Sala de Prensa

72
Octubre 2004
Año VI, Vol. 3

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


Elementos da teoria dos jogos, jornalismo de precisão e pensamento sistêmico

Informação jornalística como suporte a decisões

Hélio A. Schuch *

RESUMO: Este trabalho tem o propósito de analisar a informação jornalística como suporte a decisões com referências em elementos da Teoria dos Jogos, Jornalismo de Precisão e do Pensamento Sistêmico. Para isto, serão expostos e articulados conceitos destas três técnicas, que, em conjunto, podem contribuir para um melhor entendimento do papel da informação jornalística em tomadas de decisão. Introdutório, o plano do artigo é: primeiro, analisar a continuidade e a simetria da informação jornalística em processos decisórios tipo jogos; após, examinar o método do Jornalismo de Precisão como técnica produtora de informação precisa; e, seguindo, tentar demonstrar o desempenho do Pensamento Sistêmico em seu melhoramento. Por fim, apresenta-se a síntese destas inserções.1

1. Introdução

A palavra informação assumiu tanta importância que a época atual foi designada como “Era da Informação”.2 Com efeito, a sociedade contemporânea mostra como indicador expressivo um gigantesco acúmulo de informação e capacidade de difundi-la. O nosso interesse, porém, está num tipo de informação, a informação jornalística (notícia e reportagem), originada em fatos da dinâmica social, da qual o jornalismo se serve para existir. Dentro da quantidade destes fatos, muitos são causas e efeitos de decisões – materializações de informação. É o que ocorre na política e na economia (com suas derivações), que, como duas esferas imbricadas, são as que causam mais impulsos na sociedade, ou seja, decisões, o que é captado pelo jornalismo – daí a grande ênfase através de editorias e a especialização de veículos jornalísticos em relação a estes fatos. A política e a economia são jogos, acionados e movimentados em conseqüência das decisões dos seus agentes3 ou jogadores. São jogos porque constituem mundos com dinâmicas geradas por interações entre jogadores, cujas decisões são interdependentes e não unilaterais. Essas últimas são objeto da Teoria da Decisão; as primeiras, da Teoria dos Jogos.

Os jogadores buscam seus objetivos através de disputas, e, para isto, desenvolvem estratégias, calculam custos e benefícios e a probabilidade de risco em suas decisões, além de planejarem e executarem lances. Seus recursos podem ser de vários tipos, mas um deles é a informação não apenas sobre suas próprias condições na disputa, mas, principalmente, sobre seus oponentes. Pela importância deste recurso, a pesquisa em jornalismo deve ter como um objeto de análise os papéis da informação jornalística nas determinações dos agentes e sua inserção em jogos. Entre estas funções estão as de continuidade e simetria. Mas uma análise que pretende identificar relações entre jornalismo e processos decisórios deve também contemplar os atributos de precisão e completude deste recurso.

Estas qualidades deveriam estar presentes em qualquer informação jornalística, porém críticas que são apontadas ao jornalismo indicam descontinuidade, assimetria, falta de rigor, superficialidade e fragmentação das informações. Não é objetivo nosso discuti-las aqui. Pretendemos apenas analisar: 1) as funções de continuidade e simetria da informação jornalística; 2) o jornalismo de precisão, um método que, usando intensamente estatística e programas computacionais, possibilita informação precisa, ou seja, conteúdo que vai além “da mera aparência dos fatos”; 3) a técnica do Pensamento Sistêmico, que pode contribuir no trabalho de ultrapassar “a mera aparência dos fatos”, pois sua aplicação vai ao encontro da completude da informação jornalística.

Continuidade e simetria da informação jornalística são elementos importantes para usos possíveis em tomadas de decisão. A primeira função por possibilitar o prosseguimento do jogo e a segunda, para equalizar condições no sentido de sua posse.

A informação jornalística precisa, e esse seu estado é essencial para sua inserção em processos decisórios, é analisada através do Jornalismo de Precisão que, acoplando o método científico da sociologia funcionalista, se propõe a quantificar variáveis. Estas, combinadas, são a composição de qualquer fato e, logo, estão presentes na matéria jornalística. A quantificação de variáveis é um fundamento da ciência e foi amplamente realizada por cientistas sociais como Karl Marx e Émile Durkheim, como demonstram seus livros-tese. Contudo, para emprego do método científico no jornalismo é preciso aprendizado que envolva números, principalmente estatística, um conhecimento ainda incomum nos cursos e, por extensão, na atividade profissional. Mas, como quantificar é o objetivo deste tipo de jornalismo, o impedimento apontado deve ser superado.

O emprego de fundamentos do Pensamento Sistêmico nos estudos de jornalismo4 permite aos estudantes e profissionais uma compreensão mais complexa e, em conseqüência, mais aproximada da realidade dos fatos. Como resultado, torna-se uma metodologia capaz de melhorar (no sentido de conseguir maior completude e, por extensão, profundidade) a informação jornalística, já que descreve as conexões entre as partes constitutivas, subjacentes, do fato, e não apenas as meramente sobrejacentes. Por isso, amplia o conhecimento sobre ele. De forma sistêmica, um fato pode ser compreendido como efeito de uma série de relações causais. Relação causal é a apreensão mental das relações entre as partes de um fato. Graficamente, pode ser representada por diagramas de laço causal. Assim analisado, facilita-se a percepção do “mecanismo” que provocou ou provoca sua existência – um conhecimento importante em processos decisórios.

2. A continuidade e a simetria da informação jornalística em jogos

“Informação é conhecimento comum se é conhecida por todos os jogadores, se cada jogador sabe que todos os jogadores a conhecem, se cada jogador sabe que todos os jogadores sabem que todos a conhecem, e assim por diante, ao infinito”. (Eric Rasmusen)

Numa disputa, como o jogo de pôquer5 (que, aliás, foi uma inspiração para a Teoria dos Jogos, ciência da estratégia), cada jogador tem três estratégias depois de apostar o primeiro cacife e examinar suas cartas: sair do jogo, concordar com o valor disputado, avançar, lançando aumento na aposta. Saindo, por achar que suas cartas são fracas, e por isso certamente não ganharia, estará minimizando sua perda, já que perderá o que apostou. Se permanecer, aceitando o valor em aposta, ou se avançar, aumentando o lance de aposta, o jogador estará buscando a maximização de seu ganho. Mas, se algum jogador continuar avançando no aumento do cacife, com a aceitação dos outros, e assim por diante, continuam existindo as três estratégias, só que sair do jogo, a cada vez, fica mais caro, porque a perda mínima do desistente estará sendo maximizada. O jogador também poderá blefar, procurando emitir informações falsas,6 em busca do convencimento de que tem algum trunfo nas mãos. O sucesso, porém, vai depender da sua competência neste fingimento, ou seja, na aceitação de suas informações.

O pôquer não é um jogo de azar, mas de estratégia, pois um recurso decisivo é informação. Rejeitar uma, duas ou três cartas, é informação, assim como aceitar determinado valor em aposta ou avançar. Analisar, probabilisticamente, com base nas próprias cartas e na rejeição demonstrada, as probabilidades dos oponentes, produz outras informações. Jogos de estratégia são jogos de informação,7 de racionalidade.

Movidos por interesses e objetivos, os jogadores podem iniciar, continuar e finalizar um jogo. Através de informação, um cálculo é o equacionamento do teorema minimax (mínimo do máximo) e, por extensão, do maximin (máximo do mínimo), conceitos-chave da Teoria dos Jogos,8 bases para a formação de estratégias.

Isto porque, se as probabilidades de perdas e ganhos sempre existirão em um jogo, o problema, então, está em minimizar perdas e maximizar ganhos,9 que podem ser de qualquer tipo, conforme atribuição valorativa do jogador. Na carreira de políticos, por exemplo, podem ser imagem, eleições, perspectivas futuras.10

A maioria dos fatos de interesse jornalístico se esgota na sua difusão, mas outros, pela importância, repercutem, são extensos e tomam a forma de jogos competitivos. Quando um jogo é estabelecido, seu resultado depende da capacidade de cada jogador implementar suas estratégias e decisões. Para isto, eles precisam de recursos, entre os quais informação – o suporte para que seja possível formular estratégias e implementá-las através de tomadas de decisão. Isso diferencia os jogadores em dois tipos: 1) jogadores mais informados e 2) jogadores menos informados, resultando na assimetria de informação. Informações dos planos de ação e suas finalizações, o jogador (como fonte) emite, ao competidor, via jornalismo, somente aquelas de seu interesse. Esta interação, através de informação, é o próprio jogo. Mas o jogador mais informado, e, portanto, melhor produtor de estratégias, como também melhor decisor, emitirá mais informações. Dado o jogo, para o jornalismo, em sua ação tradicional de “cobertura de fatos”, e somente neste sentido, isso significa acompanhamento das estratégias e decisões de cada jogador, porque são informações jornalísticas. Sua seqüência é decidida pelos jogadores, restando ao jornalismo apenas a divulgação dos fatos.

Ocorre, assim, o que segue: 1) informações jornalísticas expressarão, com intensidade, interesses dos jogadores, já que esses as proporcionaram (através de declarações, por exemplo); 2) como os jogadores são desiguais na posse de informações, também o serão na formulação de estratégias e decisões e na intensidade de divulgação de seus interesses, via jornalismo. Os mais informados têm condições de produzir mais e melhores estratégias, o que “rende” mais informação (suas decisões serão também as mais acertadas). 3) a extensão do jogo será decidida pelo jogador mais informado, pois seu competidor, em desvantagem, tende a desistir do jogo, buscando minimizar sua perda.

Um ponto sobre jogos e jornalismo que deve ser observado na situação descrita é que as informações se tornaram públicas por decisões de suas fontes – implicando em interesse.11

Igual a qualquer outra motivação, interesse, quando objetivado, pode ser conhecido, o que não significa que possa haver aí relação com verdades do fato. Algumas vezes, os interesses podem corresponder a estas verdades, outras não. Como maximizar esta correlação ou obter um ponto de equilíbrio? Pelo posicionamento do jornalismo, mais especificamente um veículo jornalístico, como um terceiro jogador. A hipótese aqui é sua estratégia de afirmar investigação em caso de assimetria de informação entre governos e público, relativizando a apuração convencional. (Mas este veículo também joga, de forma coligada, com algum outro jogador, através de uma segunda estratégia - a opinião).12

Explicitemos com dois exemplos, modelando-se a sua assimetria, ou a falta de conexão com veículos (causada por jogadores mais informados, agentes políticos),13 seguindo possibilidade de jogo onde participam veículo, jogadores mais informados e jogadores menos informados. Antes, porém, são expostas algumas considerações sobre uma abordagem que relaciona o jornalismo com elementos da Teoria dos Jogos.

2.1 A contribuição de um método para a tomada de decisões

A atividade jornalística é um objeto importante de pesquisa (acadêmica e do setor produtivo), e um instrumental teórico-analítico que pode ser usado com eficiência, pelo menos para muitos casos de estudo, é a Teoria dos Jogos, pois suas técnicas são direcionadas para disputas, permitindo concluir sobre as melhores decisões a serem tomadas pelos jogadores, de um ponto de vista essencialmente racional. Vejamos o seguinte. Esta atividade, sendo um negócio, tem interesse comercial. Seus veículos (impressos e eletrônicos) atuam num mercado de concorrência, no mesmo nicho (jornais de circulação nacional) e com outros (telejornais). Por causa da competição, procuram se diferenciar em linhas editoriais, em articulistas/comentaristas, em especialização de assuntos e de técnicas (como jornalismo investigativo, por exemplo), em propaganda, e para isto utilizam ferramentas de marketing. Necessitam de anunciantes e de audiência. Impressos ajustam preços; telejornais, horários. Associam-se, fundem-se, buscam outras e novas oportunidades, ampliando seus interesses, outros desistem e abandonam o mercado. Enfim, como em qualquer outro negócio, o que se procura é a criação e implemento de estratégias para a sobrevivência e expansão.

