Sala de Prensa

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Junio 2002
Año IV, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


Ciberespaço e mutações comunicacionais

Dênis de Moraes *

El texto analiza las mutaciones que se establecen en los procesos de comunicación con la expansión de Internet y de las tecnologías digitales. La virtual hace posible el desarollo de un nuevo modelo de expressión y difusión, descentralizado y sin hierarquías. En el ciberespacio, el flujo de mensajes y contenidos es fundado en principios de cooperación y intercambio entre los emisores y los receptores, rompiendo la estructura vertical que caracteriza los medios masivos. En la nueva dinámica multimedia, la prensa escrita, el radio y la televisión coexisten con Internet y se complementan entre sí. El autor subraya que Internet estimula una ética comunicacional más interactiva y participativa, que posibilita espacios de divulgación para los movimientos sociales que luchan por los derechos humanos y por la ciudadanía.

1. O furacão multimídia

Vivemos na era dos fluxos infoeletrônicos. A força invisível dos sistemas tecnológicos encurta a imensidão da Terra e subverte toda e qualquer barreira. Os modos de comunicação alteram-se bruscamente, propagando um volume incalculável de conteúdos. A própria vida social se encontra imersa numa rotação incessante. O que me faz lembrar do que Marshall McLuhan escreveu no estranhamente próximo ano de 1964: "O mundo todo, passado e presente, agora se desvenda aos nossos olhos como uma planta a crescer num filme extraordinariamente acelerado."1

A busca voraz por fluidez baseia-se na evolução galopante das redes digitais, que a todo instante disponibilizam informações de acesso imediato, em uma ambiência de usos partilhados e interatividades.2 A revolução multimídia chegou mais cedo do que imaginávamos, deixou de ser uma imagem futurista. Ela se concretiza a partir de uma linguagem digital única, habilitada a integrar processos, redes, plataformas e sistemas, multiplicando a geração de produtos e serviços. A digitalização forja a base material para a hibridação das infra-estruturas indispensáveis à transmissão de dados, sons e imagens.

O cerne das mutações desloca-se cada vez mais para a convergência entre tecnologias digitais, multimídia e realidade virtual. Os sinais de áudio, vídeo e dados, antigamente processados de forma independente, passaram a ser tratados do mesmo modo, depois de digitalizados, compondo um imensurável conjunto de bits, com amplo espectro de difusão. Segundo pesquisa da Universidade da Califórnia em Berkeley, divulgada em maio de 2001, se o volume de materiais informativos digitais produzidos a cada ano no mundo fosse armazenado em disquetes, seriam necessários 3,2 milhões de quilômetros de comprimento para colocá-los lado a lado.3

A Internet está no olho do furacão multimídia. Com mais de 550 bilhões de documentos disponíveis, a mega-rede precipita mudanças de paradigmas. A veiculação imediata e abundante não somente delineia modos singulares de produção e consumo de dados, imagens e sons, como propicia um realinhamento nas relações dos indivíduos com os canais de enunciação. A imagem clássica dos aparelhos de divulgação no topo da pirâmide e dos receptores confinados na base está se rompendo na arquitetura dos espaços descentralizados da Web. Em sua artérias labirínticas, os usuários têm a chance de assumir-se como atores comunicantes, ou, se preferirmos a bela metáfora de Joël de Rosnay, como "neurônios de um cérebro planetário", que nunca pára de produzir, de pensar, de analisar e de combinar.4

O ciberespaço funda uma ecologia comunicacional: todos dividem um colossal hipertexto, formado por interconexões generalizadas, que se auto-organiza e se retroalimenta continuamente. Trata-se de um conjunto vivo de significações, no qual tudo está em contato com tudo: os hiperdocumentos entre si, as pessoas entre si e os hiperdocumentos com as pessoas. A partir da hipertextualidade, a Web põe a memória de tudo dentro da memória de todos.

Nos encadeamentos do hipertexto, cada ator inscreve sua identidade na rede à medida que elabora sua presença no trabalho de seleção e de articulação com as áreas de sentidos. O princípio subjacente é o de que qualquer parte de um texto armazenado no formato digital (caracteres por softwares específicos) pode ser associada automaticamente a unidades textuais armazenadas do mesmo modo. O clique sobre as palavras sublinhadas instrui o computador a ativar o acesso oculto por trás do link, projetando na tela o assunto requerido, quer ele esteja no mesmo documento ou em outras bases de dados. O usuário tem a alternativa de saltar de uma fonte a outra, em um itinerário sem começo nem fim. Os textos deslizam pelo monitor, em ritmo seqüencial, numa colagem de interferências individuais e coletivas.

O hipertexto afigura-se, pois, como um texto modular, lido de maneira não-seqüencial, composto por fragmentos de informação, que compreendem links vinculados a nós. O percurso não-linear faculta novos gabaritos de intervenção por parte dos leitores. Conforme seus interesses, a pessoa segue caminhos próprios e extrai sentidos dos dados localizados. Pierre Lévy observa que, na comunicação escrita tradicional, os recursos de montagem são utilizados no momento da redação. "Uma vez impresso, o texto material mantém uma certa estabilidade... à espera das desmontagens e remontagens de sentido a que o leitor se irá entregar."

