Sala de Prensa

51
Enero 2003
Año IV, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


Elementos para compreender
o jornalismo informativo

Rosa Nívea Pedroso *

RESUMO: Este ensaio faz uma reflexão sobre os conceitos de jornalismo e de notícia e seus efeitos de sentido. Tem como objetivo entender o processo de produção de sentido no jornalismo informativo. ABSTRACT: This essay presents an analysis about journalism and news concepts and also about news meaning effects. It tries to understand the meaning production process which takes place in the informative journalism. RESUMEN: Este ensayo hace una reflexión sobre los conceptos de periodismo y de noticia y sus efectos de sentido. Tiene como objetivo entender el proceso de producción de sentido en el periodismo informativo.

1. PARA INICIAR: UMA ATIVIDADE COMPLEXA

A idéia deste ensaio é de situar o jornalismo como atividade. O jornalismo como uma atividade que transforma o acontecimento em notícia (e a notícia em meta-acontecimento, isto é, o fato reacontece ao ser relatado/narrado. Reacontece de acordo com as leis do mundo simbólico), em reportagem, em entrevista, em artigo, em fotonotícia , em fotorreportagem, em infografia. Isto é, transforma o acontecimento do mundo natural ou do mundo simbólico em acontecimento jornalístico, entendido como acontecimento do gênero informativo(notícia, entrevista), do gênero interpretativo (reportagem), do gênero de opinião (artigo e editorial) e do gênero ilustrativo (fotonotícia, fotorreportagem, infografia). A essa atividade chamamos de atividade de transformação informativa. Então definiríamos, primeiramente, o jornalismo como uma atividade de transformação informativa.

2. A IDEOLOGIA DA NOTÍCIA NA PRODUÇÃO DE SENTIDO E DE TEXTO

O jornalismo como uma atividade de transformação informativa possui uma dimensão prática e comunicativa(lingüística). Prática no sentido de ser uma atividade racional, empresarial e industrial rigorosamente periódica, regular, repetitiva (controlada, definida pelas rotinas de produção). Comunicativa porque é naturalmente humana, social, ideológica e efemêra, isto é, mediada pelo sujeito da produção e da interpretação(indivíduo, empresa e suas relações, interesses e valores individuais, corporativos e empresariais).

Essa atividade comunicativa é traduzida também pela função histórica de informar (opinar e interpretar), educar e entreter. Informar no sentido de tornar público e de interpretar aquilo que acontece (e se conhece) na Sociedade. In-formar seria também como dar forma à realidade circundante, organizando-a, interpretando-a . Educar no sentido de que toda informação é cultura. Educa-se, civiliza-se pela informação. Entreter no sentido de apresentar a realidade de forma amena, prazeirosa, glamurosa ou espetacular. O caráter de show e de espetáculo no jornalismo avaliamos como uma distorção e/ou aberração da função de entretenimento.

O jornalismo como atividade intrinsicamente humana, social e ideológica ( por isso subjetiva, arbitrária e coletiva) transforma a realidade apreensível em relato. Então, para nós, toda concepção sobre o jornalismo passa por essas duas dimensões inseparáveis de atividade e de relato. Pois, o jornalismo é, em primeira e última instância, uma atividade de produção incessante de sentido e de texto. É uma atividade ininterrupta de tessitura de texto (para ser lido, ouvido, visto, visto-e-ouvido).

Vamos brevemente refletir neste ensaio sobre a natureza do relato no jornalismo. Que relato seria esse? De acordo com a ideologia da noticia seria um relato efêmero, imediato, inesperado, relevante e superficial. A notícia está centrada sobre o factual, é sempre um relato superficial e singular sobre a realidade. Cabe à reportagem o relato da problemática, da particularização e da contextualização dos acontecimentos.É pertinente à reportagem (e ao livro-reportagem) a ampliação-e-particularização do relato.

Poderíamos dizer também que esses relatos (superficiais e ampliados) se transformariam em conhecimentos típicos sobre a realidade. A realidade seria conhecida dominantemente de forma singular e secundariamente de forma particular (pois o conhecimento típico da reportagem demanda mais tempo, mais espaço e mais gastos na sua produção). É próprio da natureza da notícia produzir um conhecimento superficial sobre a realidade. A identidade com o efêmero e o imediato constitui a ideologia da notícia. O jornalismo existe como notícia e a notícia constitui a existência do jornalismo.

Mas o jornalismo como uma atividade empresarial e industrial reflete uma relativa racionalidade no seu fazer periódico, no sentido de diminuir o grau de incertezas (erros e críticas) acerca dos procedimentos de acesso aos fatos e da conseqüente produção , reprodução e transformação dos fatos inesperados e previstos (isto é, dos fatos importantes e dos fatos inusitados (ou de interesse humano ou do interesse do público).

O jornalismo se faz com fatos, fontes (críveis e oficiais), citações(depoimentos) e senso crítico. E esse fazer reproduz a dimensão social do interesse comum da Sociedade. O jornalismo pode ainda ser entendido como um sistema de reprodução simbólica do Estado, do Capital, do Mercado, da Cultura (do Povo) e dos Partidos Políticos. Essa reprodução simbólica do caráter social/coletivo da Nação apresenta-se cristalizada no tipo de conteúdo produzido e veiculado. O jornalismo diário e semanal de prestígio constrói um conteúdo reconhecido na recepção como político e econômico, isto é, que se refere às esferas políticas e econômicas dominantes da Sociedade. Esse conteúdo prioritariamente do campo político e econômico produz um efeito de diversidade mostrando a variedade, diversidade, complexidade, multiplicidade do mundo econômico, social e cultural porque reflete/ mostra a dinâmica da vida produzindo um efeito de familiaridade porque sempre refere-se às mutabilidades do mundo real, visível, verificável (nas ruas, nos shoppings, nos noticiários, nas coisas, nas pessoas, nas vitrines).