Ao mesmo tempo, a atividade jornalística, por definição, também tem um papel institucional. É representativa de interesses dos cidadãos, cobra e fiscaliza os poderes públicos. Sua liberdade de ação é constitucional, pois aqui seu móvel é o interesse público. A audiência não decide o produto (notícias e reportagens), como ocorre em outros ramos, onde os consumidores influenciam na geração de mercadorias, porque ele tem sua existência através de um princípio, conceito auto-explicável, o interesse jornalístico, ou seja, merecedor de conhecimento público.

Para a imprensa, tradicionalmente (e, claro, também para eletrônicos), até já foi estipulado o título de quarto poder. Tudo isto configura o jornalismo como uma instituição.

Esta hibridez de papéis traz complexidade ainda maior quando se acrescenta um outro ponto, antigo mas sempre recorrente em discussões, e que se refere ao campo político-ideológico. Os veículos manifestam ideologias políticas, os jornalistas selecionam os fatos e divulgam apenas o que lhes interessam, as informações são manipuladas, em resumo, o jornalismo é um somatório de interesses – eis os entendimentos existentes. Um freio para estas situações parece ser o apelo ético, constantemente referido no mundo da atividade.

A verdade dos fatos não é o ideal pensado, muito menos manifestações ideológicas com objetivos políticos, ou ainda, meros preconceitos, mas o resultado da ciência. Só há uma maneira de saber com exatidão, ou, pelo menos, dela se aproximar, sobre o que foi dito no parágrafo anterior, sintetizado como “o jornalismo é um somatório da interesses”: através de um método científico que quantifique relações de interdependência, jogos, que nada mais são do que manifestações de interesses. Veja-se que o que tem importância não são os interesses internalizados no indivíduo (da mesma forma que a opinião, vide nota 12), mas os expressados em disputas. A atividade profissional contém vários jogos: anunciantes jogam com veículos (e vice-versa), veículos jogam com governos (e vice-versa), fontes jogam com repórteres (e vice-versa), (e aí o off é uma estratégia), veículos jogam com audiência (e vice-versa), veículos jogam com veículos etc.

Dentro deste quadro, a Teoria dos Jogos deveria merecer atenção da atividade (setor produtivo e universidade) e aplicada em pesquisa e ensino, no cotidiano dos veículos, incluindo-se no conhecimento profissional, pois tem elevado poder explicativo para tomadas de decisões. É certo que existem dificuldades para isto, e uma delas é a própria complexidade da técnica. Outra, é a necessidade de se tratar o objeto de forma científica e não ideológica, como muitas vezes ocorre. Embora o jornalismo faça parte das atividades que permitem, em graus variados, arbítrio, preferências, escolhas, existem os anteparos – pressões da audiência, que se fortalecem num ambiente que proporciona cada vez mais opções para a posse de informação (e isto também é um jogo). Mais: o método da Teoria dos Jogos determina extrema objetividade para o pesquisador e para o jornalista, pois busca resultados quantificados de conceitos subjetivos, como estratégias, por exemplo, que se revestem em movimentos para alcançar determinados fins.

Segue-se, porém, que é uma técnica capaz de clarificar e prever ações, objetivando subjetividades com graus de precisão. Tem o atributo de eficiente, como qualquer outro método científico, para muitos e vários casos de disputas. A sua parte conceitual já demonstra serventia para o jornalismo. Primeiro, porque é uma técnica que apresenta informação como um recurso, aplicando-a como componente estratégico em várias situações de jogos. Por isso, consegue dar utilidade real a informação, que, aqui, decisivamente, incorpora valor. Neste sentido, são desenvolvidos vários conceitos (por exemplo, completa, incompleta, perfeita, imperfeita, simultânea, seqüencial, simétrica, assimétrica). Segundo, muitos fatos de interesse jornalístico são jogos; competitivos, na maioria das vezes, outras não, e os dois tipos são explicados pela terminologia da teoria. Assim vista, a informação jornalística resultante tem condições de ser estruturada de forma mais completa e consistente, expondo ligações que geralmente não estão a descoberto em relatos convencionais. Enfim, é uma teoria cuja técnica pode contribuir muito com o jornalismo, como já ocorre em outros campos de conhecimento (economia, genética, sociologia, política, direito, administração).

A informação jornalística tem sua função de continuidade quando está relacionada a um fato que pode ser caracterizado como jogo, e as decisões de seus agentes configuram-se em informação seqüencial. Isto pode ser representado através de uma árvore de decisão, a forma de uma disputa em sua forma extensa. O início, a “raíz”, é o próprio fato, originado por um jogador, e daí seguem-se outros lances, ou decisões, dos jogadores, situados em “nós”. A informação jornalística é contínua quando relata o que ocorre em cada “nó”, até a conclusão do jogo ou esgotamento do fato. Esta informação pode ser interrompida em algum tempo do jogo, por interesses do próprio veículo ou por dificuldades na obtenção de informações. A interrupção por vontade do veículo significa um tipo de posicionamento como jogador, atuando coligado com outro, pois jogo é uma situação de conflito entre, pelo menos, dois jogadores. Interromper o fluxo de informação, o que equivale a ignorar o próprio jogo, desde seu início, é uma estratégia que permite a existência de decisões sem a coerção de sua publicidade. Esta situação, quando envolve agentes políticos, origina a assimetria da informação entre o Estado e a população. Neste caso, o jogador menos informado é o veículo e, por extensão, o público.

O motivo “dificuldades na obtenção de informações” pode ser considerado operacional quando se trata de fatos que envolvem agentes privados, mas no caso de agentes políticos, o resultado é assimetria de informação entre Estado e público. Este tipo de assimetria é ponto essencial no jornalismo,14 pois um fundamento da democracia são as informações simétricas entre governos e população. Neste jogo,15 a estratégia do Estado é manter a população como jogador menos informado, via desconexão com veículos. Visualiza-se como ocorre esta assimetria através da figura1,16 onde o agente político (1) pode executar uma seqüência de decisões (que ocorrem nos nós, ou conjuntos de informação), ligadas por linhas cheias, e respectivas estratégias (A ( c ou d) ou B (e ou f)), e o veículo jornalístico (2) não consegue se conectar (situação representada por linhas em azul) a estes conjuntos.


Figura 1

Não havendo conexões, é reforçada a estratégia dos agentes políticos de divulgação de informações de seu interesse por meios próprios (assessorias, propaganda). O impedimento força a investigação jornalística e será através dela que os veículos tornam-se jogadores independentes em relação a qualquer outro jogador, com a estratégia de oferecer aquilo que é negado por agentes. Quando o veículo reproduz declarações de A e B está divulgando expressões, o que é uma função do jornalismo, porém, também divulga os interesses aí contidos.

Um jogo entre agentes políticos (1) versus segmento da população (2) pode ser assim esquematizado: 1 tem interesse em aprovar uma lei; 2 não tem interesse nesta lei. 1 é o jogador mais informado devido ao acesso privilegiado a informações do Estado, possui informação completa e perfeita. 2 é o jogador menos informado, porque não tem este acesso, possui informação incompleta e imperfeita. O destino da lei depende da intensidade da opinião pública, a favor ou contra, que repercute no parlamento, e será decidida pelas informações divulgadas por veículos jornalísticos. 1 sabe que a aprovação integral da lei é difícil, por isso, também atua para que seja aprovado o máximo possível de seu conteúdo. 2, por ser o jogador menos informado, portanto em desvantagem, procura que a lei não seja aprovada, mas também sabe que isto não é possível, e assim atua para que, pelo menos, seja aprovado o mínimo possível de seu conteúdo.

Sendo 2 o menos informado, uma de suas fontes de informação é o próprio jogador 1, através dos veículos jornalísticos. Mas, quando esses reproduzem o que 1 têm interesse em divulgar, as informações não acrescentam vantagem para 2, logo, não contribuem para o equilíbrio da disputa. Observe-se que o desequilíbrio ocorre através de maior e menor posse de informações. A forma de torná-la proporcional é através de um terceiro jogador, os veículos (3), atuando na busca da informação sonegada por 1, ou seja, aquelas que esse não têm interesse em divulgar, o que significa investigação jornalística. 3 pode se posicionar neste jogo com a estratégia da “opinião” (favorável tanto a 1 como a 2), mas a sua estratégia “informação” deve ter a eficiência suficiente para compensar o jogador menos informado.17 Do contrário, demonstra estar coligado com 1, em detrimento de 2, pois reproduz, ampliando, os interesses de 1. Esta parcialidade não está situada, portanto, na “opinião”, que, por evidência, sempre será parcial, mas na “informação”. As estratégias, neste jogo, são as seguintes:

Estratégias:

Jogador 1
aprovar integralmente a lei ( l )
maximizar o conteúdo aprovado ( ll )
Jogador 2
não aprovar a lei ( lll )
minimizar o conteúdo aprovado ( lV )
Jogador 3
Investigar ( V )
não investigar ( Vl )

A sua visualização, de forma extensiva, segue na figura 2.

Figura 2

Pode-se observar que o jogador 3 situa-se no meio do jogo. Através das ramificações superiores os movimentos são os seguintes: quando o jogador 1, que dá início ao jogo, executa sua estratégia (I, aprovar integralmente a lei), 3 tem duas estratégias em relação ao jogador 2. Pela estratégia (V, investigar) ele proporciona condições para que 2 tenha as suas duas estratégias de interesse (III, não aprovar a lei e IV, minimizar o conteúdo aprovado), mas, quando executa a estratégia (VI, não investigar), visualizada nas ramificações intermediárias, reduz estas possibilidades para somente aquela de menor interesse de 2 (IV, minimizar o conteúdo aprovado). Nas ramificações inferiores percebe-se que, quando o jogador 1 pratica sua estratégia (II, maximizar o conteúdo aprovado), 3 repete a estratégia (V, investigar), possibilitando que 2 mantenha as suas duas estratégias; mas, quando decide pela estratégia (VI, não investigar), diminui, novamente, as possibilidades de 2, condicionando a estratégia de menos interesse (IV, minimizar o conteúdo aprovado).

Em um quadro de assimetria de informação, o jornalismo é impulsionado a investigar para compensar o jogador menos informado. Por métodos tradicionais (como entrevistas coletivas, ou não), o jogador mais informado oferecerá apenas as informações de seu interesse. Através da investigação há a possibilidade de se extrair informações que não refletem estes interesses, e é isso que produz o equilíbrio entre os jogadores. Dificilmente esta igualdade será absoluta, mesmo porque será haverá mais informações pela própria dinâmica dos processos decisórios. Mas, cada vez que o jornalismo ofertar uma informação que não tenha o interesse do jogador mais informado, estará levando o jogo ao equilíbrio.