Já o hipertexto digital aumenta consideravelmente o alcance das operações de leitura: "Sempre num processo de reorganização, ele [o hipertexto] propõe uma reserva, uma matriz dinâmica a partir da qual um navegador-leitor-usuário pode criar um texto em função das necessidades do momento. As bases de dados, sistemas periciais, folhas de cálculo, hiperdocumentos, simulações interativas e outros mundos virtuais constituem potenciais de textos, de imagens, de sons, ou mesmo de qualidades tácteis que as situações particulares atualizam de mil maneiras. O digital recupera assim a sensibilidade no contexto das tecnologias somáticas [voz, gestos, dança...], mantendo o poder de registro e de difusão dos meios de comunicação."5

A relação entre o discurso e outras expressões não-verbais flexibiliza e valoriza a estruturação dos textos. A articulação do discurso a imagens, mapas, diagramas e sons processa-se tão facilmente quanto sua ligação com outro fragmento verbal. George Landow entende que se deve abandonar os atuais sistemas apegados a noções como centro, margem, hierarquia e linearidade, substituindo-as pelas de multilinearidade, nós, nexos e redes. A leitura linear — conquanto não tenha sido suprimida, nem possa vir a sê-lo por simples pretensão do emissor — converte-se "em uma faceta da experiência do leitor individual", no curso de uma trama agora multidimensional e, em tese, infinita. Com a possibilidade de firmar nexos, sejam eles bem programados, fixos ou aleatórios, ou uma combinação de ambos.6 Não existem mais percursos únicos e definitivos para a leitura.

2. Um ecossistema interativo

Na teia cibernética, os sites afiguram-se como infomídias interativas: estocam, processam e distribuem dados e imagens oriundos de diversos ramos do conhecimento. A pragmática da Internet desfaz a polaridade entre um centro emissor ativo e receptores passivos. As interfaces tecnológicas instituem um espaço de transação, cujo suporte técnico, em processamento constante, proporciona comunicações intermitentes, precisas e ultra-rápidas, numa interação entre todos e todos, e não mais entre um e todos. No ciberespaço, cada um é potencialmente emissor e receptor num espaço qualitativamente distinto. Não é por seus nomes, posições geográficas ou sociais que as pessoas se agregam, mas de acordo com blocos de interesses, numa paisagem comum de sentido e de saber.7

Philippe Quéau sublinha que essa relação de síntese entre o texto que provém do real e a sua reconfiguração hipertextual convalida "uma nova escrita que modificará profundamente nossos métodos de representação, nossos hábitos visuais, nossos modos de trabalhar e criar". E completa: "Não se trata de um gadget, nem de uma moda passageira, e sim de uma revolução escrita profunda. Com ela surge uma nova relação entre imagem e literatura. Agora, o legível pode engendrar o visível."8

Por outro lado, o caráter descentralizado da Internet generaliza a circulação de conteúdos, sem submissão a estruturas hierárquicas. Antigas intermediações, pretensamente válidas para todo o tecido sociocultural, não representam mais escalas inevitáveis. No ambiente virtual, com um mínimo de competência técnica, os usuários podem atuar, a um só tempo, como produtores, editores e distribuidores de informações.

Sob tal prisma, a Internet seria um viveiro de infomídias, diferenciadas dos macro-sistemas mediáticos pelos seguintes quesitos:

1) Ao menos até o presente, não há centros diretivos nem comandos decisórios na Web;

2) A comunicação na Internet é fundada numa reciprocidade com dimensão comunitária (o telefone é recíproco, mas não fornece uma visão do que ocorre no conjunto da rede). As emissoras de televisão e de rádio são pólos de onde as informações partem e são distribuídas. Mesmo tomando-se em consideração o despontar de soluções interativas, existe uma separação nítida entre os núcleos emissores e os destinatários, isolados uns dos outros. Na Internet, há a prerrogativa de participação dos receptores, inclusive, em coletividades desterritorializadas;

3) O caráter interativo e multipolar da comunicação virtual rompe com limites demarcados por instituições hegemônicas e pela mídia. Textos, sons e imagens trafegam em grande quantidade pela Internet, sem a obrigação de serem submetidos a filtros de avaliação (conselhos consultivos, editores). Com a diversificação dos pólos de enunciação, produz-se uma redistribuição de dados menos condicionados pelo peso histórico da imprensa e das indústrias culturais;

4) Na Internet, entra em parafuso a concepção de reservar a exposição pública a nomes sacramentados pelo mercado, pela mídia ou pelas instâncias acadêmicas. O princípio motriz do ciberespaço — a disponibilização em linha — contraria a lógica da contração, diversificando as matrizes enunciadoras. Os sites perfilam-se lado a lado, numa corrente horizontal e ilimitada de nós. Eles atravessam nossas retinas em pé de igualdade, do ponto de vista da logística dos acessos. De qualquer lugar, podem ser conectados, 24 horas por dia. O que se altera são a parcela individual de identificação com o índice temático, os enfoques adotados e a programação visual.

4) Inexistem, na Web, grades de programação ou rotas preestabelecidas de leitura. O indivíduo escolhe e consome o que quiser nos horários, nas freqüências e nos ângulos de abordagem de sua preferência. Enquanto a televisão, o rádio e o jornal ordenam o noticiário em função de suas diretrizes editoriais e ideológicas, as redes computadorizadas impelem-nos a procurar os dados ambicionados;

5) A navegação geralmente norteia-se por motores de buscas que localizam, na incrível diversidade da rede, sites afins com as palavras-chaves indicadas. Cabe aos internautas a postura ativa e crítica de peneirar os materiais brutos resultantes das pesquisas, atrás de seus focos de interesse;

6) As relações entre as fontes informativas e os usuários na Internet são móveis, interrompidas, retomadas e atualizadas. A ação pode ser contínua, apesar da duração descontínua, como na comunicação por secretária eletrônica ou e-mail. A fruição depende do agenciamento de entradas e de saídas, embora os fluxos sejam ininterruptos e deslocalizados.

A cibercultura mundializa modos de organização social contrastantes, sem beneficiar pensamentos únicos.9 Congrega forças, ímpetos e desejos contraditórios, com a peculiaridade fundamental — apontada por Pierre Lévy — de universalizar sem totalizar. Na direção aqui indicada, a totalidade tem a ver com a descontextualização dos discursos, que permite o domínio dos significados, o anseio pelo todo, a tentativa de instaurar em cada lugar unidades de sentido idênticas. A noção de totalidade busca bloquear a variedade de contextos e os múltiplos segmentos que neles deveriam intervir.

