Sala de Prensa

53
Marzo 2003
Año V, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


A ouvidoria de imprensa no Brasil

Jairo Faria Mendes *

Os profissionais responsáveis por ouvir o público e criticar os meios de comunicação, no Brasil, são denominados ombudsmans. A mídia brasileira segue o modelo do ombudsman norte-americano, que tem seu melhor exemplo no diário The Washington Post. Por isso, adotou o nome "ombudsman", tão pouco sonoro, e que até hoje causa muita estranheza no público brasileiro, em vez de outras nomeclaturas como "defensor do leitor", "provedor dos leitores" e "mediador", utilizadas em outros países.

No modelo norte-americano, o ombudsman tem um papel muito crítico, criando uma polaridade entre público-jornalistas. A fiscalização e a denúncia são muito valorizadas, e o ombudsman se coloca como um advogado do cidadão. Já nos outros dois principais modelos, o francês( mediador) e o japonês( comitês de atendimento aos leitores), evita-se criar essa relação de conflito entre público e profissional de imprensa. Ao contrário, busca-se uma relação de harmonia entre esses dois personagens do processo comunicativo mediático.

As várias tentativas

No Brasil, houve algumas experiências de ombudsmans em meios de comunicação, mas a maioria teve vida curta. O jornal pioneiro foi a Folha de S. Paulo, em 1989, e até hoje é a grande referência para se discutir o trabalho do ombudsman de imprensa no país.

Depois da iniciativa da Folha de S. Paulo, inúmeros meios de comunicação adotaram a função, como os jornais Folha da Tarde(SP), A Notícia Capital(SC), O Povo(CE), Folha do Povo(MS), Diário do Povo(Campinas-SP) e Correio da Paraíba(PB); a revistas Imprensa; as rádios Bandeirantes(SP) e O Povo AM(CE); a PUC TV(MG) e Agência Nacional(propriedade do Governo Federal). Alguns jornais-laboratório de cursos de Jornalismo também criaram o cargo, e trouxeram um grande exemplo para a mídia brasileira, como o Campus(UnB), o Entrevista(Universidade Católica de Santos) e o Portal(PUCMinas/Arcos).

Folha de S. Paulo

A criação do cargo nesse jornal foi o resultado de um longo processo. A decisão de implantar a função surgiu por o diário espanhol El País (que era considerado como um modelo de jornalismo para a Folha) ter nomeado um "defensor del lector". Em 1986, uma sala na redação do jornal trazia a inscrição "ombudsman", mas só em 1989 Caio Túlio Costa foi empossado como o primeiro ouvidor de imprensa do Brasil.

A demora da nomeação do ombudsman ocorreu por que o jornal teve muita dificuldade em encontrar algum jornalista que fosse bastante corajoso para a assumir a função. Grandes jornalistas brasileiros recusaram a oferta, como: Luís Nassif, Joemir Beting, Carlos Eduardo Lins da Silva e Augusto Nunes. Até que, ironicamente, um jornalista propôs o nome do secretário de redação Caio Túlio, que era considerado genioso e agressivo. "Ele tem um enorme talento para prever problemas, mas exercia essa capacidade de um jeito extremamente antipático, sempre provocativo, a tal ponto que, quando irritado, chegava a ser violento."(OLIVEIRA SANTOS: 2000)

E foi só alguém com esse perfil tão pouco afável que possibilitou a experiência inovadora do ombudsman no Brasil. Caio Túlio tem sido considerado por muitos como o melhor ombudsman da história da imprensa brasileira. Em seu mandato, ele trouxe importantes críticas e reflexões sobre o jornalismo brasileiro, e, por isso, foi vítima de violentos ataques.

Depois dele passaram vários outros jornalistas pela função, mas algumas vezes a direção do jornal teve novamente dificuldade de encontrar profissionais que aceitassem assumir o cargo. A partir da Folha de S. Paulo surgiram várias outras experiências de ouvidoria de imprensa, sendo a que mais se destacou a do jornal O Povo(CE).