3. A necessidade de método (e tempo) para a produção de informação precisa

“Muitos temas e acontecimentos de enorme transcendência cultural, política, institucional e de qualquer ordem não chegam a ser notícia simplesmente porque os jornalistas não conhecem ou não dispõem de tempo e do método necessários para sua observação”. (José Luis Dader)

Usar método científico das ciências sociais para produzir informação jornalística precisa é o objetivo do Jornalismo de Precisão (referências 16 e 17). E se apoia no uso de programas computacionais capazes de quantificar variáveis e de acesso a sítios e no emprego intenso de estatística, possibilitando em conseqüência, a relativização da importância de fontes convencionais. Para isso, acopla no trabalho jornalístico fundamentos de um método sociológico - o funcionalista. Dito isto, cabe analisar as causas que impedem um maior desenvolvimento deste tipo de jornalismo, a importância da quantificação (números e estatísticas) nos métodos clássicos da sociologia e o método próprio do jornalismo de precisão, que assegura a sua capacidade produtora de informação para processos decisórios.

Um equívoco que geralmente ocorre em disciplinas nos cursos universitários de graduação de jornalistas é a inversão de um princípio de aprendizagem: enfatiza-se o mero repasse de conteúdos e não se ensina a aprender, ou seja, não se forma a capacidade que proporciona independência científica-intelectual. Embora a expressão “ensinar a aprender” seja freqüente em discussões sobre ensino (sempre como uma intenção), o problema permanece. E por que? Porque para “aprender” é necessário o aprendizado de técnicas eficientes de pesquisa (aqui está o sentido de “aprender”), que inexiste nos cursos. Técnicas de pesquisa são ferramentas operacionais para enfrentar e resolver problemas de conhecimento. Uma técnica é a matemática; outra, a estatística. Mas nenhuma, salvo talvez raras exceções, faz parte dos currículos acadêmicos. Desta forma, torna-se difícil o trabalho jornalístico e o uso de programas computacionais que envolvem números e estatísticas - bases da precisão buscada pelo jornalismo em referência. A falha impede a aplicação de técnicas de quantificação e é a responsável pela superficialidade de matérias jornalísticas.

Esta situação torna-se mais complexa quando é conectada com a natureza do jornalismo, uma atividade que trata somente “de coisas novas”, “perguntando”, “investigando”, “descobrindo”, “duvidando”, “confirmando”, “esquematizando”, “mapeando”, “relacionando”, “explicando”, “relatando” fatos recentes. Na formação de jornalistas, por isso, é fundamental a capacidade de pesquisa, que, profissionalmente, deve ser entendida como geração, de forma constante, de informação. Para isto precisa de métodos, preferencialmente quantitativos. Precisão não significa única e exclusivamente números; número e palavra se complementam, o primeiro fundamentando a precisão, já que não admite dúvida, e a segunda explicando o seu significado. O que se enfatiza é a meta: a informação principal é algum tipo de quantificação, derivando daí outras informações.

Para a melhoria da formação, duas disciplinas deveriam ser incluídas nos currículos: “Matemática - Jornalismo” e “Estatística - Jornalismo”.18 O domínio destas matérias, em nível adequado para a atividade jornalística, como cursos focados para a produção de reportagens - e isso é o importante -, é um suporte decisivo para o trabalho de compreensão e quantificação de variáveis com elaboração de produtos infográficos; e mais: conhecimento e cálculo de média, mediana, moda, desvio padrão, medidas de dispersão, variância e covariância, probabilidade, distribuições binomial, normal e de Poisson, amostragem, estimação, testes de hipóteses e significância, Student, Qui-Quadrado, decisão estatística, regressão linear simples. A matemática sugerida é a base para o conhecimento estatístico, que é o objetivo, pois se trata de transformar variáveis em informação.

O jornalismo de precisão sofre crítica em sua pretensão19 de cientificidade. Mas vejamos. Para o trabalho científico (uma dissertação de mestrado, por ex.) são necessários basicamente seis componentes: 1) conhecimento sobre o assunto a ser investigado, 2) conhecimento de método (aí compreendido o instrumental analítico-estatístico), 3) projeto de pesquisa (ou também roteiro), 4) apuração de dados e informações de pesquisa, 5) recursos (como computador e programas) e 6) tempo. A finalidade do jornalismo de precisão não é produzir um trabalho acadêmico, mas uma notícia ou reportagem com método científico. Por isso, não se torna necessário o item 1, pelo menos não na intensidade exigida pela academia. A necessidade deste conhecimento está no nível preliminar, como uma pauta, uma intenção de abordagem conjugada com informações introdutórias. Já o item 2 é importante, pois é a técnica necessária para o desenvolvimento da reportagem, o método. O item 3 corresponde a uma pauta, um roteiro de trabalho. É organização das etapas que devem ser cumpridas O item 4 equivale à própria apuração jornalística (e a busca de dados e informações sempre é dificultosa, tanto no jornalismo como na academia). O item 5 compreende os meios de trabalho, que devem estar disponíveis, tanto na academia como nas empresas. O item 6 (tempo) é um fator que diferencia – em muito – os dois tipos de trabalho. Na academia, ele é adequado, no jornalismo, é escasso. Em rigor, portanto, apenas dois componentes diferem na elaboração de um trabalho acadêmico e de uma reportagem, mas que são decisivos: primeiro, a exigência de método, de técnicas que devem ser dominadas pelo jornalista; segundo, o tempo, sempre insuficiente.

Analisemos o componente “método”. O trabalho básico de um repórter, após treinamento (em curso e mercado), não oferece maiores dificuldades. No entanto, uma reportagem feita do ponto de vista do jornalismo de precisão não é um trabalho básico. Primeiro, porque exige método. Que método é este? Na sociologia existem três, que são clássicos: marxista (Karl Marx), weberiano (Max Weber) e funcionalista (Émile Durkheim). Cada autor escreveu inúmeros livros, mas também cada um apresentou em texto o que pode ser considerado seu próprio método. Karl Marx, junto com Friedrich Engels, por exemplo, escreveu A Ideologia Alemã e, individualmente, Contribuição à Crítica da Economia Política; Max Weber, A “Objetividade” do Conhecimento na Ciência Social e na Ciência Política – 1904;20 Émile Durkheim, As Regras do Método Sociológico. Estes textos apresentam os métodos usados nos livros-tese. Em Marx, O Capital; em Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo; em Durkheim, O Suicídio. Os métodos diferem claramente, conforme critérios para exame na investigação sociológica.21

Destes três livros-tese, dois expõem números (cálculos e estatísticas) para sustentar as pesquisas, O Capital e O Suicídio. No primeiro, existe extrema abundância, e Marx chega a criar inúmeras fórmulas relativas à economia capitalista, como, por exemplo, a taxa de mais-valia.22

Porém, será no cálculo da formação da taxa geral de lucro e a transformação de valor em preços de produção que Marx realizará o cálculo-síntese da economia capitalista. Iniciando com a composição orgânica do capital, e relacionando diferentes ramos de produção, ele elabora tabelas mostrando o movimento e – mais importante –, a interação entre estes ramos através de uma média, a taxa média de lucro. Nesta transformação de valor em preço de produção, Marx procura demonstrar a dinâmica do capitalismo.23 Durkheim usa mapas e tabelas com estatísticas para investigar o suicídio, tema título de sua pesquisa. Separando rigorosamente a motivação psicológica da sociológica para o suícidio,24 o autor busca suporte em registros sobre suicídios na Europa para desenvolver seu trabalho. Pela análise estatística,25 Durkheim fez uma pesquisa que se tornou clássica na sociologia. Marx usa números de duas formas: como estatísticas26 (dados reais pesquisados em documentos oficiais), e em cálculos, através de fórmulas originadas em conceitos por ele elaborados.

O segundo caso (cálculos) foi possível porque Marx tem como ponto de partida a teoria do valor-trabalho: o valor de uma mercadoria é a quantidade de tempo necessário para produzi-la. É um conceito que pode ser quantificado, pois o tempo admite medição. E deste conceito derivam todos os outros27 que Marx cria e expõe, na expressiva maioria das vezes, de forma matemática. Tanto Durkheim como Marx usaram números na tentativa de comprovar suas teses. Foram rigorosos em suas pesquisas, e por isso produziram ciência social da maior qualidade.

Max Weber não utilizou números como Marx e Durkheim, e sua obra é igualmente reconhecida como um dos clássicos da sociologia. No entanto, é interessante notar que em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo o autor inicia com uma constatação- chave para sua pesquisa, proveniente da estatística.28 Weber partiu de um fato, percebido estatisticamente, e conectando rigorosa e exaustivamente outros fatos, históricos e sociológicos, produziu uma pesquisa que se tornou fundamento das ciências sociais.

3.1 A adequação do método funcionalista para se obter informação precisa

A partir da obra de Durkheim e com os avanços da estatística refinou-se o método funcionalista para a investigação científica de variáveis,29 amplamente utilizado nas ciências sociais. Os Estados Unidos são o país onde ele é mais aplicado, não apenas na academia, mas em diversas situações de pesquisa.30 Este método científico recebeu impulso ainda maior com a criação e utilização de programas computacionais que permitem quantificação de variáveis e também simulação de suas dinâmicas. As duas tradicionais e clássicas variáveis X (independente) e Y (dependente) resolvem, resumem e concluem, ainda, vários problemas, mas são insuficientes diante da complexidade e necessidade de precisão no trabalho científico. O método funcionalista, por definição, é quantitativo. Seu objetivo é medir variáveis – componentes que são partes de um problema de pesquisa, e por isso se relacionam mutuamente. É dele que o jornalismo de precisão se serve no seu objetivo de mensurar, buscando rigor nas informações. Informação precisa exige quantidades, medidas estatísticas, conexões.31

A prática de qualquer profissão é funcional a seus propósitos, e nem poderia ser diferente, pois deve chegar a resultados – como a realização de um serviço ou a cristalização de um produto. A prática é a execução do trabalho propriamente dito, e para ser eficiente precisa de um atributo-chave, funcionalidade, isto é, adequação para seu propósito. Aí aparece a necessidade de um método, uma técnica “de fazer”, “de executar”, “de concluir”, “de trabalhar com rigor”, “de chegar a resultados”, e, conforme a complexidade do objetivo, surgem os níveis de dificuldades, que somente podem ser superados por conhecimento teórico. Sendo a prática, fonte do conhecimento empírico, a materialidade do processo de trabalho, o seu limite é justamente o aprendido apenas através da experiência - suficiente para repetição, mas não para avanços, inovações. Por isso, necessita se abastecer no conhecimento teórico. É contra-senso compreender o jornalismo, cujo objetivo é produzir e difundir informação, ou seja, conhecimento, como uma atividade “meramente prática”. O jornalismo torna-se frágil32 quando predomina uma valorização da prática. “É a prática que ensina; é a prática que explica o trabalho; é a prática que dá competência; em resumo, é a experiência (acúmulo de prática) o fator decisivo” – são concepções equivocadas que circulam no ambiente profissional.