O ciberespaço configura-se como um universal indeterminado, sem controles aparentes, sem local nem tempo claramente assinaláveis. Conceituando totalidade como "unidade estabilizada de sentido", Lévy a ela contrapõe a vitalidade da cibercultura, que "inventa uma forma de suscitar uma presença virtual da humanidade diante de si mesma, diversa da imposição de uma unidade de sentido". O monolitismo semântico dilui-se na medida em que a universalidade do ciberespaço favorece a aproximação dos seres humanos, em um meio ubíquo, paradoxalmente operado por uma tecnologia real. O filósofo francês acentua que a cibercultura, ao preservar a universalidade dissolvendo a totalidade, corresponde à época em que nossa espécie se inclina a formar, pela globalização econômica e pelo adensamento das redes de comunicação e transporte, uma única comunidade mundial, ainda que desigual e conflituosa. Esta megacomunidade, conquanto tenha forte dose de globalismos, prospera por interação, e não por homogeneização e massificação.10

Descobrimos um estiramento na noção de totalidade: no ciberespaço, as partes são fragmentos não-totalizáveis, isto é, não-sujeitas a um todo uniformizador de linguagens e concentrador de poderes, que anula inevitáveis disparidades de interpretação. As relações entre as partes reinventam-se, em densidade e em extensão, sem que umas se sobreponham ou subjuguem as demais. Diante dessa dinâmica de micrototalidades emergentes, a imanência mítica e autoritária do todo conhece a variável da tensão. Cabe à capacidade cognitiva dos indivíduos determinar como se vão rearticular as conexões nos acervos digitais. A Web inverte a lei das mídias convencionais: o valor de uso é obtido na relevância de cada ligação, e não pelo consumo de denominadores comuns, indispensáveis à coesão da audiência de massa.

3. Por uma dialética entre real e virtual

Importante ressaltar que não concebemos o ciberespaço como uma esfera autônoma, divorciada das realidades socioculturais. Embora a práxis virtual seja pautada por especificidades, há uma relação de complementaridade com o real, viabilizada pela progressiva convergência tecnológica. O virtual é uma existência potencial, que tende a atualizar-se. A atualização envolve criação, o que implica produção inovadora de uma idéia ou de uma forma. O real, por sua vez, corresponde à realização de possíveis estabelecidos e que em nada mudarão em sua determinação ou em sua natureza. A virtualização deve ser entendida como "uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico". O sujeito evolui da situação atual para um campo de interrogação que o obriga a imaginar coordenadas como resposta a uma questão particular.11

Marc Guillaume salienta as confluências possíveis entre os padrões clássicos de interação social e as redes eletrônicas: "A rede social preexistente pode melhorar seu desempenho através da rede técnica, mas esta última não pode por si mesma criar uma rede social. Está claro também que o bom uso das mídias comutativas passa pelas complementaridades e hibridações, permitindo combinar automatismos e inteligência humana, rapidez de informação e vagar na assimilação e na formação."12

A Internet situa-se na base de criação de uma fronteira a um só tempo física e abstrata. Física e tangível, porque sua infra-estrutura operacional é feita de interfaces gráficas, de modems e de discos rígidos. Abstrata e intangível, pois os conteúdos remetem à ordem da representação, da cognição e da emoção. Sem atributos físicos e existindo independentemente deles, o ciberespaço reveste-se de carga simbólica apta a ampliar as percepções da realidade.

O mundo on line, segundo Derrick de Kerckhove, herdeiro de McLuhan, apresenta-se como "uma realidade que se pode tocar e sentir, ouvir e ver através dos sentidos reais — não só com ouvidos ou olhos imaginários".13 As tecnologias do virtual prolongam as propriedades de envio e recepção de mensagens, penetram e modificam a consciência de seus utilizadores, transformando-se em "extensões quase orgânicas do nosso ser mais íntimo".14

Os processos de significação não se anulam, eles se acrescentam e muitas vezes se mesclam. O jornalismo impresso coexiste com a televisão, a multimídia e a realidade virtual. Assim como a imprensa não suprimiu os manuscritos. O livro foi combatido pelos epígonos da cultura elitista da Idade Média. Os benefícios da impressão mecânica não se impuseram de imediato. Durante muito tempo ela dividiu a cena com os pergaminhos, até se consolidar como meio que possibilita uma circulação social rápida, barata e abrangente. As sociedades valem-se de distintas tecnologias, a um só tempo. Uma forma de comunicação existente ou emergente não subsiste sem a outra; a tendência é a convergência de processos e práticas, a partir de inovações que desencadeiam um realinhamento do sistema, a fim de garantir a sobrevivência em ambientes de constantes modificações e reciclagens.15

Os suportes são empregados em função de seu uso social. A escrita manual relaciona-se à comunicação pessoal, enquanto o computador é utilizado com freqüência no trabalho, de diversas maneiras, e para a informação e o entretenimento, através das redes informáticas, do CD-ROM e de jogos eletrônicos. Para o contato instantâneo à distância, o telefone continua insuperável. Outras circunstâncias pedem o fax, o correio eletrônico, o pager ou a carta registrada.

