias da informática, nuclear, espaciais e genéticas que mudam as relações originais do homem com a temporalidade. Cria-se, aquilo que Chesneaux (1996) chama, o tempo-interface, comprimido ao externo e rigidamente programado, ignorando o "jogo livre" dos intervalos, não conhecendo pausa, nem repetição.

Assim, a informática miniaturiza ao extermo o tempo, que passa a ser medido em nanosegundos ou picosegundos; a genética é capaz de acelerar o processo de criação humana e a exploração espacial coloca o homem diante de novas escalas temporais, o tempo fóssil (Idem: 28)

Cria-se, por outro lado, uma nova referência do passado. A memória guardada pelos computadores de nosso cotidiano se constitui de estoques de dados parciais, informações que surgem de uma espécie de vazio, sem referência aos processos nos quais foram criadas e aos contextos que lhe deram sentido. A memória do cérebro técnico planetário é, assim, uma memória restritiva e em nada se parece com a humana, que exprime uma experiência elaborada na duração e representa uma instância constitutiva da identidade dos indivíduos ou dos grupos.

Chegamos, pois, à virada de mais um século, percebendo que as forças históricas mais emblemáticas da contemporaneidade são, sem dúvida, as novas tecnologias e a economia mundializada, ambas mudando nossa relação espacial, mas sobretudo temporal.

Além disso, a modernidade-mundo construiu uma aparente igualdade mundial, sob slogans que inserem, compulsoriamente, o mundo na "pós-modernidade". O progresso não é mais o objetivo, porque a tecnologia levou o homem a um aparente êxtase: o êxtase tecnológico.

______________
BIBLIOGRAFIA

ARENDT, H. "La brèche entre le passé et le futur", préface à l’édition française de La crise de la culture, Paris, 1974.

ATTALI, Jacques. Histoire du temps. Paris : Fayard, 1993 .

BEDARIDA, François. « L’historien régisseur du temps ? Savoir et responsabilité ». Revue historique, n. 605, jan-mar 1998. PUF, 1998

CALVINO, Italo. Leçons américaines. Aide-mémoire pour le prochain millénaire. Paris: Gallimard, 1989.

CHESNEAUX, Jean. Habiter le temps : passé, présent, futur : esquisse d’ un dialogue politique. Paris : Bayard, 1996.

DEBRAY, Regis. Cours de médiologie générale. Paris: Gallimard, 1991.

GROSSIN, William. « La multiplicité des temps. Le temps au prisme de quelques interrogations actuelles. » In : Revue Française des Affaires Sociales, n. 3. Les temps de notre temps : enjeux, incertitudes, complexité. 1998 . Paris : Documentation Française.

KOSELLECK, Reinhart. Le futur passé. Contribution à la sémantique des temps historiques. Paris : EHESS, 1990.

LITS, Marc. "Temps et médias: un vieux couple dans des habits neufs". In: Recherches en Communication, n. 3. Louvain: Université Catholique de Louvain, 1995

PRONOVOST, G. Sociologie du temps. Bruxelles : De Boek Université, 1996.

Revue Recherches en Communication. Numéro 3, Louvain : Université Catholique de Louvain, 1995.


* Marialva Barbosa es profesora titular de periodismo en la Universidade Federal Fluminense (Río de Janeiro, Brasil), doctora en Historia por la misma Universidad y tiene un posdoctorado en Comunicación Social por el Centre National de Recherches Scientifiques (París, Francia), donde desarrolló una investigación sobre "Tiempo, memoria y el papel de los medios de comunicación". Este artículo es un extracto del texto final de su investigación, publicado en Francia en la Revue Critique (1999) y que pronto será editado en Brasil con el título: Meios de Comunicação, memória e tempo: a construção da redescoberta do Brasil. Esta es también su primera colaboración con Sala de Prensa.


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