No método científico, a prática é apenas a execução de um trabalho, coordenada pela teoria. Não se trata de abstrações, mas de regras, já definidas pela ciência, que conduzem as etapas da tarefa proposta. Com método, uma reportagem pode se constituir em uma “tese”, isto é, ter o impacto de um conhecimento novo, rigorosamente construído, e que pode ter várias utilidades, uma delas servir para decisões. A demonstração de utilidade efetiva do jornalismo é ter suas informações utilizadas de alguma forma. Expondo graus de precisão, a informação jornalística desloca o entendimento bastante comum sobre a superficialidade do jornalismo – “isto é apenas coisa de jornal” – e faz uma matéria jornalística assumir o valor de utilidade real.33 Esta qualidade pode ser obtida quando o objetivo é evidenciar fatos com rigor, o que é possível apenas através de um método que privilegie formas de quantificação, seja através de medidas, seja também através de normas e técnicas que possibilitam a objetividade de variáveis; comparando, descrevendo conexões causais, demonstrando relações – como resultado, se obtém informação jornalística precisa, preferencial em processos decisórios.34

Atente-se, no entanto, para o seguinte. As informações jornalísticas que podem se usadas em decisões são de dois tipos, conforme sua origem: 1) as mediatizadas (“declarações”, repasse) e 2) as produzidas (“apuração”, reportagem). No primeiro caso, o circuito da informação é:

1) Agente político/econômico (“declara”)35 - repórter (repassa) - audiência

No segundo caso, o circuito é:

2) Repórter (“apura”) - notícia ou reportagem - audiência

No primeiro circuito, a origem da informação é a declaração do agente, e para o repórter resta apenas a sua difusão. Já no segundo, esta origem é a apuração do repórter – em diversas fontes –, que pode ser o agente, mas conjuntamente com bases de dados/documentos. O primeiro caso é um repasse, via jornalismo, de informações de interesse da fonte (o agente), e, conforme sua posição no cenário político/econômico, é a causa de tomadas de decisão imediatas por outros decisores. Como se pode observar, com relativa freqüência, a partir de declarações de agentes políticos seguem-se, como efeitos, decisões de outros agentes, econômicos e políticos, às vezes concomitantemente.36

No segundo circuito, pela apuração, é possível aceitar, reduzir, relativizar, senão eliminar, um componente importante da informação jornalística: os interesses da fonte, como, por exemplo, dados relativos a números e estatísticas, ou seja, níveis de precisão. Uma fonte pode emitir dados corretos, e isso será de seu interesse; pode ocorrer o contrário, e isso também será de seu interesse. A única forma de administrar este fornecimento de informações é a checagem. Mesmo porque “apurar” não é apenas colher informações, mas, principalmente, conferi-las. Através da notícia ou reportagem a probabilidade de precisão é maior porque o repórter teve controle sobre seu trabalho, ao contrário da informação mediatizada, cujo domínio é predominantemente da fonte.37

Deslocando a preponderância dos interesses das fontes, a notícia ou reportagem de precisão reforça o método funcionalista que está embutido neste trabalho jornalístico, pois acentua a objetividade das informações.38 Como resultado, aproxima-se mais do objetivo da ciência: proporcionar conhecimentos reais sobre determinado fato. Sendo capaz, por isso, de, a cada informação jornalística, difundir comprovações suficientes para tomadas de decisão. Na forma de informação pública, a notícia e a reportagem precisas não municiam apenas agentes em posições executivas, mas qualquer pessoa, já que todos são agentes decisórios; na política, na economia, e em outras esferas da sociedade.

O jornalismo de precisão, portanto, é um avanço na atividade profissional. Primeiro, porque insere o método científico numa profissão que tradicionalmente sempre esteve vinculada ao empirismo (com o estudo e a aplicação de técnicas científicas, mudam as mentalidades e a própria cultura de trabalho). Segundo, por conseqüência, porque qualifica o jornalismo, pois torna possível a existência de um tipo de informação diferente das demais, a informação precisa, proveniente de um método científico, e não de procedimentos tradicionais, insuficientes para conseguir precisão. Terceiro, seguindo, equipara o jornalismo à capacidade de geração própria de informações por empresas não jornalísticas. Para processos decisórios, as organizações utilizam métodos científicos. Quarto, concluindo e em resumo, porque inicia a consolidação do jornalismo como atividade fundamentada em ciência. Sempre resistente a modos científicos de atuação, o ramo jornalístico pode (e deve) deixar de ser um reduto refratário na aplicação de ciência para produzir conteúdo, da mesma maneira que é capaz de inovar em forma.

Nisso tudo, é necessário, de maneira suficiente, o componente tempo, sempre escasso na rotina profissional. Estamos, porém, analisando uma concepção nova de trabalho que não pode ser ajustada ou enquadrada ao existente. O método científico não se desenvolve dentro de uma lógica que não consegue perceber diferenças entre senso comum e conhecimento, ou ainda, entre difuso e preciso. Para se chegar ao rigor pretendido, o tempo é um fator definitivo e deve ser adequado. O resultado será uma informação jornalística com a qualidade que somente o método científico pode oferecer.

4. O melhoramento da informação jornalística através de conexões causais

“A realidade é uma só, o que importa é a retina”
(Machado de Assis)

Por que razão há diferenças entre informações jornalísticas que abordam o mesmo fato? Excluindo-se qualquer motivo editorial, uma resposta pode ser o modelo mental39 do repórter, a capacidade de percepção40 de realidades. Como “forma de pensar”, os modelos mentais diferem nos indivíduos e produzem compreensões divergentes sobre o mesmo acontecimento observado. Um componente-chave desta “forma de pensar” nos interessa neste capítulo: o pensamento sistêmico (e o seu inverso, o pensamento não sistêmico).

Qualquer atividade profissional molda modelos mentais, a maneira como a pessoa percebe determinadas situações-objeto, condicionando a prática de sua operacionalidade. Para isto, uma série de princípios, fundamentos e mesmo suposições se agrupam, como conhecimentos, configurando o modo de pensar e agir, ou seja, os modelos mentais. Estes são formados e também modificados via aprendizagem,41 tanto em escolas como em empresas. Uma palavra que se relaciona fortemente com modelo mental é mudança, de ambientes (econômicos e políticos) e do mundo de trabalho, enfim, de conceitos novos que implicam em ajustes nas formas de pensar para implemento de soluções.42 É o modelo mental que acarreta um entendimento dinâmico, ou não, da realidade que envolve o indivíduo. Pensamento sistêmico pressupõe movimento. Os fatos percebidos de forma sistêmica proporcionam o conhecimento mais próximo da realidade, pois seus componentes são vistos como produtos de interações (econômicas, políticas etc.). Isto é, como se ajustam, com efeito, na vida real. Logo, são de interesse científico e jornalístico.

Embora a idéia de movimento seja uma categoria central da natureza do jornalismo, nem sempre o conceito é acionado na atividade. Por parte do ensino graduado, notam-se currículos estáticos, onde perduram conteúdos que pouco agregam à profissionalização, faltando, em contrapartida, o necessário para torná-la mais consistente (como resultado, tem-se uma mera capacidade de trabalho propedêutica); na pesquisa, observa-se a persistência de abordagens desfocadas do jornalismo (conseqüência: escasso poder explicativo nos campos acadêmico e profissional); em empresas, percebe-se a continuidade de métodos tradicionais de produção, seguindo-se resultados previsíveis (um efeito disto, certamente, é a diminuição da demanda por produtos impressos). A idéia de movimento parece estar reservada ao cotidiano de redações, principalmente no deadline. Mudanças, quando ocorrem, são, na maioria das vezes, reativas e não proativas.

O descrito mostra relações de causa-efeito, e todas se relacionam de forma sistêmica. Para a fase difícil do jornalismo43 existem várias causas, mas estamos nos restringindo apenas aos componentes relacionados com o setor universitário.44 Conhecimento, aliás, sempre será uma ferramenta decisiva para soluções de problemas. Uma graduação frágil se reflete na capacidade profissional. Uma pós-graduação com falhas é uma causa que se distribui em dois sentidos: 1) na graduação universitária e, 2) no setor produtivo (onde rebatem os problemas desta formação, entre outros, carência de conhecimento para enfrentamento de problemas próprios do ramo). A crise no setor repercute na profissão (desemprego, baixos salários) que, por sua vez, se conecta no ensino (sua desvalorização, por exemplo). Mais cedo, mais tarde, os efeitos aparecem. O sistema apontado é debilitado, pois cada componente transmite aos outros suas próprias falhas. A sua visualização é mostrada na figura 3:

Figura 3

Através de uma visão sistêmica dos fatos se percebe não apenas as relações entre os componentes de um sistema, e como interagem, mas seus movimentos e suas transformações. Conectado, cada um influencia todos os outros, porque transmite informação. Uma vez montado o diagrama de conexões, gráfica ou mentalmente, o resultado será um conhecimento muito diferente, de melhor qualidade, e, principalmente, mais completo e profundo do que aquele proporcionado por componentes tomados isoladamente. Não se trata de simples somatório, mas de perceber movimento, influências mútuas, mudanças, ou seja, informações que somente são possíveis de serem conhecidas e compreendidas por meio de interações. A informação captada é o produto da dinâmica dos componentes quando em interação, ou seja, as causas e efeitos em movimento conjunto.

4.1 A completude da informação jornalística

Reportagem nada mais é do que um relato que tem um eixo, a própria notícia ou mesmo a idéia que baseou a sugestão de alguma pauta. Seu ponto de partida sempre é um fato, uma singularidade.45 Ao redor desta linha serão encadeadas outras informações relacionadas, compondo o conteúdo. Parece não haver dificuldade na percepção da notícia, pois essa se impõe de forma “automática”, por sua relevância jornalística, restando apenas sua divulgação.46 A reportagem pode iniciar de uma notícia, na forma referida, mas também da criatividade e imaginação do jornalista. Tudo partirá de fatos, notícias ou não, mas existem diferenças – significativas -, no conhecimento, na percepção e, principalmente, na estruturação mental de determinadas informações que podem gerar reportagens. Há risco na reportagem, porque essa, quando pronta, deverá se constituir numa notícia, no entanto, “construída” pelo jornalista, ao contrário da informação noticiada por sua natural importância.

Para estes dois tipos de informação jornalística, no entanto, existem formas diferentes de percepção. Não basta haver certeza de sua relevância, este é apenas o ponto de partida. É necessário que a informação seja a mais completa e profunda possível, no nível que o jornalismo pode oferecer. Para isto, contribui – em muito - o pensamento sistêmico e a técnica das conexões causais, pois possibilitam maior e melhor explicação dos fatos, um resultado importante para processos decisórios e também para o próprio jornalismo.47

É possível o conhecimento completo sobre um fato quando são expostos todos os seus componentes de forma articulada, isto é, conectados entre si, onde cada um tem função de causa e efeito. Observe-se a dificuldade para esta percepção. Os fatos mostram apenas a sua aparência, mas o que interessa saber é a sua estrutura e seu mecanismo. Para descobrir, são necessárias informações (ou conhecimento já acumulado), método e abstração, ou seja, esforço científico. Neste sentido, a elaboração de uma reportagem não deixa de ter semelhança com a ciência. O que vai diferir, agudamente, é o valor do objetivo alcançado, efeito do processo de trabalho. Reportagem, por exemplo, pode ser capaz de despedir presidentes – fatos insignificantes para a ciência política? Também pode mostrar com exatidão as tramas do crime, oferecendo às autoridades todas a informações necessárias para a tomada de decisões. Pode ser capaz de fornecer conhecimentos para processos decisórios econômicos. Outras, porém, apresentam pouca ou nenhuma importância.

Embora a ciência persiga, e muitas vezes alcance, determinados domínios de suas áreas, sempre há algo a ser descoberto. Um motivo é a interação de componentes de um sistema, muitas vezes percebidos isoladamente e que, se conectando, desenvolvem dinâmicas, impulsos que exigem respostas; uma vez dadas, continuam a desenvolver movimento, e assim por diante.48 A complexidade é diretamente proporcional ao número e, principalmente, às formas de interação dos componentes que se relacionam num problema de pesquisa. Isso não é diferente com um fato de onde surge a reportagem.