O jornalismo seria uma forma de representação simbólica da diversidade complexa do mundo real. Realmente em uma só edição de um jornal diário ou de uma revista semanal de informação, ou de um telejornal ou de um radiojornal apresenta uma multiplicidade de assuntos e problemáticas que se referem à dinâmica da vida cotidiana dos Cidadãos. Essa representação do dinamismo da vida em sociedade possui uma sintaxe que se entrecruza entre a ideologia da notícia e a ideologia da publicidade porque visa um destino certo a opinião pública, isto é, o cidadão/leitor/telespectador/ouvinte (isto é, audiência) que se transforma em consumidor de alienações e de necessidades criadas. Esse efeito de variedade, na verdade, refere-se apenas aos discursos do mundo dominante, do poder político e econômico hegemônicos. E o jornalismo é o modo e a prática de representação simbólica dos poderes sociais instituídos legitima e hegemonicamente.

Essa rede de sentidos entre notícia, publicidade e poder vai constituir as relações ideológicas/simbólicas entre jornalismo e verdade, jornalismo e realidade e entre mundo natural e mundo simbólico. Isto é, o entrecruzamento entre ideologia dominante e mundo dos fatos. Esse processo de produção faz da notícia um produto cultural, ideológico, subjetivo, coletivo e arbitrário.

O jornalismo como uma atividade técnica e empresarial coleta, seleciona, organiza, hierarquiza e apresenta informações e imagens, entendidas pelos editores, como socialmente relevantes. Esse trabalho de preenchimento lingüístico e ideológico no tempo e no espaço jornalísticos, no entanto, pode ser traduzido como um forma especial e específica de organização, própria do jornalismo que poderíamos chamar de um trabalho essencialmente subjetivo e arbitrário de hierarquização. Hierarquização das informações (e das imagens) no texto, nos títulos, na página, na tela e etc.

O jornalismo como atividade de natureza informativa faz da exatidão a sua qualidade essencial, juntamente com a agilidade. Agilidade em fazer o produto mais informativo e mais reduzido e fragmentado ( reproduzindo a ideologia da alienação e do consumismo traduzida pelo enunciado repetido nas redações e nos cursos de jornalismo de que o leitor pós-moderno não lê mais que 20 linhas) ou mais analítico (contextualizado e rigoroso) no menor tempo possível. Essas duas qualidades exatidão e agilidade compõem o sentimento/reconhecimento de credibilidade do meio informativo.

Ainda como atividade informativa, o jornalismo trabalha com matérias-prima de duas naturezas: matéria-prima objetiva (fatos, dados, fontes, declarações) e matéria-prima subjetiva (conceitos, idéias, versões, isto é, aquilo que irá se constituir em opinião, versão, ideologia, verdade, realidade. Que irá se constituir em conteúdo da notícia, da reportagem, da entrevista, do artigo).A notícia, entendida como aquilo que foi divulgado/publicado, envolve relações entre fatos e valores, entre fatos, pessoas e idéias.

Artisticamente ( através das imagens e enredos do cinema), o jornalismo é representado como uma atividade heróica. A notícia é mostrada como resultado de um homem só (ou de uma dupla). Mas, como atividade institucional e empresarial, sabemos que o jornalismo é uma atividade individual em primeira instância e coletiva em última instância. O sujeito da notícia implica nas questões relativas ao indivíduo , à corporação e às relações que se estabelecem no meio social.

Múltiplas determinações atravessam o produto/resultado notícia. Determinações individuais e profissionais, determinações organizacionais, institucionais e sociais ao mesmo tempo. Neste composto, atravessam-se as influências ideológicas do meio informativo como organização, as influências pessoais dos jornalistas, dos editores, dos anunciantes e do mercado (mercado também entendido como opinião pública produzida/audiência/tiragem).

O jornalismo como atividade informativa tem a atribuição de interpretar a realidade, para isto se vale de uma relativa racionalidade através da aplicação de rotinas produtivas, profissionais e ideológicas que se traduzem na intenção de separar informação de opinião, fatos de sentimentos, realidade de imaginação, fantasia, desejo e ficção.

Então, o jornalismo ético tem como princípio a busca da exatidão (exatidão significa verdade para o jornalismo) e da realidade, a busca do interesse social, a revelação dos conflitos e o distanciamento dos interesses parciais. No entanto, esses pressupostos éticos realizam um movimento pendular do jornalismo ora entre senso comum e senso crítico, formando o fermento da coesão social e, por conseguinte, garantindo o status quo. E ora entre superficialidade, efemeridade, alienação e consciência crítica. Esse movimento pendular realiza uma síntese social ( resultado de múltiplas determinações profissionais, organizacionais e sociais) que projeta e constitui o sentimento comum, o senso comum e diz daquilo que todos já pressupõem: o efeito de dejà-vi em algum lugar, em algum momento.

O jornalismo informativo atual não se constitui como uma atividade simbólica transformadora, libertária mas conservadora, reparadora e confirmadora dos ideais capitalistas.Assim que o jornalismo vai diferir da publicidade por não buscar interesses totalitários, através do convencimento, da sedução e do simulacro. Vai diferir das relações públicas por não buscar interesses particulares, por não ocultar a verdade, por não amenizar conflitos e por não se reduzir ao discurso da boa vizinhança. Apesar dos três, jornalismo, publicidade e relações públicas, estarem a serviço da coesão social e da coesão do capital.

A rotina profissional de coleta, seleção, hierarquização e apresentação constituem o continuum no processo de produção da notícia. Sem notícias não existem narrativas sobre a realidade, sobre o cotidiano, sobre o mundo. As notícias são as narrativas efêmeras e superficiais , as representações simbólicas do mundo pós-moderno eletronicamente interligado pela televisão via satélite e pela rede de computadores (internet).