O Povo

No Brasil, somente três experiências de ombudsman podem ser chamadas de consolidadas, com caráter duradouro, são a da Folha de S. Paulo, do diário O Povo e da rádio O Povo. Os outros meios de comunicação que investiram na criação do cargo não o mantiveram por muito tempo.

O ombudsman foi implantado em 1994 em O Povo, e teve a frente a jornalista Adísia Sá, que se tornou uma referência para todos aqueles que querem discutir a função no Brasil. A implantação seguiu o modelo da Folha de S. Paulo, e passaram pelo cargo ombudsmans bastante críticos, como Lira Neto.

Os ouvidores de O Povo trouxeram importantes análises e fizeram denúncias e críticas fortes, que serviram para trazer maior transparência ao periódico. No entanto, foram alvos de muitas pressões. Lira Neto, por exemplo, sofreu uma campanha de seus colegas de redação que fizeram um abaixo-assinado em solidariedade de um jornalista que havia sido criticado pelo ombudsman.

Adísia Sá recebeu retaliações mais fortes ainda. Ela foi vítima de um atentado em que jogaram ácido no seu veículo. Mas o pior foram as ameaças, Adísia recebeu telefonemas assustadores como: "vai explodir uma bomba em seu prédio...", "cuidado você vai ser atropelada...", "seu carro vai pegar fogo...".

A rádio O Povo, da empresa proprietária do jornal que tem o mesmo nome, também teve uma experiência de ombudsman enriquecedora. Foi a segunda rádio brasileira com ombudsman, a primeira foi a rádio Bandeirantes, que também investiu bastante na função, mas acabou extinguindo o cargo, em 1998, quando o então ouvidor de imprensa recebeu uma boa proposta de trabalho e saiu da emissora.

A crítica pública é feita na rádio O Povo é através de um programa de 30 minutos chamado "Com a palavra o ouvinte". No programa não só o ouvidor fala, também opinam o editor executivo, o âncora do horário e pessoas convidadas.

Revista Imprensa

A revista Imprensa, uma publicação mensal especializada em jornalismo, criou a figura do leitor/ombudsman. O primeiro a ocupar o cargo foi Juvêncio Mazzarollo, em outubro de 2000. Em sua primeira coluna ele descreveu o motivo por que foi convidado.

Mazzarollo havia enviado um e-mail para a revista reclamando de erros gramaticais na publicação. O então editor Tão Gomes Pinto respondeu agressivamente às críticas: "Eu aqui preocupado com os destinos da humanidade e da civilização ocidental, fazendo o diabo para manter a revista em pé, e vem esse cara falar de vírgula e crase!?". Mas, depois, o editor voltou atrás, aceitou as críticas, e chamou esse leitor para ser ombudsman da revista.

O sucessor de Mazzarollo no cargo foi o próprio Tão Gomes, que criou o Caderno do Ombudsman, com oito páginas, em que fazia uma ampla análise da mídia. No entanto, na edição de junho de 2002, a revista informava que o então ombudsman estava abandonando o cargo para trabalhar em uma campanha eleitoral, e a função foi extinta.

Os pequenos

Quase todos os meios de comunicação brasileiros se recusaram a adotar ombudsmans, mas alguns pequenos jornais deram exemplo de cidadania mostrando que "tamanho não é documento"(expressão popular utilizada no país). São exemplos disso jornais de cidades de porte médio ou pequeno: como o Nosso Bairro (Campos – RJ) e o Pergaminho (Formiga – MG).

Alguns jornais-laboratório também têm criado o cargo, buscando conscientizar os estudantes de jornalismo da importância de meios de comunicação mais democráticos. Em alguns casos a função é ocupada por um professor( como no jornal Entrevista, da Universidade Católica de Santos), outros por alunos( como o Portal, da PUCMinas/Arcos, e o Campus, da Universidade de Brasília.