O importante nisso tudo é perceber que os fatos de interesse jornalístico assumem a configuração de sub-sistemas, interiorizados em outros, maiores. Disso depreende-se que as bases de informação para reportagem serão os componentes endógenos (próprios do sub-sistema), mas também são significativos, em maior ou menor grau, os exógenos (situados em sistemas maiores). Para apreender suas relações, alcançando as essenciais e desprezando as insignificantes, o jornalista deve lançar mão do principal suporte de trabalho: seu arsenal de perguntas, a si mesmo e as fontes, de todos os tipos, cujas respostas serão a base para conclusões da reportagem. Este produto, por isso, não é o somatório simples de duas ou mais opiniões divergentes, “os dois lados da notícia”, como historicamente se recomenda. Para se conseguir nível de qualidade de informação, o conteúdo, basicamente, provém do jornalista. Movimenta-se, assim, um conceito tradicional da atividade: seu apego a fontes convencionais. A etapa da apuração, a mais importante, sem dúvida, afirma-se ainda mais porque é na conquista de informação que o jornalismo pode se posicionar diante das várias e inúmeras formas atuais de acesso ao conhecimento.

É um entendimento comum a idéia de conexão direta, tipo causa-efeito. O que se torna mais complexo é a descoberta e demonstração de como uma causa afeta um efeito, ou ainda, as mudanças e transformações que ocorrem através de uma relação causal. O conhecimento é justamente os resultados da realimentação de uma causalidade, pois através deste efeito pode ser compreendido o que existe de forma subjacente, “o que está atrás, encoberto, no fato”. A completude da informação jornalística, assim, é conseguida quando se explica o mecanismo interno do fato, sua dinâmica, impossível de ser captada pela simples observação, cujo limite esbarra na aparência, nos elementos sobrejacentes.

Através de relações causais notam-se influências mais precisas entre componentes que, através de um pensamento não-sistêmico, não apresentariam nenhuma ou apenas fraca conexão, ou, ainda, a possibilidade de um realimentar outro. Tomemos como exemplo a causa-efeito entre desemprego e aumento da criminalidade,49 que pode ser visualizada na figura 4, e após o acoplamento, neste relacionamento, da informação jornalística.

Figura 4

Esta relação, no entanto, não se esgota no efeito, e pode ser modelada como segue, por exemplo. A expansão da criminalidade terá outros efeitos, um deles o reforço na configuração do crime organizado.50 Suas ações, amplas, serão fatos de interesse, o que motiva informação jornalística. Não de forma tradicional, pois não se trata da criminalidade comum, mas do crime estruturado. Para melhor desempenho profissional, jornalistas organizam-se,51 montam cursos de aprimoramento. Observe-se que o aumento e a importância de ações criminosas provocaram uma resposta de dentro do jornalismo. Não se trata apenas de reportar, mas de apurar de forma intensa, investigar, assumindo riscos, tomando-se iniciativas. Esta relação causal pode ser visualizada na figura 5:

Figura 5

Este diagrama pode se lido da seguinte forma: aumentando a causa “crime organizado” aumenta o efeito “informação jornalística” e esta, agora como causa, diminui o efeito “crime organizado”. É um sub-sistema cuja dinâmica tende a minimizar este componente porque, na medida do aumento, e qualificação, da informação jornalística, aumentam também a ações de agentes públicos em resposta ao “crime organizado”. Há refreamento do componente através do jornalismo, de forma indireta, como é próprio de sua função.

Na teoria do pensamento sistêmico é enfatizado que relações causais não existem simultaneamente, juntas.52 É indiferente se os períodos de tempo que separam os componentes são mais ou menos longos, pois sempre haverá “herança”, de forma acentuada ou mesmo resíduos. Dentro de um sistema, semelhante à genética, traços de componentes são transmitidos numa série de conexões. Causas que remetem seus efeitos para o futuro, mas neste percurso, em cada período de tempo presente, coexistem uma série de componentes, que se influenciam mutuamente, o que não exclui “forças” passadas que permanecem dentro deles, em maior ou menor intensidade.53

A informação jornalística, nesta perspectiva, torna-se uma explicação do “funcionamento” de sub-sistemas, e isto permite um entendimento mais completo dos fatos. De uma abordagem que poderia ser superficial, avança, oferecendo seu “mecanismo”. É isto que melhora a qualidade do produto jornalístico e o aproxima do conhecimento efetivo de realidades. Para processos decisórios, somente informações com estes conteúdos têm utilidade capaz de contribuir para a minimização de riscos. A teoria e técnica do pensamento sistêmico, enfim, certamente cooperam para modificar, ampliando e aperfeiçoando, formas de percepção de fatos, decidindo, por isso, a validade de reportagens e notícias. Daí sua importância para o jornalismo.

5. Conclusões

Procuramos sistematizar, neste trabalho, alguns pontos da informação jornalística, através de métodos científicos que consideramos importantes para a pesquisa e que podem contribuir para um maior desenvolvimento da atividade acadêmico-profissional do jornalismo. Salvo raras exceções, os métodos expostos não são abordados no ensino, o que é uma falha, pois embasam, cientificamente, inúmeros estudos na área. Em conseqüência, a profissão carece deste tipo de conhecimento. Nosso objetivo, por isso, foi, articular, em nível introdutório, conceitos e métodos de análise com enfoque no papel que a informação jornalística pode desempenhar em tomadas de decisões. Processo decisório, por definição, é dinamizado por informações.

O jornalismo atua oferecendo seu produto para decisores, mas também pode ser um deles, participando daquele processo. A Teoria dos Jogos é um instrumental adequado para o exame desta atuação e envolvimento. A continuidade e simetria da informação, por exemplo, são conceitos relacionados a disputas, onde o primeiro proporciona o desenvolvimento de um jogo, e o segundo, conhecimento mútuo de interesses e estratégias. Um grande jogador é o Estado, detentor de informações buscadas pelo jornalismo para distribuição pública. Em casos de impedimentos – o que significa dificuldades de conexão de jornalistas com decisões de agentes políticos – forma-se a assimetria de informação, resultando em jogadores menos informados. A investigação jornalística é um efeito que tem como objetivo extrair as informações sonegadas por aquele jogador mais informado, compensando ou, ainda, equilibrando, as condições de conhecimento entre público e o Estado.

Para que tenha maior eficiência, a informação jornalística deve ser precisa, e o Jornalismo de Precisão é capaz de quantificá-la através do emprego de estatística e de recursos de informática. Esta especialização baseia-se no método sociológico funcionalista, pois tem a meta de medir variáveis. Evidenciamos o uso exaustivo de números e estatísticas por sociólogos clássicos para enfatizar que a precisão, expressa em valores numéricos, é um componente necessário do conhecimento científico. Neste sentido, como integrante das Ciências Sociais Aplicadas, o ensino e a profissão do jornalismo devem, também, absorver com intensidade a prática de quantificar variáveis, via aprendizado de matemática e estatística. Na nota 27 exemplificamos com uma quantificação nossa baseada em conceitos e método marxistas, e o leitor poderá discordar, por qualquer motivo. Nossa intenção, porém, foi demonstrar a aplicação de um método para a busca de informações. Se fossem aplicados conceitos e método de uma outra escola de economia política, certamente os resultados não seriam muito diferentes.

A completude da informação jornalística é um ponto abrangido pela técnica do Pensamento Sistêmico. Os fatos que comportam interesse são efeitos que devem ser explicados através das conexões causais que concorrem para sua existência. Sempre haverá maior compreensão, e, portanto, mais conhecimento, quando é desvendado o “mecanismo” interno destes sub-sistemas. Isto significa descobrir e descrever suas causas subjacentes, avançando além do aparente, ou aspectos sobrejacentes. É um trabalho assemelhado ao da ciência, que exige método, mas que produz como resultado um conhecimento novo, e extremamente mais próximo da realidade. O jornalismo, porém, necessita, cada vez mais, para sua sobrevivência e expansão, estabelecer relações fortes com a ciência. Este vínculo são os métodos científicos, técnicas para se produzir informação jornalística.

______________________________
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] BINMORE, Ken – Fun and Games. Lexington, Massachusetts, D. C. Heath, 1992.
[2] CANUTO, Otaviano e FERREIRA Junior, Reynaldo R. – Assimetrias de informação e ciclos econômicos: Stiglitz é Keynesiano? Ensaios FEE, ano 20, no 2, Porto Alegre, Fundação de Economia e Estatística Siegfried Emanuel Heuser, 1999.
[3] CASTELLS, Manuel – A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura. Três vols. São Paulo, Editora Paz e Terra, 1999.
[4] DADER, José Luis – Introducción. In: MEYER, Philip - Periodismo de Precision. Barcelona, Casa Editorial, 1993. (De onde se retirou a frase epígrafe do capítulo 3).
[5] DURKHEIM, Émile – O Suicídio. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1982. (primeira edição em 1897).
[6] DURKEIM, Émile – Julgamentos de Valor e Julgamentos de Realidade. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo, Editora Ática, 1981.
[7] GENRO FILHO, Adelmo – O Segredo da Pirâmide; Para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê! Editora, 1987.
[8] KOVACH, Bill e ROSENSTIEL, Tom – Os Elementos do Jornalismo. São Paulo,  Geração Editorial, 2003.
[9] KREPS, David M. – Teoria de juegos y modelación económica. México (DF), Fondo de Cultura Económica, 1994.
[10] KUNCZIK, Michael – Conceitos de Jornalismo. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 1997.
[11] MARTINS, Fernando – Comentários relativos ao ano de 2002. Brasília (DF), Associação Nacional de Jornais, http://www.anj.org.br Acessado em 12/5/2003.
[12] MARX, Karl – O Capital (Crítica da Economia Política). Livro 3, Vol. 4. O Processo Global de Produção Capitalista. Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1980. (primeira edição em 1894).
[13] MARX, Karl – O Capital (Crítica da Economia Política). Livro 1, Vol. 1, O Processo de Produção do Capital. São Paulo, Difel, 1982. (primeira edição em1867).
[14] MARX, Karl – O Capital (Crítica da Economia Política). Livro 1, Vol. 2, O Processo de Produção do Capital. São Paulo, Difel, 1982 A (primeira edição em 1867).
[15] MEYER, Philip – Periodismo de Precision. Barcelona, Casa Editorial, 1993.
[16] MEYER, Philip – Precision Journalism. Maryland, Rowman & Littlefield Publishers, 2002.
[17] NOBLAT, Ricardo – A arte de fazer um jornal diário. São Paulo, Editora Contexto, 2002.
[18] RASMUSEN, Eric – Games & Information. Malden, Massachussets, Blackwell Publishers, 2001. (De onde se retirou a frase epígrafe do capítulo 2).
[19] REVISTA CONSULTOR JURÍDICO – Fiscalização pública. http://www.conjur.com.br Acessado em 19/5/2003.
[20] SCHUCH, H. A. – Produção de Valor na Pequena Produção Agrícola (Rio Grande do Sul). Dissertação de Mestrado em Sociologia Rural. Porto Alegre, Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas (IEPE), Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 1985.
[21] SCHUCH, H. A. Jornalismo e Ambiente Econômico Competitivo. Paper apresentado no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom, 1997. http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/helio-jornambiente.html
[22] SCHUCH, H. A. Informação Jornalística: uma Abordagem Através de Jogos. In: HAUSSEN, Doris Fagundes (org.) Mídia Imagem & Cultura. Porto Alegre, Edipucrs, 2000.
[23] SCHUCH, H. A. – Adequação do ensino na formação de jornalistas. São Paulo, Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. Vol. XXV, no 1, janeiro/junho de 2002. http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/artigo.pdf
[24] SCHUCH, H. A. Projeto de pós-doutorado “Teoria dos Jogos e Jornalismo de Precisão: Uma Introdução Experimental”. 2003. http://www.jornalismo.ufsc.br/bancodedados/helioprojetojogos.pdf
[25] SELLTIZ, Claire e outros – Métodos de Pesquisa nas Relações Sociais. São Paulo, Editora Pedagógica e Universitária, s/d.
[26] SENGE, Peter M. e outros – A Quinta Disciplina; Caderno de Campo. Rio de Janeiro, Qualitymark Editora, 1997.
[27] SENGE, Peter M. – A Quinta Disciplina. São Paulo, Editora Best Seller, 1998.
[28] SHIMIZU, Tamio – Decisão nas Organizações. São Paulo, Editora Atlas, 2001.
[29] SHUBIK, Martin – Teoría de juegos en las Ciencias sociales. México (DF), Fondo de Cultura Económica. 1992.
[30] TSEBELIS, George – Jogos Ocultos. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1998.
[31] TRAGTENBERG, Maurício – Introdução à Edição Brasileira. In: WEBER, Max – Metodologia das Ciências Sociais. Parte 1. São Paulo, Cortez Editora; Campinas (SP) Editora da Unicamp, 1992. (De onde se retirou a frase epígrafe do capítulo 4).
[32] WEBER, Max – A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo, Pioneira Editora e Brasília (DF), Editora Universidade de Brasília, 1981. (primeira edição em 1904 e 1905).
[33] WEBER, Max – Metodologia das Ciências Sociais. Parte 1. São Paulo, Cortez Editora; Campinas (SP), Editora da Unicamp, 1992. (primeira edição em 1904 e 1905).