Exatidão, correção, concisão, clareza e atualidade com agilidade constituem as qualidades essenciais do processo produtivo informativo rotineiro do texto jornalístico. Esse processo, no entanto, contém em si o seu reverso quando se dirige a outros modos de produção, a outros modos de tratamento e divulgação da informação. Isto é, quando existe a intencionalidade de atingir a massa ou de entreter as audiências/públicos os efeitos de sentido ao invés de apontarem para a exatidão e para o equilíbrio editoriais, podem apontar para a inexatidão, imprecisão, distorção, denuncismo, sensacionalismo, morbidez, preconceito, estereotipação, caricaturização ou escracho.

Exatidão, correção e equilíbrio apontam para a produção de sentidos lingüísticos apropriados e adequados e não impróprios, inadequados e incorretos, isto é, indicam uma intencionalidade informativa que produz um efeito de distanciamento em relação aos fatos e às fontes. A exatidão e a correção indicam também uma intencionalidade positiva para o bom senso e não para a exacerbação ou exagero. Dependendo da intenção editorial , os efeitos de produção podem ainda apontar para a concisão ou para a superficialidade, para a descontextualização ou fragmentação. Ou podem apontar para a atualidade ou para o oportunismo, espetacularização, frivolidade ou entretenimento. Ou podem apontar para a clareza ou para o pedantismo ou subestimação, para o reducionismo ou generalização. Entendemos aqui que simplicidade não é simplificação.

As fontes, o conteúdo e o significado social dos acontecimentos, a audiência (opinião pública ou mercado?) e o jogo de interesses de jornalistas, editores, anunciantes e proprietários constituem-se no que denominamos como condições de seleção e de hierarquização no jornalismo. Seleciona-se e hierarquiza-se por interesses e por importâncias a priori subentendidas, preestabelecidas, instituídas ou apreendidas. As condições de seleção, hierarquização e de existência no jornalismo estabelecem-se a priori.

A seleção é definida pelo conjunto de critérios individuais, profissionais, organizacionais, políticos e de mercado. Da convergência desse conjunto de critérios é que são estabelecidas as políticas informativas, editoriais e de mercado (audiência). As políticas de mercado referem-se basicamente aos grandes temas para atrair público (audiência, tiragem, venda de dicionários, enciclopédias, mapas, panelas etc). Chamar público, atrair público tem uma intenção mais profunda: a de afetar, influenciar, formar a opinião pública, isto é, o que chamamos de efeitos cognitivos que são condições de predisposição favoráveis às campanhas de agendamento (ou desagendamento) de idéias e opiniões promovidas pelo jornalismo de marketing.

2.1 IDEOLOGIA DO OBJETIVISMO INFORMATIVO

A notícia supõe objetividade, primazia dos fatos, fontes e declarações. Supõe primazia da informação sobre o estilo. A reportagem entendida como o reverso do noticiarismo supõe informação e originalidade. Originalidade supõe estilo, supõe interpretação, impregnação do sujeito. Aqui não estamos nos referindo às reportagens informativas (de fatos e citações).O articulismo é o reverso do jornalismo informativo, postula explicitamente a subjetividade sobre a informação. Os editoriais, por exemplo, postulam apenas a subjetividade da organização (e das instituições socialmente legitimadas) e dos interesses políticos e econômicos hegemônicos. Subjetividade editorial em jornalismo hoje significa a consagração da lógica hegemônica do mercado.

Objetividade para o jornalismo não é só a capacidade de permanecer impessoal diante de ações e decisões imediatas mas é também os métodos de trabalho,os procedimentos operativos, estratégicos, impessoais, ritualizados para minimizar as incertezas impostas pelos prazos de fechamento da edição, pelos acontecimentos imprevistos, pelos desmentidos e etc.

Esses procedimentos objetivos Gaye Tuchman (1993,p.74) os denominou de "rituais estratégicos" de proteção contra erros, críticas, processos (e falsidades). Então, pode-se entender a objetividade como invocação da perspicácia profissional que alerta para o distanciamento entre jornalista e fatos, jornalista e fontes (e versões). Proximidade demasiada significa correr riscos do ocultamento de interesses (pessoais, organizacionais e institucionais).

Gaye Tuchman ( 1993, p.90) também refere-se à objetividade como "atributos formais"da notícia e do meio (jornal, revista, rádio, televisão, internet). Atributos esses que se referem ao manejo apropriado de estratégias profissionais de defesa tais como: apresentação de fontes, provas, citações (uso de aspas ou do discurso indireto); hierarquização das informações e a separação formal e textual entre informação e opinião.

O objetivismo, portanto, é o discurso que vai marcar o noticiarismo pela ênfase nas fontes, citações e provas, ocultando assim o sujeito-redator-jornalista. O objetivismo oculta que o jornalista fala pelos fatos (no sentido de que faz a medição entre fatos e público). Ele, jornalista, é responsável pelo título, pelo lead, pelo enfoque, pelas citações e por todas as escolhas feitas (e difundidas):"O jornalista tem um papel social institucionalizado e legitimado na transmissão do saber cotidiano e como tradutor do saber dos especialistas para o grande público"(Alsina, 1996).

Em suma, a reificação da objetividade na prática informativa reverte-se em "instrumento de descrédito e um meio do jornalista fazer passar a sua opinião"(Tuchman, 1983). Além de dar a entender ao leitor que fatos e versões são convincentes e definitivos. Escolhas e seleções que se naturalizam na página do jornal, na tela do computador. Por isso, o senso comum é uma noção-chave no jornalismo pois ele constitui "um convite à percepção seletiva". O senso comum entendido como "base de avaliação do conteúdo noticioso" determinando se uma "informação pode ser aceita como fato".

Vemos assim que objetividade (aqui entendida como uso do senso comum) é uma "noção operativa". Exclusivamente pragmática. Primeiro: para reduzir o grau de incertezas e de imprevistos nas rotinas da profissão. Segundo: para demonstrar que "eu sou objetivo porque usei aspas" que "separo aquilo que penso daquilo que relato". O noticiarista não reflete sobre os fatos. A notícia não é uma reflexão sobre os fatos.