Não será outra a lógica tecnocultural que, mais cedo do que se espera, presidirá a coexistência entre as mídias impressa e digital. Em plena ascensão do ciberjornalismo, com notícias por segundo e recursos audiovisuais para atrair usuários aos noticiários em tempo real, o jornalismo impresso continua competitivo no mercado da informação. Basta verificar o que aconteceu no Brasil em 2000. A circulação dos jornais diários aumentou 8,81%, com apreciável crescimento em relação aos 1,15% registrado no ano anterior. A média diária dos jornais brasileiros passou de 7,245 milhões de exemplares em 1999 para 7,883 milhões em 2000. Foi o quarto ano consecutivo de aumento de tiragens.16

O bom desempenho dos jornais convive com as transformações que se operam no setor de comunicação. As antigas empresas jornalísticas cada vez mais se reestruturam como organizações multimídias. Os megagrupos seguem agora o figurino multissetorial da corporação-rede, isto é, exploram, sozinhas ou em alianças estratégicas, ramos conexos de informação e entretenimento. Eles recorrem a sinergias capazes de assegurar diversidade produtiva, conjugar know how, renovar continuamente os parques tecnológicos e internacionalizar as bases consumidoras. Com economia de escala, racionalizam custos, reduzem riscos e perdas, aumentando suas margens de rentabilidade e lucratividade.

Entram em declínio as empresas com especializações únicas e circunscritas a bases regionais. Elas correspondiam a um outro espaço-tempo, em que as tecnologias não se sobrepunham a mapas, calendários e fusos horários; os fluxos de informações eram infinitamente menos convulsivos; os mercados não se interconectavam em tempo real; os estilos de vida não esgarçavam identidades socioculturais; a competição não se reduzia a corporações globais; e não vigorava o imperativo radical de gerar, a qualquer preço, demandas de consumo pelo planeta afora.

A hora, portanto, é de hibridações tecnológicas, investimentos compartilhados e flexibilidade operacional. As empresas adaptam-se rapidamente à digitalização, procurando aproveitar as oportunidades abertas pela convergência multimídia e, em especial, pela Internet. Não será por outra razão que o Fórum Mundial dos Editores, promovido pela Associação Mundial de Jornais, indicou, entre os pressupostos que nortearão os planejamentos na área de mídia impressa, os seguintes itens: a) predominância da tecnologia digital em todo o processo de produção (captação, processamento, distribuição e armazenamento) de conteúdos; b) geração de novos conteúdos e serviços informativos digitais; c) parcerias e alianças em projetos que explorem comércio eletrônico a partir de ativos criados pela mídia (bases de dados de serviços comunitários e diretórios temáticos, para consultas pagas); d) utilização de novas ferramentas digitais que facilitem o fluxo de produção de conteúdos que combinem diferentes tecnologias (por exemplo, softwares de automação do processo editorial para as linguagens digitais).17 Nota-se a preocupação com sinergias entre sistemas e circuitos, como também a prioridade por investimentos em atividades correlatas.

Apesar de todo esse realinhamento tecnológico, não precisamos abrir mão do agradável ritual da leitura de páginas impressas para navegar por homepages e publicações eletrônicas — são viagens sensíveis distintas, cada qual com seus percursos e fruições, com a vantagem adicional de uma complementar a outra. Isto é, podemos desfrutar, simultaneamente, de experiências no real e no virtual — experiências, vale insistir, que nenhuma das modalidades sozinha proporcionaria. Por exemplo, ler textos de Ernest Hemingway com janelas simultâneas para consultas a estudos críticos sobre seu legado ou para conhecer fotos de suas estadas em Paris e Havana.

A cibercultura não se superpõe às culturas preexistentes, nem as aniquila. A dialética ativa desdobramentos e remissões; no lugar de divisões e estacas demarcatórias, estabelecem-se os nexos, as bricolagens e as hibridações. É exatamente o que testemunhamos na Internet. O seu ecossistema multimídia revela alto grau de adaptação a um tipo de comunicação que, combinando modelos da imprensa escrita (jornais, revistas) com a dinâmica audiovisual (sons, vinhetas, animação eletrônica), delineia configurações peculiares. Um portal pode somar e disponibilizar, ao mesmo tempo, televisão, rádio, vídeo, DVD, música, cinema, noticiário em tempo real, arquivos sonoros, jogos, livros, revistas, jornais, fotografias, arte interativa, museus, cartões em 3D, publicidade on line e comércio eletrônico. Praticamente todas as mídias numa única plataforma digital.

Na vertigem dos nós, um número cada vez maior de informações será produzido, veiculado, lido e analisado, numa prova eloqüente das interseções possíveis entre real e virtual, dentro de um conjunto de ambientes integrados e auto-ajustáveis, sob a primazia da inteligência humana. Por que isolar as variáveis eletrônicas dos tesouros impressos? Esqueçamos as referências imutáveis, o apego a crenças enrijecidas que geralmente conduzem a dogmatismos. Optemos por uma dialética de fertilizações mútuas entre o real e o virtual.

Seria, afinal, um equívoco encarar a Internet como um mercado paralelo e estanque, dissociado das demais mídias e das conjunturas sociais. Não interligá-la àquelas instâncias equivaleria a entendê-la como fim e não como um meio para se atingir metas maiores. Haveria o risco de, paulatinamente, ela perder significado histórico e importância cultural. A sua pujança provém de cooperações de toda ordem.

4. A ética por interações

Uma das pedras angulares da Internet reside no fato de constituir uma esfera pública não-sujeita a regulamentações externas. Os estatutos éticos das comunidades virtuais se esboçam no interior de seus cosmos produtivos, por motivações cooperativas e coordenações de qualidades e vocações individuais. Os códigos informais de conduta não provêm de fora, das instâncias de poder; devem ser aceitos por consenso e adaptados às práticas e tradições dos grupos.

A inexistência de um comando central não impede que as coletividades construam suas estruturas de conhecimento.18 Perde vigência aquilo que conceituamos como o universal totalizante: o mundo da produção massiva e da distribuição estandartizada, onde cada indivíduo é percebido como unidade consumidora, sob a mira de pesquisas mercadológicas, sondagens de opinião e curvas estatísticas. As comunidades virtuais reorganizam, a todo instante, as massas de dados disponíveis on line, por conexões transversais e interativas.

