Sala de Prensa


45
Julio 2002
Año IV, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


Faça o que digo, mas não o que faço...

Márcia Régis *

Certo dia checo minha caixa de correio e me deparo com um convite para participar de um workshop, que pretende discutir o potencial dos meios de comunicação em influenciar os hábitos de consumo e direcionar o estilo de vida das pessoas.

A proposta é reunir representantes da mídia e especialistas em comunicação social para refletir sobre o tema, gerando subsídios para que a Comissão de Consumo Sustentável do Mansfield College Oxford (Inglaterra) possa elaborar um Plano de Ação a ser apresentado em junho de 2002 na África do Sul, durante a conferência das Nações Unidas em Meio Ambiente e Desenvolvimento - a  "Rio+10".

Por que discutir formas mais equilibradas de consumir? Especialistas afirmam que, em se mantendo os níveis de produção industrial e consumo que vemos hoje, junto com a expansão econômica global e o crescimento da população mundial, o gradativo esgotamento de recursos naturais e da biodiversidade do planeta poderá ser uma realidade não muito distante. Entende-se que a indústria precisará passar por mudanças de modo a produzir de modo mais eficiente. E a sociedade deverá passar por uma reeducação para o consumo, aceitando os novos tipos de produtos que poderão nascer de um modelo de produção que melhor preserve os recursos do planeta, sem desperdícios.

Tal reeducação, tanto da indústria, quanto da sociedade, é hoje uma das mais fortes bandeiras do movimento ambientalista. E os meios de comunicacão passaram a ser cobiçados aliados. Leia-se aqui rádio, TV, imprensa e propaganda. Se por um lado somos considerados vilões por incentivarmos o consumo desenfreado e ditarmos estilos de vida que servem ao interesse da propaganda da indústria, de outro somos parte da solução do problema pela nossa imensa inegável junto ao público. Mas representamos um desafio: as redações ainda são vislumbradas como as trincheiras de um mundo arbitrário e parcial; nós, jornalistas, como peças de uma fábrica de notícias.

É interessante observar no fóro dessa discussão quem são aqueles que se dedicam a explorar o universo dos meios de comunicação e a discutir novos modelos de conduta politicamente correta de jornalistas e publicitários para com o público consumidor. 

No workshop de Oxford, estavam representantes de organizações internacionais (Conselho par o Desenvolvimento Sustentável da Presidência dos Estados Unidos, Academia Real Nepalesa de Ciência e Tecnologia), importantes universidades (Universidade de Indiana/Estados Unidos, Universidade Aberta/Inglaterra, Universidade de Hohenheim/Alemanha), Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (UNEP), ONGs (Amigos da Terra), empresas privadas (SHELL e Unilever), escritores e jornalistas (BBC e Canal Discovery), citando alguns. Ao todo, 38 pessoas. Meus dois companheiros do programa Lead e eu éramos os únicos representantes do mundo em desenvolvimento.

Assim que eu, marinheira de primeira viagem em este tipo de evento, vejo sentar-se ao meu lado o chairman (presidente) da Comissão de Consumo Sustentável. Cumprimento o senhor inglês elegante e checo meu arquivo para ver de quem se trata. Para meu espanto, o presidente de uma comissão que trata de consumo sustentável é John Gummer, ex-ministro de Agricultura de Margaret Thatcher, famoso por aparecer nos jornais alimentando sua filha com um hambúrguer e afirmando que a carne bovina inglesa era segura. Isso foi há cerca de 10 anos, quando (assim como hoje) pouco se sabia sobre a forma de contágio da forma humana do mal da vaca louca e qualquer afirmativa sobre a segurança absoluta da carne inglesa era (e ainda é) totalmente irresponsável, afirmam diversos cientistas. A atitude do então ministro da Agricultura até hoje é motivo de piada na imprensa britânica, que cunhou o termo "Método Gummer" para designar tudo de ruim que os políticos tentam enfiar goela abaixo dos contribuintes ingleses.

Alguém diria que o político em questão veio a tornar-se Secretário de Estado para o Meio Ambiente, como o apresentam as brochuras editadas pela comissão que ele hoje preside. Isso talvez desse alguma coerência aos fatos. Ainda assim, sentada ao seu lado, lembrei-me das imagens da garota inglesa de 14 anos que morreu em outubro do ano passado, vítima do mal da vaca louca. A forma humana da doença pode ter o tempo médio de incubação de 10 anos.