2.2 EVIDENTE INTENÇÃO DE INFORMAR

As especificidades do jornalismo informativo se constituem entre o estilo direto e as estratégias operacionais e rotineiras sobre as pressões dos imprevistos e dos prazos de tempo de edição e de fechamento. O jornalista opta por um tipo de postura profissional: a do "distanciamento crítico"(Brecht).

O jornalismo informativo (e de análise) contempla e reproduz a visão dominante sobre a sociedade. A intenção de isenção que caracteriza o jornalismo de elite não visa a transformação da sociedade mas a legitimação da dominação cultural ( e econômica). Visa formar uma consciência coletiva homogênea (como se isso fosse possível) através do ideal do jornalismo de democratização da informação. A posse da informação, decorrente do conhecimento da informação só aparentemente reflete uma disposição crítica porque o pressuposto da produção industrial é não fazer uma forma engajada de jornalismo (nem de Comunicação).

A intenção de isenção e a "atitude psicológica informativa" (Suarez,1988) qualificam o noticiarismo como relato inteligível voltado simplesmente para a divulgação (comunicação?).No entanto, é preciso reconhecer que é possível encontrar na reportagem uma forma engajada de fazer jornalismo. A reportagem seria uma espécie de reduto onde sobrevive o espírito de aventura do jornalismo político e ideológico.Reportagem entendida como gênero jornalístico informativo-intepretativo prima pelo estabelecimento de conexões e articulações entre fatos, acontecimentos, fontes e informações. Como gênero que opta pelos processos complexos e contraditórios de ver o mundo dos fatos, a reportagem reflete uma disposição psicológica crítica.

No articulismo existe uma evidente intencionalidade autoral e ideológica que tem como único imperativo transformar-se em relato inteligente (original?) e inteligível voltado exclusivamente para a propagação e debate. Estas características definidoras dispensam elocubrações sobre o jornalismo de opinião já que ele tem como propósito a priori a exposição de idéias e a conseqüente argumentação ideológica que visa influir, persuadir, predominar e abafar outras vozes. O combate aí acontece entre informação e desinformação. O articulismo como artilharia dos intelectuais deveria, a priori, refletir uma disposição psicológica crítica, uma evidente intenção de mudança (o que na realidade não é isso o que se vê ou lê).

Nesta exposição já é possível vislumbrar que o paradigma do jornalismo é construído por gêneros, por fronteiras, por categorias. Ora está entre informação e emoção, ora entre isenção e compromisso (engajamento) , ora entre simplificação (noticiarismo) e contextualização (análise e reportagem), ora entre conformismo e mudança, ora entre pessoalismo (ou personalismo?) e impessoalismo.

No jornalismo sensacionalista e no jornalismo assistencialista existe a evidente intenção de explorar e exacerbar a condição marginal do povo( o imaginário). Neste encontro entre imaginário (do povo) e condição (cultural do povo) acontece a expansão das práticas políticas populistas e clientelistas.

Em síntese, o paradigma do jornalismo como atividade informativa e de difusão é constituído na articulação entre "atitude psicológica informativa" (ou intenção de isenção) e evidente intenção de pessoalidade. Nessa imbricação psicológica intencional dormem sobre o paradoxo da existência da neutralidade os empíricos e os utópicos da verdade e da imparcialidade.

Assim, pelo paradigma do jornalismo informativo, sob a evidente intenção de informar, os erros, distorções e abusos editoriais raramente são intencionais ou premeditados. São decursos, decorrem do processo psicológico individual e coletivo. Superficialidade, pessimismo e etc são decorrências psicológicas de quem faz o jornalismo. Porque antes de ser uma atividade industrial ou empresarial é uma atividade pessoal-coletiva-e-humana e por isto, subjetiva e arbitrária.

Vale ainda dizer que o jornalismo é uma atividade que se inicia naturalmente pessoal, coletiva e ideológica desde o momento da coleta e da seleção aos momentos da hierarquização e da divulgação. Selecionar e hierarquizar é opinar. O jornalismo é uma atividade naturalmente de seleção (e de opinião). Quando seleciona inclui, exclui, amplia ou não amplia. Como não existe meio termo, entre incluir e excluir, o jornalismo é uma atividade radicalmente de opinião porque existe uma evidente intencionalidade de selecionar e de hierarquizar. A diferença entre isto e aquilo (entre informativo e de opinião) está na intenção. Na intenção de informar, na intenção de analisar, na intenção de convencer (argumentar). A disposição de informar, comentar, argumentar etc. A diferença, então, é uma questão de grau, disposição (de acordo com o formato) de aprofundar, analisar; a disposição (de acordo com o formato informativo) de divulgação imediata (superficial e efêmera).

Vale ainda dizer que o jornalismo sensacionalista e o assistencialista não se constituem sobre o paradigma da impessoalidade e do distanciamento (da intenção de isenção). Tanto um quanto outro se constituem sobre a evidente intenção de representar uma das parcelas da sociedade, no caso, da sociedade desorganizada, marginal, excluída. Existe aí uma relação de representação simbólica, ideológica e lingüística do povo e dos marginais. Enquanto que no jornalismo diário informativo e no jornalismo semanal de informação existe uma evidente disposição de distanciamento das classes inferiores cultural e economicamente. Isto é, o

jornalismo informativo de prestígio delega ao jornais popularescos a tarefa de representar as classes populares. Paradoxalmente, o jornalismo informativo de prestígio representa as classes dominantes com a contínua construção de um paradigma de distanciamento lingüístico das classes populares. O paradigma entre a constituição informativa hegemômica e o paradigma da constituição popularesca é de ordem unicamente lingüística. No modo de produção informativo o paradigma é o do distanciamento lingüístico construído e no modo de produção popularesco, o paradigma é o da proximidade lingüística construída.