_______
NOTAS:

1) O autor agradece ao Departamento de Jornalismo da UFSC pela concessão de tempo que permitiu este trabalho e ao colega e amigo prof. Orlando Tambosi, exímio no idioma de Eça e Pessoa, pela sua revisão.

2) Vide CASTELLS, Manuel (1999).

3) Agente político ou econômico, ou jogador, é o tomador de decisão. Como a política e a economia são campos imbricados da sociedade, as decisões também terão causas e efeitos imbricados.

4) O estudo, análise e aplicação de fundamentos do Pensamento Sistêmico, como também da Teoria dos Jogos, no jornalismo, são ainda incipientes no ensino. Abordamos este assunto na disciplina “Jornalismo em Processos Decisórios” do Curso de Especialização em Estudos de Jornalismo (Departamento de Jornalismo – UFSC).

5) O pôquer tem várias modalidades. Estamos aqui nos referindo, em resumo, ao jogo praticado da seguinte forma: cada jogador recebe cinco cartas, podendo descartar até três, recebendo de volta a mesma quantidade. Aí termina o movimento de cartas e inicia-se o do cacife, valor apostado. As regras para decisão do jogo são, entre outras: um par é o menor trunfo e o maior é a seqüência completa de 10 de ouros ao ás deste mesmo naipe.

6) Entre outras, uma forma típica de blefe se dá via aparência do próprio jogador, simulando segurança.

7) Na Teoria dos Jogos, um suporte definitivo é informação. Os veículos jornalísticos não apenas produzem e difundem informação como também podem se posicionar como jogadores. Daí a possibilidade real de associação desta teoria com o jornalismo. Interessados nisto, procuramos introduzir e pesquisar o assunto em SCHUCH (1997, 2000 e 2003), onde se indica bibliografia sobre a teoria.

8) Como diz BINMORE (1992:219), “o teorema minimax de Von Neumann é talvez o mais celebrado resultado da Teoria dos Jogos”. O autor refere-se a John Von Neumann que, junto com Oskar Morgenstern, escreveu o livro “Teoria dos Jogos e Comportamento Econômico”, clássico na matéria, editado em 1944. Minimax e maximin são estratégias escolhidas pelos jogadores, conforme suas capacidades de informação e racionalidade. Usando um jogo como exemplo, SHUBIK ( 1992:214-215) analisa seu resultado dizendo que “estes dois fundamentos, ‘equilíbrio’ e ‘segurança’, refletem princípios opostos de competição. (...). Seguindo o primeiro princípio, um busca tomar o quanto seja possível de um oponente previsível e passivo. Seguindo o segundo, um busca salvar o quanto seja possível diante de um oponente não previsível e ativo. (...).Quando os dois princípios conduzem ao mesmo resultado (...), na realidade temos um poderoso argumento em favor da ‘racionalidade’ da solução”.

9) Se bem que a racionalidade de cada pessoa possa levar à conclusão de que, em determinadas situações, “perder” pode ser um “ganho”, e inversamente.

10) Um caso recente é o de Carlos Menem, que, candidato à presidência da Argentina, desistiu de sua candidatura diante de pesquisas que indicavam vitória do oponente por larga diferença, apesar de sua vitória no primeiro turno (mesmo com pouca vantagem). Conforme a revista Veja, de 21/5/2003, “de acordo com as pesquisas, caso o segundo turno se realizasse, seu adversário, Néstor Kirchner, deveria tornar-se o presidente com a maior votação do país”. Semelhante ao jogo de pôquer, a estratégia de Menem pode ter sido esta: uma desistência finaliza o jogo eleitoral, ficando evidente apenas a vitória no primeiro turno. Cauteloso, o que ele procurou, independente de acerto ou não, foi aplicar o teorema maximin (ou seja, maximizar o mínimo ganho já obtido, tentando preservar sua imagem e futuro político). Em outras palavras, buscou minimizar ao máximo seu arrependimento.

11) Quando ocorre o contrário, percebe-se a diferença entre os conteúdos das informações emitidas por interesse ou não. Como é o caso, também recente, de declarações do ministro-chefe da Casa Civil, que, em evento fechado à imprensa, reconheceu que a política econômica do governo induz à paralisação da economia. Conforme o jornal Zero Hora, de 24/5/2003, “sem saber que seu pronunciamento estava sendo transmitido ao vivo, (admitiu) que a política econômica praticada nos cinco primeiros meses do governo (...) impede o crescimento econômico (...)”. Informado da transmissão, “ele engoliu em seco, tomou um gole de água, respirou fundo e voltou a falar alguns instantes depois: - Mas eu não vou parar. Vou continuar falando. Esclarecida a gafe, assumiu a defesa da política econômica do governo, dizendo que as medidas amargas têm como objetivo criar condições para a redução de juros sem risco de volta da inflação (...)”.

12) Esta estratégia significa tentar formar a opinião pública. Esta e a decisão se ligam porque o que se pretende é provocar ações - materialização de opinião, de juízos de valor. Do contrário, qual seria o valor de uma opinião apenas internalizada no indivíduo? O mecanismo procura formar jogadores para as estratégias de interesse em jogos, e mesmo opiniões no cotidiano, num efeito multiplicador.

13) Agentes políticos são jogadores mais informados porque têm acesso direto às informações do Estado, o que não ocorre por parte da população. Como informa a Revista Consultor Jurídico, de 19/5/2003, uma minuta de Anteprojeto de Decreto sobre acesso a informações públicas está em tramitação na presidência da República e na Controladoria-Geral da União.

14) Estudos de economia contemplam o assunto assimetria de informação. Veja-se, por exemplo, CANUTO e FERREIRA JÚNIOR (1999). Pela sua pertinência à área jornalística, o tema deveria ser considerado com intensidade no ensino de jornalismo.

15) Está se demonstrando apenas a visualização, por isso, valores, como pagamentos, são desconsiderados, nesta e na figura que segue.

16) KREPS (1994:58-59) dá um exemplo de jogo com informação completa e perfeita, onde as alternativas de decisão são conhecidas por todos os jogadores. A assimetria da informação, entre agentes políticos e veículos jornalístico, não possibilita este nível de conhecimento.

17) Analisando os casos de tomadas de decisão por agentes políticos em dois espaços, “arenas eleitoral (ou política visível) e parlamentar (ou política invisível)”, TSEBELIS (1998:164-165) indica o fator informação (entre outro) como parâmetro de atuação nestas duas esferas. “(...) Se os custos da informação são elevados, as elites dispõem de alto grau de liberdade em relação ao controle pelas massas”.

18) Da mesma forma que existem cursos específicos de matemática e estatística para outras profissões.

19) Como diz KUNCZIK (1997:104): “Podem-se tirar duas conclusões principais da discussão sobre o jornalismo de precisão: 1) A investigação sócio-científica não pode ser tarefa do jornalismo; 2) É preciso melhorar de forma geral o nível de conhecimentos sócio-científicos básicos dos jornalistas”. A primeira conclusão é passível de crítica, mas a segunda é correta.

20) Estamos usando o título do texto que consta em WEBER (1992). Este texto também é publicado com o título “A Objetividade do Conhecimento nas Ciências Sociais”.

21) Por exemplo, entre outras, uma diferença básica entre os três autores é a unidade de análise: para Marx, é o modo de produção; para Weber, a organização social; e para Durkheim são os grupos funcionais.

22) Como diz MARX (1982:243), “a taxa de mais-valia é, por isso, a expressão precisa do grau de exploração da força de trabalho pelo capital ou do trabalhador pelo capitalista”. A fórmula (ou seja, a expressão) da taxa de mais-valia, é a seguinte,

onde M é trabalho excedente (mais-valia) e V o capital variável (salário)

Se esta taxa for de 100 por cento, significa que a jornada de trabalho é assim dividida: a metade produziu o valor do salário e a outra metade produziu o volume de mais-valia.

23) Segundo MARX (1980:193) “O capitalista individual, ou o conjunto dos capitalistas em cada ramo particular, com horizonte limitado, tem razão em acreditar que seu lucro não deriva do trabalho empregado por ele ou em todo o ramo. Isto é absolutamente exato com referência a seu lucro médio. Até que ponto esse lucro se deve à exploração global do trabalho por todo o capital, isto é, por todos os confrades capitalistas, é uma conexão para ele submergida em total mistério, tanto mais quanto os teóricos da burguesia, os economistas políticos, até hoje não a desvendaram”.

24) Conforme DURKHEIM (1982:23), “cada sociedade está predisposta a fornecer um contingente determinado de mortes voluntárias. Essa predisposição pode pois ser objeto de um estudo especial e que cabe à sociologia. (...). O sociólogo procura as causas por meio das quais é possível atuar sobre o grupo, mas não sobre os indivíduos isoladamente. Por conseguinte, entre os fatores dos suicídios, os únicos que o ocupam são os que exercem influência sobre o conjunto da sociedade. A taxa de suicídios é produto desses fatores”.

25) Diz DURKHEIM (1982: 22), após uma tabela com estatísticas, “A taxa de suicídios constitui, portanto, uma ordem de fatos una e determinada; é o que sua permanência e variabilidade, simultaneamente, demonstram. (...) Em resumo, esses dados estatísticos exprimem a tendência ao suicídio de que padece cada sociedade coletivamente”.

26) Sustenta MARX (1982), no prefácio da primeira edição de O Capital, “Comparada com a inglesa, é precária a estatística social da Alemanha e dos demais países da Europa Ocidental. Apesar disso, chega para descerrar o véu, o suficiente para que se pressinta, atrás dele, um rosto de Medusa. Estremeceríamos diante de nossa própria situação, se nossos governos e parlamentos, como ocorre na Inglaterra, constituíssem comissões de inquérito periódicas sobre as condições econômicas, dando-lhes plenos poderes para apurar a verdade, e se se conseguissem, para esse fim, homens competentes, imparciais, rigorosos, como os inspetores de fábrica da Inglaterra (...)”. Marx está se referindo a funcionários do Ministério do Interior que registraram estatísticas das condições de trabalho nas indústrias em censos, os famosos livros azuis, amplamente usados por ele na pesquisa para a elaboração de O Capital.