O chairman, que hoje é também um MP (Membro do Parlamento Inglês), abriu seu laptop último tipo, fez um discurso brilhante e iniciou o workshop em Oxford. Tudo bem, pensei, tentando acalmar o espírito, as pessoas mudam e nós, que almejamos um mundo mais coerente, aprendemos que a tolerância é boa amiga nesta cruzada.... embora, francamente, algumas vezes seja dificil tolerar. Enfim, pelo menos se tratava de alguém com alguma experiência em manipular a mídia .

As discussões se iniciam. E surgem questões interessantes. De cara, aprendo que um sexto da população do mundo consome o que há de melhor. Reflito sobre o impacto que haveria caso os meios de comunicação confrontassem esses consumidores com as consequências do seu consumo. Talvez a visão de trabalhadores chineses confeccionando roupas em um ritmo alucinante e um salário abaixo do mínimo possa fazer um cidadão pensar duas vezes antes de comprar seu cardigã na Gap.

Vejo que o chairman digita seu teclado sem parar, enquanto a representante do governo dos Estados Unidos lembra que as estações do ano não são mais dimensionadas pelo público na hora de comprar comida. Isto é importante, porque os consumidores acabam pagando mais por produtos fora de estação, cujo cultivo é obtido com o uso de produtos químicos indesejados tanto pela natureza como por seres humanos. As pessoas desconhecem o que está por trás das etapas de produção e distribuição desses alimentos.

A discussão alcança ótimo nível. O chairman escreve sem parar... um poema de amor à Inglaterra! Sei da imensa falta de educação que é bisbilhotar os escritos alheios, mas uma tela de computador aberta ao seu lado, com um texto escrito em letras maiúsculas em fontes garrafais, não tem condições de passar desapercebida.

Talvez o assunto em discussão já fosse do seu amplo conhecimento. Talvez aquele senhor possuísse imensa capacidade de escrever, ouvir e construir teses interessantes a um só tempo. Mas o fato é que sua atitude me fez divergir o pensamento e lembrar da velha máxima: a mídia pode até representar o quarto poder, mas sua boa parceria para a mudança de percepções sociais enfraquece na ausência de genuína vontade política. É mais fácil ter o desejo de mudar paradigmas em busca de um mundo mais igualitário e eficiente. Já vontade política é outra coisa. E vontade política tem algo a ver com descompromisso?

Observando a atitude do chairman, percebo que estou sendo invadida por uma onda de revolta e sentimentos de auto-piedade terceiro mundista. Que aumentam com os rumos da discussão. Ora, como podemos pedir aos mais pobres que consumam melhor se os produtos eco-eficientes costumam ser os mais caros do mercado? Ou como pedir às sociedades mais ricas que consumam menos quando a escassez não é vista? Ou que consumam menos, mas paguem mais?

Meu desconforto cresce a cada verso que ganha o poema do senhor inglês. Enfim, me explicam que consumir de modo sustentável não significa consumir menos: o desafio é convencer os mais ricos do planeta que é possível manter sua riqueza e seu padrão de vida consumindo de modo sustentável. Mas é preciso buscar meios atrativos de mostrar isso, mostrando as boas soluções, e não os problemas a serem enfrentados. Exemplo: na Holanda casas construídas com sistema de isolamento térmico custam até 5% a mais na fase de obra, mas para compensar o proprietário gasta depois até 50% menos na conta de aquecimento. Para a causa, vale mais a pena difundir 50% de lucro, que 5% de gasto. A discussão avança, assim como o poema do chairman.

Jornalistas ingleses chamam a atenção para o fato de que os meios de comunicação têm uma cultura corporativa, uma identidade institucional que necessita ser mudada; ou educada para adotar a causa urgente do consumo sustentável. A UNEP informa que começa a promover reuniões com publicitários em vários países do mundo, para difundir o novo conceito. Também refletimos que a necessidade dos diferentes públicos nos países deve ser considerada não mais por diferenças culturais ou regionais, mas por diferenças entre grupos de indivíduos. Há necessidade de os meios trabalharem para grupos cada vez menores e localizados. O jornalismo de antigamente, mais enfocado em reportagens e personagens que em análise de fatos, parece ser o retorno esperado.

O workshop chega ao fim. O chairman levanta os olhos do laptop e faz o seu resumo do encontro: coexistem no mundo uma crescente elite super-informada e uma massa totalmente desinformada; o desafio é ensinar aos dois lados que consumam melhor, e não menos. A sessão termina, o poema do chairman não chega ao ponto final e eu saio convencida de que vivemos num mundo de contradições. Acho que disso ninguém mais duvida.


* Márcia Régis é jornalista, colaboradora de Proceso (México) e IstoÉ (Brasil); Fellow do Programa Lead International (Lideranças para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento Sustentável). Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.


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