Através das rotinas profissionais, o jornalismo informativo separa intencionalmente matéria-prima objetiva (informações, dados, fatos, acontecimentos etc) de matéria-prima subjetiva (idéias, opiniões), através de operações lingüísticas (e ideológicas) que transformam o referente (o real, o fato) em texto reconhecido como informativo (estilo direto do noticiarismo) e como de opinião ( o texto livre quanto à seleção e tratamento dos fatos e do texto do articulismo, cronismo etc, regido pelo ângulo pessoal).

As operações lingüísticas realizadas pelo jornalismo transformam o caráter factual, efêmero, imediato, superficial da notícia em relato informativo substantivo (reconhecido como desprovido de apreciações subjetivas e impedido de utilizações vocabulares adjetivas e regido pelo ângulo social) e transformam o caráter temático e atemporal da reportagem em relato informativo ampliado. A ampliação do relato na reportagem confere-lhe um status interpretativo, que no seu processo lingüístico de expansão e de conhecimento da realidade transformam-na no embrião da obra jornalística (literária e histórica) que é o livro-reportagem e seus similares como as reportagens biográficas e etc.

São imperativos das operações lingüísticas no jornalismo informativo substantivo a clareza de raciocínio (na forma de estilo nunca rebuscado ou barroco), o domínio do idioma, agilidade do processo e a exatidão (semântica das palavras utilizadas). Assim agilidade e exatidão tornam-se qualidades essenciais do processo lingüístico, somadas às qualidades éticas da prática da crítica (do senso crítico) e do serviço público (como senso do interesse comum. O caráter de serviço público pode transmutar-se em assistencialismo).

A ideologia profissional de agilidade e precisão não exclui que em um mesmo processo informativo (um telejornal por exemplo) algum acontecimento ou protagonista do fato receba um tratamento inexato, impreciso, superfical ou sensacionalizado (no sentido de perceber de forma preconceituosa, estereotipada ou caricata). Aqui sensacionalismo, estereotipação ou caricaturização são o reverso da ideologia do objetivismo ou do distanciamento.

A ideologia do objetivismo ou do distancimanto neste início de século XXI continua a defrontar-se fortemente com a ideologia histórica do espetáculo. Só que hoje a ideologia do espetáculo (não mais romano ou nazista ou personalista [getulismo,peronismo] mas neoliberal-norte-americano) denomina-se índice de audiência, tudo em nome do público ( da audiência, das tiragens, das vendas). Em

nome das massas do pós-Estado ( isto é, das legiões de desempregados, idosos, doentes, crianças abandonadas e refugiados da fome e das guerras) o jornalismo encontra no sensacionalismo e no assistencialismo dois modos de se comunicar com as massas-audiência da televisão aberta e das emissoras de rádio.

A notícia convertida em espetáculo transforma-se no mais sofisticado e devastador produto ideológico neoliberalglobal já inventado pela pós-modernidade econômica. Diante de tal produto a própria publicidade ( o mais sofisticado instrumento estratégico do capitalismo tecnológico) perde para a hiperrealidade que a notícia-espetáculo pode oferecer às audiências. É devastador o efeito de hiperrealismo sobre os valores sociais e humanos em produções-verdade presentes nas programações da televisão comercial aberta do Brasil e dos Estados Unidos.

A ideologia do objetivismo traduz-se na representação do posicionamento pragmático e apartidário da atividade e apresenta como imperativos a impessoalidade do relato, a retórica referencial, os sentimentos controlados. (Emoções, só as emoções do fato).

2.3 ARBITRARIEDADE E RACIONALIDADE

O objetivismo (entendemos como um forma de representação do pensamento hegemônico capitalista) através de valores convencionais de notibiciabilidade (como imprevisibilidade, impacto, proximidade, ineditismo, conflito, interesse, curiosidade, politicidade, necessidade e publicidade) organiza o real social e a realidade das rotinas profissionais através dos procedimentos formais que se iniciam no planejamento das pautas, nos trabalhos de coleta-e-apuração, na redação de textos, na edição do material disponível e na divulgação (mas somente esta última dá existência concreta à notícia).

No entanto, como instituição social, isto é, como um sistema de representação simbólica do Estado, dos Partidos, da Razão Cartesiana, da Sociedade (civil) e do Capitalismo ( mundial integrado) funda-se em um paradoxo entre o reforço do caráter superficial e efêmero dos acontecimentos e a missão de contribuir para a consciência crítica da Sociedade, isto é, uma fundação discursiva-publicitária que apregoa ao mesmo tempo alienação e consumo , consciência e mudança(luta).

Essa fundação discursiva-publicitária vai constituir a diversidade do discurso jornalístico representada na multi/pluri variedade de informações oferecidas em uma só edição de um jornal diário, por exemplo, que tanto se referem ao mercado como à cultura, tanto ao mundo econômico como político, como social, como humano.

As rotinas profissionais, tematização (denominada de agenda setting, ou teoria da construção do temário do público e da mídia), pauta/preparação, apuração/coleta, seleção, redação, edição e divulgação são responsáveis pela relativa racionalidade do trabalho jornalístico. No contínuo e ininterrupto trabalho de descontextualização (agendamento e apuração) e recontextualização e hierarquização (seleção, redação e edição), as rotinas profissionais impõem uma certa lógica profissional sobre as ações, opções e seleções com a finalidade de diminuir o trabalho arbitrário diário dos jornalistas.

Então, relativa racionalidade e permanente arbitrariedade impulsionam continuamente a atividade jornalística diante da imprevisibilidade e da efemeridade dos acontecimentos e dos interesses internos e externos que entram em jogo e em fuga. A notícia, como produto essencial e razão do jornalismo, envolve permanentemente relações entre certezas e incertezas, fatos e valores; entre pessoas e idéias; entre conflitos e interesses; entre bom senso, responsabilidade, pressa, ousadia, coragem, despreparo e experiência e idealismo e cinismo.

O jornalismo é uma atividade individual e interpretativa em primeira instância e uma atividade coletiva e interpretativa em última instância. Interpreta a realidade pela interferência direta, explícita ou implícita do indivíduo-jornalista ou através dos processos coletivos das rotinas de trabalho.