Na órbita da rede mundial de computadores, flutuam instrumentos privilegiados de inteligência coletiva, capazes de, gradual e processualmente, fomentar uma ética por interações, assentada em princípios de diálogo, de cooperação, de negociação e de participação. A ciberética infiltra-se nos grupos e listas de discussão, conferências eletrônicas e chats. Essas constelações de células independentes ou interdependentes ultrapassam fronteiras institucionais, geográficas e socioculturais, intercomunicando-se em vários idiomas, nacionalidades, raças e níveis de escolaridade.19

Na ausência de uma ordem totalizante, pessoas, grupos ou entidades movem-se na Web de acordo com seus valores e conveniências, consignados em escolhas individuais ou comunitárias. Os usuários formam comunidades autônomas, de tamanhos substantivos e predispostas a respostas a estímulos associativos. Devemos percebê-las como moléculas e partículas que inscrevem valores, em um campo aberto à repartição de gostos e aspirações.

O diferencial da Internet consiste no fato de que as comunidades virtuais, enquanto corpos orgânicos, definem e objetivam valores éticos e códigos informais de conduta. Tais regras não provêm de fora, das estruturas de poder; devem ser aceitas por consenso e adaptadas às práticas e tradições dos grupos. Paul Mathias refere-se à "criação ascendente de valores" no ciberespaço. Coletivos virtuais privilegiam coexistências regidas não mais por princípios genéricos, e sim pelo ideal de harmonização de perspectivas individuais no seio de grupos afins, favorecendo a reelaboração sistemática de premissas e competências.20

A singularidade de disponibilizar, em qualquer espaço-tempo, variadas atividades e expressões de vida, sem submetê-las a hierarquias de juízos e idiossincrasias, gera outro fenômeno sociocultural. Aprofundam-se na Internet as experiências de defesa da cidadania e dos direitos humanos, de promoção de valores éticos e de revalorização da sociedade civil como espaço político.

O ciberespaço veio dinamizar esforços de intervenção de movimentos sociais e organizações não-governamentais (ONGs) na cena pública. No ciberespaço, as ONGs credenciam-se a produzir manifestações em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estarem presas a um lugar ou tempo em particular. Nessa perspectiva, as entidades compõem redes de organismos independentes ligados por aparatos tecnológicos, com o objetivo de repartirem competências, recursos e custos. As entidades civis valem-se da Internet enquanto canal público de comunicação, livre de regulamentações e controles externos, para disseminar informações e análises que contribuam para o fortalecimento da cidadania e para o questionamento de hegemonias constituídas.

A Internet oferece ao ativismo social novas ferramentas de intervenção, como as campanhas virtuais, o correio eletrônico, grupos de discussão, fóruns, salas de conversação, boletins, manifestos on line, murais, anéis de sites e árvores de links. É uma arena complementar de mobilização e politização, somando-se a assembléias, passeatas, atos públicos e panfletos. Um exemplo dessa junção de possibilidades: algumas ONGs reproduzem em seus sites as matérias de seus jornais impressos, às vezes com traduções em ou dois idiomas. O veículo convencional continua válido e necessário; o que se pretende é ampliar a circulação junto a entidades correlatas do mundo inteiro, a custo baixo – algo impensável em qualquer outro veículo, pelas despesas astronômicas.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do Brasil, considera que a Internet proporciona à causa da reforma agrária "um amplo canal de comunicação com a sociedade", mas nem por isso deixou de imprimir, mensalmente, um milhão de exemplares de seu jornal Sem Terra. O periódico, com quatro páginas e em cores, começou a circular em outubro de 2000. É distribuído nos acampamentos pelo país, onde a Internet ainda não chegou, e nos meios sindicais, estudantis, políticos e intelectuais. A homepage do MST (www.mst.org.br) registra objetivos, posicionamentos e comunicados, com rapidez e economia. Recebe de 300 a 400 visitas por dia.

O coordenador do MST Neuri Rosseto argumenta: "Uma coisa é ler uma notícia sobre a política de privatizações em um meio controlado ou influenciado pelo governo, que tem todo o interesse em promovê-las. Outra é ler essa mesma notícia sob a ótica de quem se opõe a tal política. Uma homepage feita pelas forças progressistas possibilita, e muito, a divulgação de seus pontos de vista. Os meios de comunicação massiva funcionam como uma espécie de filtro entre o que deve ser noticiado, destacado, deturpado ou ocultado. A Internet rompe com essa intermediação. Através dela, podemos divulgar os acontecimentos junto à sociedade."21

A organização em rede aproxima indivíduos e agrupamentos que compartilham visões de mundo, sentimentos e desejos. Para Jésus Martín Barbero, as redes se distinguem como "lugares de encontro" de múltiplas minorias e comunidades marginalizadas ou de coletividades de pesquisa e de trabalho educativo e artístico. "Nas grandes cidades, o uso de redes eletrônicas está permitindo construir grupos que, virtuais em seu nascimento, acabam se territorializando, passando da conexão ao encontro, e do encontro à ação".22

Os chamados à participação individual e coletiva ultrapassam barreiras geográficas, atropelam fusos horários e desconhecem grades de programação. Os intercâmbios tornam-se rápidos e acessíveis. O ciberativismo alicerça campanhas e aspirações à distância, no compasso de causas que se globalizam (combate à fome, defesa do desenvolvimento sustentável, preservação do equilíbrio ambiental, direitos humanos, luta por um sistema de comunicação pluralista).