A experiência nos jornais-laboratório contribui para a reflexão sobre o trabalho do ombudsman. Tenho proposto que é necessário criar projetos de ombudsmans adaptados às características e o papel social de cada mídia. Considero que meios de comunicação populares, estudantis, comunitários, ecológicos, precisam de ouvidorias que respeitem suas especificidades.

A linguagem

O texto do ombudsman apresenta um grande desvio com relação aos padrões jornalísticos. Uma análise feita por mim, em colunas publicadas na Folha de S. Paulo, mostrou que estratégias proibidas nos demais textos jornalísticos, como o uso da primeira e segunda pessoa, e o pronome de tratamento "você" são utilizadas em grande quantidade nos textos do ombudsman.

Ficou bem claro com a análise, que o ombudsman tenta criar uma relação de proximidade com os leitores, e de distanciamento com os jornalistas.

As colunas de ombudsman também são muito bem-humoradas e possuem um texto bem dinâmico(com o uso constante de frases curtas, trocadilhos,...). Na coluna de 29/12/96, por exemplo, o ombudsman Marcelo Leite fala do adiamento da transmissão de seu cargo para outro profissional de forma bem irônica: "A alforria fica adiada por três ou quatro semanas..."

Mas a característica mais importante do discurso do ombudsman é o uso de várias estratégias buscando estimular o diálogo com os leitores. Para criar uma relação de proximidade com o público o ombudsman chama diretamente o leitor para o diálogo. Para isso, ele utiliza a palavra leitor com uma função semelhante a de um vocativo. "Chamo a atenção do leitor para..."(FSP, 3/3/96). Outras vezes o leitor aparece como "personagem principal". "O leitor foi teletransportado de um mundo povoado de anões morais para a imensidão do cosmos"(FSP, 8/12/96).

Procurando criar uma relação de identificação com o público algumas vezes o ombudsman se apresenta como leitor. "Como leitor, quero saber a quem interessa..."(FSP, 26/5/96). Também é interessante observar que ele prefere utilizar o singular(leitor) para se referir ao público. Ao usar o singular, é como se ele estivesse falando particularmente a cada um de nós.

Além da palavra leitor, o ombudsman algumas vezes utiliza a segunda pessoa, um recurso mais forte para criar uma relação íntima com o público(considerando "você" como um pronome de segunda pessoa, e não um pronome de tratamento). "Se você só lê a Folha..."(FSP, 22/12/96). Outras vezes o ombudsman faz perguntas ao leitor, uma forma de estimulá-lo a participar de um diálogo. "De que lado você está?"(FSP, 11/2/96)

Buscando criar uma relação informal com o público, ele utiliza muito a primeira pessoa. "Quando escrevi a coluna..."(FSP, 29/12/96). Em algumas situações, o ombudsman se apresenta de forma bem humilde, deixando claro que suas opiniões não são inquestionáveis. "Não tenho competência nem ânimo para interpretar..."(FSP, 29/12/96). Esta postura deixa os leitores mais a vontade para o procurarem.

Com os jornalistas o ombudsman também dialoga. No entanto, ao contrário do que ocorre com os leitores, a interlocução com os profissionais de imprensa é conflituosa. O "representante do leitor" descreve os jornalistas como profissionais sem ética e incompetentes. Nas colunas analisadas eles são chamados de "ingênuos", "ignorantes", "insistentes"(chatos), "mórbidos", "complicados", "desconhecedores das normas gramaticais", "oportunistas", "incompetentes", "desrespeitadores", entre outras coisas.


* Jairo Faria Mendes é Doutorando em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, e Mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele é autor do livro "O ombudsman e o leitor"( Ed. O Lutador, 2002), e administrador do sítio www.ombudsmaneoleitor.com.br. Também é professor e pesquisador da PUCMinas/Arcos. Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.


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