Interessa-nos, no entanto, desenvolver mais a idéia de atividade interpretativa. O jornalismo manifestando-se como atividade interpretativa pelo fato de se utilizar paradigmaticamente de dois critérios de percepção: perceber na realidade algo como importante e perceber na realidade algo como interessante. Ora seleciona na realidade pela importância do fato (atributo próprio do fato) ora seleciona na realidade pelo interesse que o fato pode despertar (atributo inerente à estória do fato). O modo de perceber a realidade pelo aspecto interessante da estória revela o lado arbitrário do trabalho jornalístico, contrapondo-se, aqui, à ideologia do objetivismo quando existe, na notícia humanizada, mais liberdade na apuração e na forma de escrever.

Da maior ou menor ênfase em uma dessas condições de percepção que o jornalismo constrói o seu status informativo. Se prevalece a ênfase no modo de perceber a realidade pelo ângulo do apelo à curiosidade, à empatia ou à identificação social, estamos diante de uma produção informativa reconhecida como sensacionalista. São os noticiários com ênfase na violência pessoal ou social e na curiosidade ou interesse que a estória do acontecimento desperta. Por outro lado, se prevalecer o critério de importância e significado social, estamos diante do noticiarismo informativo que editorialmente produz um efeito de distanciamento em relação aos fatos e ao (interesse do) público.No critério de importância dos fatos e dos protagonistas (personalidades, autoridades, celebridades, ídolos e bandidos) o jornalismo informativo diário constrói as suas condições de credibilidade e legitimidade junto às classes dominantes. Por outro lado, o critério de apelo à curiosidade, através da humanização da estória do acontecimento ( vedetização ou execração das personagens ou espetacularização do acontecimento) costuma constituir o status informativo sensacionalista de produções jornalísticas que apelam para as massas (para os índices de audiência, para opinião pública, para consumidores ou cidadãos).

No entanto, estes dois modos de percepção da realidade, pelo ângulo da importância social e pelo interesse da audiência, apontam sucessiva e alternadamente para outros dois subcritérios: o da politicidade (referência ao mundo do poder político e econômico hegemônico) e o da necessidade (referência aos problemas sociais da maioria da população entendida como opinião pública, cidadão ou consumidor). Note-se que a exploração do critério necessidade incide sobre a quantidade (povo) portanto tem a capacidade de estabelecer um pacto interlocutivo com o público na forma de índice de audiência. O critério necessidade (interesse do povo) constitui as condições de produção tanto do jornalismo sensacionalista quanto do jornalismo de serviço.

Nos critérios de importância, que constituem o status informativo do jornalismo sério, de prestígio, as marcas lingüísticas do jornalista, como enunciador do discurso do jornal/revista/rádio/televisão/internet, costumam estar em segundo plano em relação ao plano das informações. E nos critérios de interesse do público, as marcas lingüísticas do jornalista costumam estar no estilo e nos meios de observação, na riqueza de detalhes da descrição que apontam para a perda dos limites entre realidade factual e ficcionalização. O estilo rebuscado e o excesso de detalhes em notícias ou reportagens humanizadas apontam para o lado opaco, para as fugas do objetivismo, isto é, para a arbitrariedade sempre presente no trabalho jornalístico. (Quando não para a ficcionalização, isto é, para a mentira, para uma realidade inventada).

O jornalismo de opinião ou de explicação, diferentemente do jornalismo informativo, tem como proposta editorial a difusão de novas tendências, o debate dos problemas sociais, o debate sobre os direitos do cidadão, a sustentação da democracia representativa, o entendimento da contemporaneidade. O articulismo tem, então, como projeto editorial a dimensão atemporal e o estabelecimento de analogias e o apontamento das contradições e dos novos enfoque, novas tendências, informações e abordagens mais sofisticadas e verticais; tendo, no entanto, como desafios permanentes o estilo original, a simplicidade da linguagem sem pedantismo, a análise e a interpretação sem cair no academicismo, na abstração e na generalização e a serenidade e a ousadia de posicionar-se de viva voz diante da defesa do idealismo e do humanismo.

2.4 CONDIÇÕES IDEÓLIGAS, LINGÜÍSTICAS E EDITORIAIS

De outro lado o jornalismo informativo tem como condições editoriais a atualidade permanente, o culto às fontes, o culto aos acontecimentos, aos fatos e às citações, tendo como norte a dimensão temporal, efêmera e imediata e, como rotina e ideal a reificação da factualidade, do periférico, do pitoresco, do inusitado, do não-contextual e do estilo direto e substantivo.

Nos relatos ampliados (como reportagens e artigos) predominam não a síntese mas a análise e, conseqüentemente o estilo informativo livre. Na verdade, o jornalismo encontra-se sempre diante do desafio do fato novo e diante do interesse

permanente que existe no tema, no assunto, nas problemáticas. De qualquer forma, o relato jornalístico é sempre um trabalho de reconstrução reducionista da realidade que está sempre entre duas ordens de interpretação ideológica: pelo senso comum ou pelo senso crítico.

Do conjunto de estratégias de linguagem utilizadas para observar, registrar e comunicar, o jornalismo constrói seus gêneros notícia, reportagem, entrevista e artigo, isto é, relatos reconhecidos como informativos ou analíticos. Informação, síntese e análise, eis o tripé sobre o qual o jornalismo se sustenta como prática social.

O jornalismo como atividade humana, social, ideológica e industrial está sujeito aos controles individuais, organizacionais e institucionais; aos critérios publicitários e mercadológicos de seleção dos acontecimentos; ao conteúdo já-dado pelas fontes; à rapidez do processo; à redução à descartabilidade enquanto optar por ser reforçadora de superficialidades, frivolidades, entretenimento, oficialismo, denuncismo, inexatidão,morbidez, preconceito e oportunismo; ao senso comum e ao senso crítico; à democracia, ao pluralismo e multiculturalismo; ao discurso neoliberal e pós-moderno dominante que apregoa o consumo, necessidades, produtividade e agilidade; ao culto à imagem; à superficialidade e ao espetáculo e está sujeito às mudanças tecnológicas incessantes e, por conseguinte, ao tecnicismo e ao racionalismo.