5. Cibercidadania e liberdade de expressão

A ausência de ditames governamentais é decisiva para a Internet consolidar-se como canal planetário de informações e idéias. Implica protegê-la de comandos centrais e de estatutos regulatórios que afetem a sua autonomia. Significa empenhar forças para que ela se localize fora do raio de alcance de direções morais e aprisionamentos de qualquer espécie, notadamente aqueles ambicionados pelas estruturas de poder discricionárias. Significa, em suma, recusar qualquer camisa-de-força que sufoque a sua extraordinária gama de diversidades.

Críticos moralistas agarram-se à convicção de que o caos da Internet dispensa responsabilidades individuais e grupais, estimulando a permissividade. Mas é o caso de indagar: como esperar uma pureza infinita, se a sociedade contemporânea está permeada de abusos insuportáveis por metro quadrado (desemprego estrutural, brutal concentração de renda, iniqüidades sociais, corrupção)? Por que a Internet, sendo uma projeção da inteligência humana, com interfaces cada vez mais próximas entre as mentes e as tecnologias, deveria ser exceção?

É claro que eventuais abusos, atitudes deletérias (insultos, pornografias e intromissões descabidas) e delitos que comprometem o exercício da cibercidadania precisam ser barrados e punidos. Instâncias governamentais, policiais e judiciárias começam a especializar-se na investigação e na repressão a práticas ilícitas e crimes digitais.

Para assegurar a liberdade na rede, é preciso coibir com rigor as fraudes e o terrorismo, sem, todavia, institucionalizar regimes de censura e desrespeito à privacidade. As legislações sobre proteção do consumidor e direitos de propriedade intelectual na Web devem ser aperfeiçoadas, levando em consideração as peculiaridades de cada país ou região. Mas, em nome da repressão a crimes digitais, não se pode atropelar os fundamentos da cidadania, especialmente a livre manifestação de idéias.

A Internet constitui uma vida comunitária regulada por interações, e não por leis, decretos e portarias. Longe de dispensar os indivíduos de deveres éticos, o ciberespaço propõe uma coexistência auto-regulada. Longe de padronizar condutas com base numa "maioria moral" (normas e interdições a serviço das totalidades dominantes), a ciberética apóia-se em regras e valores consensuais estabelecidos pelas células de usuários, respeitando-se a pluralidade de contextos, os projetos societários e, acima de tudo, a liberdade de expressão.

Outra exigência é combater a infoexclusão de populações de baixa renda, sobretudo nos países periféricos. Hoje, o acesso permanece concentrado nas camadas de maior poder aquisitivo e nos países mais desenvolvidos — o que estende à Internet desigualdades sociais do mundo concreto. Segundo a Nua Internet Surveys, 75% dos 407,1 milhões de internautas existentes em novembro de 2000 viviam em apenas dez países: Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, China, Coréia do Sul, Itália, Canadá, Brasil e França. A concentração acentua-se por continentes: enquanto a América do Norte somava 168 milhões de usuários, seguida por Europa (114 milhões) e Ásia-Pacífico (105 milhões), o Oriente Médio e África limitavam-se a irrisórios 2,4 milhões e 3,5 milhões, respectivamente. A América Latina não passava de 17 milhões de internautas, numa população de quase 500 milhões de habitantes.

O relatório "Perspectivas Econômicas Globais e Países em Desenvolvimento", publicado em dezembro de 2000 pelo Banco Mundial, prevê que a distância entre países ricos e pobres no acesso à Internet vai perdurar na próxima década. Segundo o documento, os dois principais obstáculos à massificação da Web nas nações periféricas são o descompasso em telecomunicações e informática, e a escassez de "capital humano" e de serviços complementares necessários ao uso de tecnologias avançadas.

O Banco Mundial não se refere uma vez sequer à descomunal concentração de poder e riqueza nos países desenvolvidos, nem às graves desigualdades socio-econômicas que geram o atraso e a pobreza no Terceiro Mundo. Limita-se a falar nos desequilíbrios entre ricos e pobres no comércio eletrônico — como se isto acontecesse por efeito mágico, e não por uma ordem global perversa e excludente. Para se alcançar a infoinclusão, o relatório vislumbra a alternativa dos acessos à Internet por satélite, cabo e celulares — o que, no caso atual dos países em desenvolvimento, equivale a uma miragem ou a um simples conto-de-fadas. Pelo menos o presidente do banco, James Wolfensohn, reconhece que o acesso à rede mundial de computadores é tão importante para o futuro dos países mais pobres quanto os investimentos em necessidades básicas como habitação e saneamento. "As comunidades pobres não querem simplesmente um punhado de dinheiro, mas sim a chance de acumular conhecimentos a fim de ficarem aptas a se desenvolver por si mesmas. E não há veículo mais eficiente para a difusão de conhecimentos do que a Internet."23

6. A caminho da consciência planetária

As formas dialógicas que irrompem no ciberespaço começam a pôr em xeque a renitente metáfora do Big Brother, que por décadas dominou a teoria crítica no campo da comunicação. A mídia sempre encarnou — e ainda encarna — aquela sinistra figura, dado o seu poder quase absoluto de privilegiar as informações que julga relevantes. A supremacia dos meios tradicionais persiste e provavelmente persistirá, porém não há como negar que inquietações sociais e resistências à lógica dominante se propagam pela Internet, sem ingerência de governos e corporações empresariais ou militares.

O modelo comunicacional da Internet contribui para reduzir a dependência aos meios tradicionais, com a sua crônica desconfiança dos movimentos comunitários. O mosaico da Web reforça, assim, os campos de resistência à concentração da mídia, permitindo que idéias humanistas se exprimam no perímetro do espaço político desterritorializado.