27) O texto que segue é um trecho resumido, com algumas alterações para os fins deste artigo, de nossa dissertação de mestrado (SCHUCH, 1985:72-73) e a intenção, aqui, é apenas ilustrar a possibilidade de se produzir informação através de um método científico. Os cálculos são feitos do ponto de vista da economia política marxista, com alguns conceitos de O Capital, e se utiliza a moeda da época (cruzeiro). Usando-se dados relativos ao ano de 1975 do Censo Agropecuário do Rio Grande do Sul (FIBGE, 1979) foi possível uma estimativa do “salário” mensal recebido por cada uma das 729.982 pessoas que trabalhavam em estabelecimentos agrícolas de até 20 hectares, típicos da pequena propriedade familiar, um modo de produção não-capitalista ( por isso, inexiste trabalho assalariado entre os membros da família). A palavra salário está entre aspas porque não é pagamento na forma capitalista, através de emprego, mas uma renda resultante da produção e venda de produtos agrícolas. São números aproximados porque o censo não apresentou todas as variáveis necessárias. O cálculo inicia-se baseado nos indicadores “despesas” e “receitas” nos estabelecimentos agrícolas de até menos 20 hectares. “A soma destas ‘despesas’ é Cr$ 783.513 (em mil cruzeiros). As receitas realizadas no mesmo ano, com a venda de produtos vegetais, de produtos da indústria rural, de animais, e de produtos de origem animal, somam Cr$ 3.933.848 (em mil cruzeiros). As ‘despesas’ são, na verdade, meios de produção desgastados, parte do capital constante. As ‘receitas’ são os preços de mercado. Deduzindo-se das vendas o custo dos meios de produção, tem-se Cr$ 3.150.335 (em mil cruzeiros), que é uma estimativa do valor realmente gerado. Este valor gerado é o valor da produção total menos o desgaste do capital constante. Se fosse considerada uma taxa de trabalho excedente de 100 por cento (isto é, o valor produzido e consumido na reprodução equivale ao valor do excedente), este excedente equivale a Cr$ 1.575,167,5 (em mil cruzeiros), assim, o valor da reprodução corresponde ao valor do produto excedente. Como o pessoal ocupado nestes estabelecimentos era de 729.982 pessoas, o valor do excedente em relação ao pessoal ocupado resulta em uma renda per capita de Cr$ 2.157,80 por ano, ou Cr$ 179,82 por mês. O salário mínimo naquele ano era de Cr$ 532,80, logo, esta renda per capita é de 33,75 por cento deste salário legal. Como a totalidade do capital constante consumido não foi computada (desgaste das máquinas e equipamentos, combustíveis, etc.), podemos, para efeito de cálculo e seu melhoramento, considerar um valor mais elevado neste capital. Se for aumentado para Cr$ 1.000.000 (em mil cruzeiros), por exemplo, o que acontece? Diminui o valor gerado, agora, para Cr$ 2.933.848 (em mil cruzeiros). Se a taxa de trabalho excedente continua em 100 por cento, diminuem os valores para a reprodução e excedente. Em conseqüência, diminui também a renda per capita para Cr$ 2.009,50 por ano, ou Cr$ 167,50 por mês, ou 31,44 por cento do salário mínimo legal. Consideramos uma taxa de 100 por cento para o trabalho excedente, conforme resultado de nossa pesquisa sobre a composição orgânica do capital destes estabelecimentos, que é inferior, concluindo-se por uma estimativa de 1/3 para o capital constante (meios de produção) e 2/3 para o capital variável (força de trabalho).

28) Como diz WEBER (1981), “qualquer observação estatística ocupacional de um país de composição religiosa mista traz à luz, com notável freqüência, um fenômeno que já tem provocado repetidas discussões na imprensa e literatura católicas e em congressos católicos na Alemanha: o fato de os líderes do mundo dos negócios e proprietários do capital, assim como dos níveis mais altos da mão-de-obra qualificada, principalmente o pessoal técnica e comercialmente especializado das modernas empresas, serem preponderantemente protestantes”.

29) Como afirmam SELLTIZ e outros (s/d: 5), “o objetivo da pesquisa é descobrir respostas para perguntas, através do emprego de processos científicos. Tais processos foram criados para aumentar a probabilidade de que a informação obtida seja significativa para a pergunta proposta e, além disso, seja precisa e não-viesada. Certamente, não existe garantia de que qualquer empreendimento de pesquisa apresente, na realidade, informação significativa, precisa e não-viesada. Mas os processos de pesquisa científica têm maior probabilidade de fazê-lo do que qualquer outro método conhecido pelo homem”. Não consta a data de sua publicação, mas, como pode ser depreendido de algumas informações, foi publicado na década de 80.

30) Daí vem a expressão, bastante comum. “os Estados Unidos são o país da estatística”.

31) É interessante analisar os capítulos de O Capital, MARX (1982:260), “A Jornada de Trabalho” e MARX (1982 A:712 e 828), “A Lei Geral da Acumulação Capitalista” e “A Chamada Acumulação Primitiva”, do ponto de vista do jornalismo. Marx não estava escrevendo uma reportagem mas o principal livro de sua obra quando deu existência a estes três capítulos. No entanto, com exceção dos seus juízos de valor e ironias (aliás, espalhados por todo O Capital) geniais (que o leitor desculpe este nosso julgamento), os textos equivalem a reportagens de altíssima qualidade (o superlativo é necessário), com articulação eficiente de informações precisas da legislação e estatísticas sobre o mundo do trabalho da época (principalmente o capítulo “A Jornada de Trabalho”). Marx conseguiu precisão porque usou números verdadeiros, provenientes de estatísticas oficiais, sistematizando-os eficientemente dentro de seus objetivos. Durkheim também utilizou dados reais para sua pesquisa sobre suicídio e, semelhante a Marx, tratou-os com o máximo de rigor e detalhe – uma qualidade necessária no jornalismo. Por exemplo, obviamente uma pesquisa sobre suicídios na Europa deve trazer a distribuição de casos por país. Mas Durkheim busca também outras medidas, como esta distribuição por graus de latitude, por estações do ano (e aí também é buscada a temperatura média de estações). Como diz Durkheim (1982:74), “há mais suicídio na primavera do que no outono, embora faça um pouco mais frio na primavera. Desse modo, enquanto o termômetro sobe de 0,9o na França e 0,2o na Itália, o número de suicídios diminui de 21% na França e 35% na Itália”. O sociólogo vai além: mede também a extensão dos dias e a relaciona com os números de suicídios; o número de suicídios por períodos do dia (por exemplo, das 16 às 20 horas); o sexo do suicida; os dias da semana que apresentam maior freqüência de suicídios; suas causas (vide Durkheim (1982:106-112). A pesquisa continua investigando a religião predominante em países e regiões, o modo de suicídio, grau de instrução, intervalos de idade, estado civil, profissões, existência ou não de filhos dos suicidas. Por sua vez, a precisão de Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, está nas conexões causais entre o protestantismo e o surgimento do capitalismo. Partindo do ideário de Benjamin Franklin (“Tempo é dinheiro, crédito é dinheiro”), o sociólogo pesquisa e descobre a gênese de uma ética originada no ascetismo protestante, onde o trabalho é um dever, a poupança, idem, e, em conseqüência, pela primeira vez no mundo, surge e se desenvolve um tipo especial de acumulação – a capitalista. Desta forma, é um “ethos”, um “espírito”, “uma cultura”, que cria e estimula um modo de produção radicalmente diferente do seu antecessor, o feudalismo. Através de conexões causais, Weber mostra, rigorosamente, a relação direta entre idéias religiosas e o capitalismo.

32) Indicadores desta fragilidade são os seguintes: 1) do ponto de vista das empresas, redução de tiragens. Em “Comentários relativos ao ano de 2002”, MARTINS (2003), Diretor Executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), diz: “A circulação de jornais diários no Brasil reduziu-se 9,1 por cento em 2002. É o segundo ano consecutivo de declínio, após os 2,7 por cento negativos registrados em 2001 que interromperam uma linha ascensional que vinha desde 1996. Em outras palavras, após quatro anos de crescimento contínuo, a circulação dos jornais brasileiros registrou duas quedas seguidas. No ano anterior, 2000, houve um crescimento significativo em comparação com 1999, de 8,81 por cento. Em 1999, a alta fora de 1,15 por cento em relação a 1998. Assim, a média de circulação diária, que alcançara 7,163 milhões em 1998, passou para 7,245 milhões no ano seguinte e chegou a 7,883 milhões em 2000. Já em 2001 registrou-se uma circulação de 7,670 milhões de exemplares/dia e em 2002, sempre em termos de circulação média, 6,972 milhões”. 2) Do ponto de vista da corporação profissional, prejuízos diante do livre acesso à profissão via decisão judicial, como acontece atualmente. Ocorre que, se a atividade é vista como mera prática, não haveria, com efeito, impedimentos para exercê-la por qualquer pessoa. Um aprendizado através da prática é singelo porque se baseia em analogia: basta observação de como se faz e algum treinamento para repetir a tarefa. Por exemplo, visto a partir da ótica de uma empresa, o trabalho tradicional e convencional de um repórter é de fácil apreensão porque seu modo de trabalho é simples. Em conseqüência, é acessível para muitos. E nada pior para uma profissão do que ter o seu conhecimento, ou seja, o “como se faz”, numa forma fácil de ser entendida e desempenhada por pessoas que não pertencem a ela. Em qualquer profissão existem “segredos” disponíveis apenas àqueles que formam sua corporação (se, de nível universitário, adquiridos, obrigatoriamente, apenas através da formação). Um desses “segredos”, sem dúvida, são os métodos de trabalho. Quando se analisa o jornalismo de precisão, percebe-se quanto o método convencional é simples e quanto é necessário o método científico. Por certo, uma causa determinante para a crise do jornalismo impresso é justamente o esgotamento do modelo baseado em práticas convencionais. O jornalismo impresso não apresenta competição apenas entre as publicações que formam este ramo, e mesmo com telejornais, mas também com milhares de sítios que podem ser acessados por computadores conectados à internet. Se até pouco tempo atrás a decisão de compra de um leitor era direcionada ao produto em banca ou a uma assinatura, hoje esta determinação está relacionada a tecnologias de conexão com a internet. Esta concorrência torna-se ainda mais intensa quando se relaciona a oferta de informações que suprem necessidades de usuários, através desta rede. Acessando-a, as pessoas não apenas podem ter conhecimento de diversas informações, mas, exatamente por esta possibilidade, assimilar critérios e parâmetros de qualidade. Com opções – e através da internet essas são enormes –, estabelecem-se oportunidades de se acessar informações que concorrem com o jornalismo impresso. Com esta rede, diminuiu a importância do jornalismo como provedor de informações. Dentro de um ambiente de concorrência deste tipo, ganha e sobrevive, como sempre, quem oferece o melhor serviço, o que aqui significa a melhor informação. Para produzi-la, não basta mais a mera prática, é preciso a prática da ciência, ou seja, o método científico. É este diferencial que está decidindo o jogo na oferta de informação entre as empresas e entre os profissionais.

33) Por utilidade real entende-se a validade de uma informação jornalística para servir a um propósito, semelhante a um documento (qualquer escrito que serve como prova de alguma situação, para uso conforme atribuição pessoal).