Estas condições ideológicas acima expostas constituem hoje as condições de realização e de funcionamento do jornalismo informativo sob a ideologia do capitalismo tecnológico e mercadológico nas quais determinações a notícia deixa de ser o reflexo (o espelho, a janela) da realidade (e os fatos já não falam mais por si mesmos porque dependem da percepção e valoração humanas) para ser uma construção ideológica/mercadológica atravessada por múltiplas determinações sociais, institucionais, organizacionais e individuais.

Sobre a atual ideologia informativa mercadológica (de noticiarismo, reportarismo ou colunismo) vige/vigora a ideologia do neoliberalismo mundial que apregoa liberdade econômica com liberdade política; mantendo para as empresas jornalísticas nacionais e internacionais a regra de ouro do pluralismo mercadológico: ouvir todos os lados (com espaço e acesso iguais? Perguntamos). A resposta jornalística para esta pergunta continua sendo ser justo-e-preciso, isto é, equilíbrio-e-precisão diante do plural, do polêmico e da impossibilidade de ser imparcial, objetivo e neutro (pois como já vimos, o jornalismo é uma atividade subjetiva e arbitrária. É impossível controlar/conter os sentidos e os efeitos que se produzem ao se divulgar uma notícia. Por isto, a responsabilidade social é sempre de quem publica/divulga).

A ideologia do objetivismo informativo e do profissionalismo de agilidade e de precisão busca, é evidente, instrumentos para evitar a subjetividade, tanto que a notícia exclui a argumentação, o questionamento. Ela é uma afirmação. É uma construção lógica. Do contrário, é outra coisa, menos notícia. É evidente que na notícia objetividade e subjetividade coexistem.

Os princípios lingüísticos articulatórios de objetividade (o que está fora do sujeito) e de subjetividade que regem a mediação ideológica no jornalismo, apresentam-se em forma de texto (isto é, do relato informativo), refletindo o trabalho incessante de síntese e análise. O relato informativo apresenta-se como resultado de dois desafios: o desafio da apuração e o desafio do relato.

Na notícia predomina o relato em ordem direta (e não em ordem inversa que se presta mais às produções poéticas ou criativas) que apresenta em primeiro plano sempre os acontecimentos, os dados, as fontes, as citações e, evidentemente, a atualidade. Na verdade, a determinação ideológica e lingüística que existe sobre a notícia é o relato em ordem de importância. Eis ai o epicentro do fenômeno lingüístico: relatar em ordem de importância.

Prosseguindo na nossa tentativa de compreender a natureza das regularidades do processo de produção de sentido no jornalismo, voltamos ao conceito nuclear de atividade porque entendemos o jornalismo como uma prática social que estabelece relações com o mundo simbólico e com o mundo material dos indivíduos. Essa constituição de relações simbólicas e materiais acontecem enquanto história e linguagem.

História porque são relações que se constituem a partir das exterioridades do jornalismo e o jornalismo encontra-se inserido dentro do processo de produção, transformação e manutenção da sociedade tecnológica para a qual a informação virou mercadoria sofisticada e o jornalismo transformou-se em atividade pós-industrial. Como atividade pós-industrial é impulsionado/transformado pelo avanço tecnológico que determina mudanças sobre o modo de fazer, sobre quem faz e sobre as condições de fazer. Linguagem porque são relações que se constituem também a partir do modo de pensar de quem faz. Então, as condições de produção/reprodução/transformação/manutenção do jornalismo como prática social são resultado da constituição de relações que se estabelecem em torno do movimento dialético atividade técnica, lingüística e ideológica.

Constituir-se dialeticamente como atividade técnica( porque industrial, porque empresarial) ideológica (porque humana e social e, por isto, institucional) significa dizer que o modo de fazer escolhido a priori seja reconhecido pelos seus efeitos de recepção (atividade comunicativa, informativa, educativa, de entretenimento, de opinião, de interpretação).

Poderíamos assim dizer que o jornalismo é uma atividade de natureza humana e social porque é mediado pela subjetividade (interesses e valores) de cada um de seus indivíduos-sujeitos-produtores e porque é sempre resultado do trabalho coletivo de vários sujeitos enunciadores.

O caráter ideológico do jornalismo pode traduzir-se também em atividade informativa (sob o primado dos fatos e fontes e das notícias, reportagens, entrevistas), em atividade interpretativa (sob o prisma da análise e explicação dos acontecimentos); comunicativa (porque interliga os indivíduos, torna pública e comuns as informações selecionadas); educativa (porque toda informação é cultura); de opinião (porque permite a expressão explícita da subjetividade dos sujeitos emissores e receptores, na forma de artigos, editoriais, cartas, telefonemas, recursos interativos etc); de entretenimento (ao enfatizar a emoção [às vezes, até à comoção] e não a informação, ao dramatizar ao invés de informar, ao transformar a notícia em show e em espetáculo e ao superexplorar o caráter extraordinário e atípico dos acontecimentos e ao reforçar a munutenção da proximidade com o público e ao não fazer uma opção pela politização nem organização da sociedade, mas pela manutenção do status quo e do consenso).

O caráter de atividade técnica do jornalismo pode ser buscado na sua dimensão empresarial (como empresa racional capitalista que visa ao lucro, a hegemonia e o poder econômico através da transformação das matérias primas informação e opinião em mercadoria/produto notícia, reportagem, entrevista e artigo). Estes seus produtos por execelência, juntamente com os anúncios publicitários, mostram/divulgam a diversidade do mundo material e simbólico para consumo junto às elites econômicas, políticas e culturais (ou junto ao povo/massa na forma de anúncios classificados).