Manuel Castells sublinha a importância estratégica de "se utilizar o enorme potencial da Internet, por exemplo, para reviver a democracia, não enquanto substituição da democracia representativa por meio do voto, e sim para organizar grupos de conversação, plebiscitos indicativos e consultas sobre distintos temas, disseminando informações na sociedade".24 Significa realçar a sociedade civil como espaço político por excelência, fazendo-a ressurgir do declínio imposto pela hegemonia neoliberal, preferencialmente na trilha proposta por Benjamin R. Barber: "um domínio cívico republicano e mediador entre o desmedido setor governamental e o metastásico poder privado".25

O quadro de expectativas e esperanças aqui delineado não deve, entretanto, alimentar ilusões. Em primeiro lugar, porque necessitamos amadurecer propostas de comunicação eletrônica e conciliá-las com demandas do público-alvo. Em segundo, porque nos deparamos com um fenômeno ao mesmo tempo hiperveloz (devido à expansão tecnológica) e lento (por conta de hábitos culturais e políticos nem sempre fáceis de atualizar). Em terceiro, porque os usos e apropriações da Web são diferenciados, não formam um todo coeso e harmônico, por mais que redes e coletivos virtuais fortaleçam afinidades.

Não se trata, por conseguinte, de transformar a Internet em fonte de todas as virtudes. Muito menos de sonhar com um Eldorado digital, habilitado a suplantar o poderio da grande mídia. Seria tolice subestimar o predomínio das corporações multimídias no atual cenário de transnacionalização e oligopolização das indústrias de informação e entretenimento. Vejamos o caso particular do Brasil. Embora seja o líder em acessos na América do Sul, com 10 milhões de usuários (5,9% da população), a maior parte dos internautas pertence às classes A e B e se aglomera nas regiões Sudeste e Sul. Dos mais de cinco mil municípios brasileiros, pouco mais de 300 estão conectados à Web.26 É a tradição da concentração das riquezas que se repete na escalada digital.

Ao ressaltar a consolidação da Internet, quisemos chamar a atenção para as potencialidades que se entreabrem no âmbito virtual, fundadas em práticas interativas e não submetidas aos mecanismos de seleção da mídia. Rapidez, disponibilização ininterrupta e descentralizada, estímulo à liberdade de criação, novos percursos de leitura pelos hipertextos, espaços cooperativos em grupos de discussão, correio eletrônico e salas de conversação em tempo real, acessos diretos conteúdos on line ilimitados — eis alguns diferenciais que caracterizam a pragmática de expressão e difusão na Web.

Há muito a fazer para universalizar as conexões e os usos sociais da Web. É urgente mobilizar a sociedade civil mundial para a necessidade de se estabelecerem políticas públicas que contenham a onda de mercantilização desenfreada que atinge a Internet. Não será nada fácil, tendo em vista: a) o poderio dos conglomerados que exploram a economia digital e tem fortíssimos lobbies; b) a hegemonia do discurso neoliberal, que implica, como contrapartida não-declarada, a sistemática deslegitimação ideológica de formulações alternativas ou contestadoras à supremacia do mercado na regulação da vida contemporânea; c) a dificuldade de estabelecer marcos regulatórios democráticos em um meio fluido e multifacetado como a Web.

Outro grande desafio é tornar determinados websites mais conhecidos dos internautas, o que implica expandir alianças e intercâmbios; divulgar intensivamente as páginas junto a setores da sociedade, tanto por meios convencionais, quanto por boletins e eventos eletrônicos; realizar conferências e seminários sobre estratégias comunicacionais para a Internet; e aprimorar os programas de busca e as árvores de links, para simplificar a localização das informações desejadas.

Além de uma maior percepção pública das páginas, pelo menos três desafios terão ser enfrentados: 1) a definição de estratégias de comunicação que aproveitem as vertentes criativas e interativas das tecnologias multimídias; 2) o aumento substancial do número de usuários, o que depende da superação de entraves econômico-financeiros (custos de computadores, modems, linhas e tarifas telefônicas, provedores de acesso); 3) uma melhor formação para internautas e ativistas, com simplificação de procedimentos informáticos, cursos e treinamentos.

Quer dizer, as competências humanas permanecem essenciais numa era de acelerado progresso técnico. Nesse sentido, não há por que discordar de Dominique Wolton — um crítico da comunicação eletrônica — quando ele assinala a importância de intermediários qualificados para instruir e capacitar a navegação pelos imensos continentes de saberes, dados e conhecimentos da Web.27 Pensar o contrário seria admitir, ingenuamente, que o ambiente high tech se sustenta por automatismos ou fascínios. O aluvião informacional da Internet não subsiste sem o discernimento crítico da inteligência humana que o concebeu e não cessa de renová-lo.

O diferencial da Internet consiste em veicular livremente princípios, anseios e pleitos numa escala nunca antes sonhada. A arena virtual insinua-se, pois, como âmbito de representação para contrapoderes cívicos germinarem na direção apontada por Félix Guattari:

"Precisamos fomentar com êxito uma nova consciência planetária, que se apóie em nossa capacidade coletiva para a criação de sistemas de valores que escapem aos pressupostos morais, psicológicos e sociais do capitalismo, os quais se centram apenas no benefício econômico. A alegria de viver, a solidariedade e a compaixão pelos outros são sentimentos em vias de extinção e que devem ser protegidos, reavivados e impulsionados em novas direções. Os valores éticos e estéticos não nascem de imperativos nem de códigos transcendentais. Exigem uma participação existencial baseada em uma imanência que se deve reconquistar continuamente."28

Sem ignorar os obstáculos que se interpõem, penso que a Internet tende a firmar-se como um dos principais meios para a construção de uma cultura de solidariedade social, baseada em uma ética de reciprocidades entre os sujeitos comunicantes. Digo um dos principais meios para reiterar que não entendo o ciberespaço como uma esfera dissociada dos embates sociais concretos. Como cogitar de transformações radicais sem referências objetivas às tradições sociais?