34) Utilizando a fonte “ TURBAN, E., ARONSON, J. Decision support systems and intelligent systems. 5. ed. Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1998”, SHIMIZU (2001:51-52) cita o texto “Por que usar um DSS?”, que diz: “Uma pesquisa efetuada em 1983 identificou seis razões principais pelas quais as organizações iniciaram a utilizar DSS de grande porte:”. O objetivo Necessidade de informações precisas recebeu 67 por cento das respostas, e foi o primeiro a ser citado (primeiros grifos do texto; segundos, grifos nossos). Como explica SHIMIZU (2001:52), “Sistema de Apoio à Decisão (DSS) é um conjunto de procedimentos (programas de software) baseados em modelos para processar dados e analisar problemas, tendo como finalidade dar assistência aos administradores no processo de decisão” (grifos do autor).

35) É o caso do “aproveitamento” da fonte, em entrevistas coletivas, para divulgar o que lhe interessa.

36) É o caso, por exemplo, de declarações de agentes que executam a política do governo federal e que provocam, através de outros agentes, movimentos nas Bolsas de Valores e mesmo no preço do dólar norte-americano – mercados ultra-sensíveis aos “declaratórios” de autoridades públicas federais.

37) A relação repórter – fonte é um jogo, onde o cacife de cada um são informações. Para o repórter, não basta perguntar, mas fazer a pergunta que não permita ao entrevistado usar outra alternativa (estratégia) a não ser a exata resposta correspondente, o que não significa que tenha conteúdos corretos. Entre os dois, a fonte tem a vantagem da resposta – que será a expressão de seus interesses. Ao repórter resta conseguir perceber a ilação, através de suas informações. Por isso, a checagem em outras fontes é imprescindível.

38) Como diz DURKHEIM (1981: 53), “(...) quando dizemos que os corpos são pesados, que o volume dos gases varia na razão inversa da pressão que sofrem, nós formulamos julgamentos que limitam a exprimir determinados fatos. Eles enunciam aquilo que existe e, por essa razão, nós os chamamos julgamentos de existência ou de realidade. Outros julgamentos têm por objeto dizer não aquilo que as coisas são, mas aquilo que elas valem em relação a um sujeito consciente, o valor que este último a elas atribui; a esses dá-se o nome de julgamento de valor”.

39) Segundo Senge (1998:42), “’Modelos Mentais’ são pressupostos profundamente arraigados, generalizações ou mesmo imagens que influenciam nossa forma de ver o mundo e de agir”. E diz ainda Senge (1998: 201) que A Roupa Nova, do Imperador é uma história clássica que não fala de pessoas tolas, mas de pessoas limitadas por modelos mentais. A imagem que elas tinham sobre a dignidade do monarca as impedia de ver o rei nu como ele estava” (grifos do autor). De acordo com Senge e outros (1997:223), “o conceito de modelos mentais data da Antigüidade, mas a expressão foi cunhada pelo psicólogo escocês Kenneth Craik na década de 1940. Desde então ela tem sido usada por psicólogos cognitivos (...), por cientistas cognitivos (...), e gradativamente por gerentes”.

40) Conforme Senge (1998: 202), “duas pessoas com modelos mentais diferentes podem observar o mesmo evento e descrevê-lo de forma diferente, pois vêem detalhes diferentes”.

41) Como diz Senge (1998: 23), “não ‘temos’ modelos mentais. ‘Somos’ nossos modelos mentais. Eles são o meio através do qual nós e o mundo interagimos. (...) A aprendizagem que altera os modelos mentais é altamente desafiadora, desorientadora. Pode ser assustadora ao confrontarmos crenças e pressupostos consagrados. Não pode ser feita solitariamente. Só ocorre dentro de uma comunidade de aprendizes”.

42) Um exemplo de aprendizagem coletiva para mudanças de concepções sobre jornalismo é o próprio livro Os Elementos do Jornalismo, de KOVACH e ROSENSTIEL (2003), recém-lançado no Brasil. Reconhecendo crise na atividade, formou-se um grupo de jornalistas para discutir o que acontecia. Afirmam os autores (págs. 21-22) que “nos dois anos seguintes, o grupo, agora autodenominado Comitê dos Jornalistas Preocupados, elaborou o exame mais consistente, sistemático e abrangente jamais feito por jornalistas sobre o processo de recolher e apurar informações e suas responsabilidades. Organizamos 21 discussões públicas, com a presença de três mil pessoas, com testemunhos de mais de trezentos jornalistas. Fizemos uma parceria com uma equipe de pesquisadores universitários que fizeram mais de cem horas de entrevistas com jornalistas, tendo como tema seus princípios. (...) Estudamos a história de jornalistas que fizeram escola na profissão. Este livro é o resultado desse exame. Não é um sumário. É, na verdade, uma descrição da teoria e cultura do jornalismo que emergiu de três anos ouvindo jornalistas e cidadãos, dos nossos estudos empíricos e das nossas leituras da história da profissão nos Estados Unidos”.

43) A crise do jornalismo, tanto impresso como eletrônico, é multicausal, e suas causas são exógenas e endógenas. É um efeito que acumula-se na medida em que, apenas para referir o componente “formação”, não ocorrem efetivas mudanças nas concepções de cursos para a melhoria do desempenho profissional. A atividade jornalística compreende universidade e setor produtivo, como em outros ramos. No entanto, são áreas que não interagem. Praticamente, são mundos diferentes, e mostram-se em constante contraposição. Esta causa endógena condiciona fragilidade para ambos os lados, pois minimiza o efeito “universidade” que deveria estar distribuído em todo o sistema da atividade. Entre os objetivos da universidade, está o de pesquisar e propor soluções para o setor produtivo, como ocorre em qualquer outro ramo.

44) Uma análise sistêmica da formação jornalística pode ser vista em SCHUCH (2002).

45) Tudo parece muito simples, mas é dentro desta simplicidade que está a compreensão de um aspecto essencial da natureza do jornalismo. Segundo GENRO FILHO (1987: 163), “assim, o critério jornalístico de uma informação está indissoluvelmente ligado à reprodução de um evento pelo ângulo de sua singularidade. Mas o conteúdo da informação vai estar associado (contraditoriamente) à particularidade e universalidade que nele se propõem, ou melhor, que são delineadas ou insinuadas pela subjetividade do jornalista”.

46) Estamos nos referindo àqueles eventos “que não deixam dúvidas de que são notícias”, apreendidos por qualquer jornalista, e que fazem parte de um conjunto de fatos, desde a queda de um avião até uma declaração “bombástica” de autoridade pública. Neste entendimento, a notícia tem automaticidade de inserção no jornalismo. São aquelas divulgadas por, praticamente, todos os veículos que competem entre si em circulação ou abrangência.

47) Conforme NOBLAT (2002:111-112-113), “sei que os leitores querem encontrar notícias novas nos jornais, das quais eles ainda não tenham ouvido falar. Mas sei também que esperam receber explicações competentes sobre tudo que de importante aconteceu ou está acontecendo. Explicar o mundo, contar o que está por trás das notícias, relacionar fatos, tentar a partir disso antecipar o que pode vir a suceder: é o que os jornais deveriam fazer diariamente. (...). Interpretar é explicar. Para explicar, estabeleço conexões entre fatos presentes e passados.

48) Um exemplo é a interação entre exigências de mercado e a oferta de alimentos de origem animal (o caso de gorduras e preços). Para atendê-las, ciências como genética, bioquímica, fisiologia, estatística, entre outras, são aplicadas, modificando estruturas biológicas naturais, em função de mudnças de padrões e poder de consumo. Nem sempre foi assim, e observe-se o movimento de adaptação para demandas atuais.

49) Isto é demonstrado pela polaridade positiva, ou seja, se a causa aumenta, aumenta também o efeito. Quando a polaridade é negativa, significa o inverso: quando a causa aumenta, o efeito diminui. É importante notar que, quando se trata de relações causais, as causas também são efeitos e estes também são causas.

50) Crime organizado é a forma que toma a expansão e estruturação da criminalidade. É um leque de atos ilícitos, do tráfico de drogas à corrupção em áreas do setor público, e é um efeito multicausal. Estamos, porém, nos restringindo à conexão que existe entre crescimento econômico deprimido (que gera desemprego), e crime organizado, que certamente é significativa.

51) Recentemente foi criada a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI). Ver em http://planeta.terra.com.br/noticias/investigativo/

52) Como afirma SENGE (1998:94), “(...) uma característica fundamental dos sistemas humanos complexos: ‘causa’ e ‘efeito’ não estão próximos no tempo e no espaço” (grifos do autor).

53) Para exemplificar, pode-se descrever a seguinte relação causal para o componente “salários de reprodução” (aqueles que mantém a pessoa no nível de subsistência, reprodução simples) do sistema de desenvolvimento brasileiro: historicamente, eles são efeito de uma causa básica, “concentração da propriedade da terra”, pois esta provocou a “urbanização forçada”, resultando em “excesso de força de trabalho no setor urbano-industrial”. Esta diferença efetuou “demanda por emprego maior que a oferta”. Sua conseqüência foi uma pressão por emprego, motivando o desemprego que, por sua vez, reforçou os “salários de reprodução”, fixados via governo e/ou mercado (esses pagamentos foram possíveis pela produção de alimentos através da propriedade agrícola familiar, mantendo e/ou rebaixando o custo da força de trabalho daquele setor). Estes salários possibilitaram acumulação de capitais e concentração de renda, tornando-se estruturais na economia. Uma vez estruturados, os salários de reprodução são causas e efeitos do crescimento econômico, o seu “mecanismo”. (Obs.: o “milagre econômico” (1968-1973) foi possível via financiamento, logo, endividamento, externo, e não por elevação real de salários). Como causas, impedem crescimento; este efeito realimenta o componente desemprego, que reforça a existência dos salários de reprodução. Esta relação causal pode ser vista na figura 6:

Figura 6


* Hélio A. Schuch e professor do Departamento de Jornalismo. Universidade Federal de Santa Catarina. Colaborador da SdP.


Tus comentarios, sugerencias y aportaciones
nos permitirán seguir construyendo este sitio.
¡Colabora!



| Volver a la página principal de SdP |
|
Acerca de SdP | Periodismo de Investigación | Etica y Deontología |
|
Derecho de la Información | Fuentes de Investigación |
|
Política y gobierno | Comunicación Social | Economía y Finanzas |
|
Academia | Fotoperiodismo | Medios en Línea | Bibliotecas |
|
Espacio del Usuario | Alta en SdP |
|
SdP: Tu página de inicio | Vínculos a SdP | Informes |
|
Indice de Artículos | Indice de Autores |
|
Búsqueda en Sala de Prensa |
|
Fotoblog |

© Sala de Prensa 1997 - 2008


IMPORTANTE: Todos los materiales que aparecen en Sala de Prensa están protegidos por las leyes del Copyright.

SdP no sería posible sin la colaboración de una serie de profesionales y académicos que generosamente nos han enviado artículos, ponencias y ensayos, o bien han autorizado la reproducción de sus textos; algunos de los cuales son traducciones libres. Por supuesto, SdP respeta en todo momento las leyes de propiedad intelectual, y en estas páginas aparecen detallados los datos relativos al copyright -si lo hubiera-, independientemente del copyright propio de todo el material de Sala de Prensa. Prohibida la reproducción total o parcial de los contenidos de Sala de Prensa sin la autorización expresa del Consejo Editorial. Los textos firmados son responsabilidad de su autor y no reflejan necesariamente el criterio institucional de SdP. Para la reproducción de material con copyright propio es necesaria, además, la autorización del autor y/o editor original.