Essas determinações profissionais (técnicas e tecnológicas) e ideológicas, acima referidas, fazem do jornalismo uma prática social comprometida com a difusão da interpretação dominante sobre a realidade, pelo trabalho de organização do trânsito das informações (construindo as condições da aceleração/circulação/concentração do capital); pelo trabalho de organização/divulgação do pensamento das instituições: isto é, comprometimentos ao mesmo tempo mercantis e institucionais que deixam marcas lingüísticas e ideológicas nos enunciados produzidos pelo contrato informativo realizado entre jornal, fontes, jornalistas, anunciantes, público, mercado,etc.

2.5 CONTROLE DA PRODUÇÃO DE SENTIDO

O que vai caracterizar esse contrato informativo é o discurso relatado, isto é, uma concepção positiva a priori que procura controlar as bordas e os excessos de sentido das palavras, como se buscasse um sentido único, homogêneo, total, sem restos, caracterizando-se pela função referencial da linguagem e do sentido denotativo. O discurso jornalístico assim constitui-se como de representação do senso comum, do consenso e do pensamento hegemônico.

A ideologia do objetivismo nada mais é do que a busca do sentido único, da redução da ambigüidade, da polissemia e da heterogeneidade. O efeito parafrástico (em busca do mesmo), o efeito literal, a ilusão referencial, o efeito do já-dito reconhece-se no estilo bem marcado pela forma de escrever/relatar em ordem direta por importância, de forma clara, concisa, com sentido preciso e exato. Clareza, concisão e exatidão formam assim paradigma, meta e ideal ético, técnico e profissional a ser atingido e modelado diariamente pela produção industrial jornalística. Aqui é possível estudar a estereotipação e senso comum como mecanismos de controle dos sentidos sociais.

Assim, o noticiarismo se estrutura do fato e do sentido mais importante aos fatos e sentidos secundários no modo do discurso relatado/reproduzido/citado. No entanto, os sentidos escapam, não são totais, fechados, completos; eles são heterogêneos, possuem bordas, excessos, pontos de fuga e intertextos. Daí a notabilidade dos sentidos nas produções sensacionalistas e espetaculares onde predominam a inexatidão dos sentidos e a dramatização das estórias dos acontecimentos.

Os sentidos subjacentes (represados pela ideologia do objetivismo) no discurso informativo referem-se dialeticamente ao mundo dos conflitos e dos consensos, das necessidades e dos interesses. Essa constituição de relações fazem do jornalismo um sistema de reprodução simbólica das instituições sociais (do Estado, do Povo, dos Partidos Políticos, da Cultura, do Mercado, do Capital, da Televisão, das Escolas e etc). Daí os funcionamentos das subjetividades (e da arbitrariedade) constituírem os principais processos de significação no jornalismo que vão da fragmentação exacerbada dos sentidos (à estigmatização, estereotipação e alienação sociais) e à(re)contextualização das problemáticas sociais (os interdiscursos, as memórias do acontecimento). Isto é, processos redutores de significação entendidos por nós como fragmentação, superficialização, despolitização, oficialismo e descontextualização.

3. PARA CONCLUIR: INTECIONALIDADES E PROFISSIONALISMO

O trabalho de reprodução parcial da realidade se faz com intencionalidades e profissionalismo já que sempre estamos diante do que relatamos e do que enfatizamos, do que excluímos e do que omitimos , do que fragmentamos e do que recontextualizamos e do que ampliamos e do que reduzimos.

O jornalismo, como prática social, possui as tarefas de observar, registrar e comunicar, através de critérios profissionais e políticos, sob imperativos da imediaticidade/factualidade, da contextualização e da publicidade para produzir-e-oferecer informação, serviço e entretenimento diante da superabundância de acontecimentos do mundo cotidiano e dos desafios da democracia, do pluralismo e do mercado e do dilema contínuo entre reforço da superficialidade e esvaziamento ou reforço da consciência crítica. E mais, com uma postura de distanciamento crítico diante dos interesses parciais e com uma postura interrogativa, cética e crítica diante do consenso.

Estas tarefas e atitudes esperadas a priori do jornalismo também fazem parte da constituição dos processos e relações significativas com o mundo material e simbólico e com as interioridades do sistema produtivo, isto é, o processo informativo é constituído por multiplicidades de fatores, perspectivas, pontos de vista que estão sempre em pontos de fuga e não sob absoluto controle( nem de jornalistas nem de editores nem de proprietários nem de anunciantes nem do público/Cidadão.

____________________________
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

- ALSINA, Miguel Rodrigo. La construcción de la noticia. Barcelona: Paidós, 1996.
- HERNÁNDEZ RAMÍREZ, María Elena. "¿Qué son las noticias?". Revista Comunicación y Sociedad n. 14-15, enero-ago., Universidad de Guadalajara, Mexico, 1992. P. 235-250.
- SUÁREZ SANTAMARÍA, Luisa. "El suelto o glosa, género editorial menor estudio de cuatro modelos en los diarios madrilenos" in Revista de ciencias de la informacion: los mensajes de la comunicacion periodistica. V.5. Madrid: Universidad Complutense, 1988. P. 123-135.
- TUCHMAN, Gaye. La produccion de la noticia: estudio sobre la construccion de la realidad. Barcelona: Gilli, 1983.
______ "A objetividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objetividade dos jornalistas" in TRAQUINA, Nelson, org. Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa: Veja, 1993.
- TRAQUINA, Nelson, org. Jornalismo: questões, teorias e estórias. Lisboa: Veja, 1993.
- WOLF, Mauro. Teorias da comunicação. Lisboa: Presença, 1985.


* Rosa Nívea Pedroso é colaboradora da Sala de Prensa. E professora adjunta do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil. Mestre em Comunicação pela ECO/UFRJ. Professora de Teoria do Jornalismo e de Redação Jornalística. Linha de pesquisa em Jornalismo e Linguagem e Teoria do Jornalismo Sensacionalista.


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