Volto a dizer que percebo uma relação de confluência, de acréscimo e de sinergia entre o concreto e o virtual, resultante, de um lado, da progressiva hibridação tecnológica e, de outro, do somatório de possibilidades que nenhuma das partes, isoladamente, alcançaria. Julgo perfeitamente viável combinar os instrumentos de ação político-cultural que ambos fornecem, sem perder de vista que é no território físico, socialmente reconhecido e vivenciado, que se tece o imaginário do futuro.

_____
Notas:

1 Marshall McLuhan. Os meios de comunicação como extensões do homem. 4ª ed. São Paulo: Cultrix, 1974, p. 395.
2 Ver Milton Santos. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 2ª ed. São Paulo: Hucitec, 1997, p. 218-219.
3 Mirella Domenich, "A era da obesidade da informação", Valor Econômico, Rio de Janeiro, 7 de maio de 2001, p. 8.
4 Jöel de Rosnay. L’homme symbiotique. Paris: Seuil, 1995, p. 79.
5 Pierre Lévy. A inteligência coletiva: para uma antropologia do ciberespaço. Lisboa: Instituto Piaget, 1997, p. 72. Ver, do mesmo autor, As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, p. 25-26.
6 Consultar George P. Landow. Hipertexto. La convergencia de la teoría crítica contemporánea y la tecnología. Barcelona: Paidós, 1995, p. 14, 15, 16 e 135. Do mesmo autor, ler os capítulos 1 e 2 de Hypertext 2.0. The convergence of contemporary critical theory and technology. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1997.
7 Pierre Lévy. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996, p. 113.
8 Philippe Quéau. "O tempo do virtual", em André Parente (org.). Imagem-máquina: a era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, p. 91-92.
9 Emprego os termos ciberespaço e cibercultura nas acepções propostas por Pierre Lévy. Ciberespaço é o novo meio de comunicação que emerge da interconexão mundial das redes de computadores. Engloba não somente a infra-estrutura material da comunicação digital, como também o oceano de informações que abriga ao mesmo tempo os seres humanos que por ele navegam e o alimentam". Cibercultura designa o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, de atitudes, de modos de pensar e de valores que se desenvolvem paralelamente ao crescimento do ciberespaço. Consultar Pierre Lévy. Cyberculture. Rapport au Conseil de l’Europe. Paris: Odile Jacob, 1997, p. 17.
10 Pierre Lévy. Cyberculture, ob. cit. p. 129-149. Ler Derrick de Kerckhove. Connected intelligence: the arrival of the Web society. Toronto: Somerville House Publishing, 1997, sobretudo a parte I.
11 Ver Pierre Lévy. O que é o virtual?, ob. cit., p. 17-18.
12 Marc Guillaume. L’empire des réseaux. Paris: Descartes & Cie, 1999, p. 72.
13 Derrick de Kerckhove. A pele da cultura: uma investigação sobre a nova realidade eletrônica. Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 80.
14 Ibidem, p. 34 e 142-143.
15 Ver Roger Fidler. Mediamorphosis: understanding new media. Califórnia: Pine Forge Press, 1997.
16 Eduardo Brito, "Circulação aumenta 8,81%. Jornais crescem há quatro anos, diz IVC", Jornal ANJ, abril de 2001, p. 3.
17 Consultar Elizabeth Saad Corrêa. "Arquitetura estratégica no horizonte da terra cognita da informação digital", em Revista USP, São Paulo, dezembro de 2000/fevereiro de 2001, p. 105-106.
18 Ver Pierre Lévy. World philosophie. Paris: Odile Jacob, 2000, p. 28-38.
19 Sobre grupos de discussão e comunidades virtuais, ler: Howard Rheingold. Les communautés virtuelles. Paris: Addison Wesley-France, 1995; Sherry Turkle. Life on the screen: identity in the age of Internet. Nova York: Touchstone, 1997.
20 Paul Mathias. La cité Internet. Paris: Presses de Sciences Po, 1997, p. 52-53.
21 Entrevista de Neuri Rosseto ao Autor, 13 de agosto de 1998. O MST pretende interligar seus principais acampamentos, mas depende de recursos financeiros e de conexões que dispensem linhas telefônicas fixas (a solução talvez venha com o aprimoramento da tecnologia wireless, por celular, satélite ou rádio).
22 Jésus Martín Barbero. Comunicación y solidariedade en tiempos de globalización. Conferência no 1º Encontro Internacional de Comunicadores Católicos, disponível em www.jmcommunications.com/spanish/barbero.html.
23 O relatório do Banco Mundial está disponível em www.worldbank.org/prospects/gep2001/chapt4.pdf.
24 Manuel Castells, em entrevista a René Lefort, "El nuevo papel del ciudadano ante la revolución de Internet", Correio da Unesco, outubro de 1999.
25 Benjamin R. Barber. Un lugar para todos: cómo fortalecer la sociedad civil y la democracia. Barcelona: Paidós, 2000, p. 91.
26 Robinson Borges, "Realidade virtual em xeque", Valor Econômico, Rio de Janeiro, 24 de novembro de 2001, p. 17.
27 Ler Dominique Wolton. Internet et après: une théorie critique des nouveaus médias. Paris: Flammarion, 1999, p. 115 e 206.
28 Félix Guattari, "Pour une refondation des pratiques sociales", Le Monde Diplomatique, outubro de 1992.


* Dênis de Moraes é doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Imagem e Informação da Universidade Federal Fluminense, no Brasil. Publicou, entre outros livros, Globalização, mídia e cultura contemporânea (1997), O Planeta Mídia: tendências da comunicação na era global (1998) e O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia (2001). Es colaborador de Sala de Prensa.


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