Sala de Prensa

42
Abril 2002
Año IV, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


Resultados de um inquérito de opinião

O Provedor do Leitor visto pelos jornalistas

Joaquim Fidalgo *

1- Enquadramento

Figura de criação muito recente1, o "news ombudsman" — que em Portugal adoptou a designação de Provedor do Leitor —, continua ainda à procura de uma definição mais clara e mais consensual sobre o seu papel, a sua função, o seu sentido.

Este cargo é interpretado de modos algo diversos conforme as latitudes onde se exerce — há mesmo quem, como o actual Provedor do Leitor do jornal espanhol "La Vanguardia", Josep Maria Casasús, encontre substanciais diferenças entre os provedores americanos e os provedores europeus (cf. Casasús, 2000) —, mas, sobretudo, conforme os jornais específicos onde existe e conforme as pessoas concretas que lhe vão dando corpo. Alguns inquéritos já feitos no seio da organização internacional que agrupa grande parte dos Provedores do Leitor (a ONO - Organization of News Ombudsmen), bem como estudos conduzidos por especialistas dos media junto dos próprios provedores, parecem confluir para uma conclusão semelhante: a de que "a função não pode ser definida de modo inequívoco sequer pelos que a desempenham" (Ettema e Glasser, 1987:12). Se alargarmos o âmbito da inquirição aos outros parceiros que directamente têm a ver com o trabalho desta entidade — os leitores, os jornalistas, os directores de jornais, os administradores de empresas jornalísticas —, muito maior é a dissonância de vozes sobre o que é (ou deve ser) e o que faz (ou deve fazer) um Provedor do Leitor2.

Entre defensores e opositores desta ‘instituição’, entre entusiastas e cépticos, entre mais optimistas e mais pessimistas sobre o seu presente e potencial futuro, os principais elementos de controvérsia parecem residir em cinco domínios básicos: a sua independência, o seu espaço de autonomia, o seu papel primordial dentro de um leque de opções possíveis, o(s) seu(s) poder(es) e, enfim, o seu grau de utilidade e eficácia para os diversos actores implicados no processo de recolha, tratamento, edição, difusão e recepção de informação.

Umas notas breves para situar cada um destes items3:

a) A "presunção de independência" afigura-se pressuposto essencial para a credibilidade externa de alguém que, criticando o jornal nas suas próprias páginas, e fazendo-o (também, ou sobretudo) em nome dos leitores, não pode enfermar da suspeita de que é apenas mais um funcionário do jornal e da empresa — como tal, submetido à sua cadeia hierárquica, às suas lógicas específicas, aos seus conhecidos constrangimentos. No entanto, é sabido que, formalmente, os provedores são de facto funcionários da empresa jornalística, que os escolhe, os nomeia, os remunera e lhes fornece as necessárias condições de trabalho. Mais: nalguns casos, provêm directamente das fileiras dos seus jornalistas. O problema que se coloca é saber se esta

contradição é insanável, deixando o Provedor refém de um duplo e tendencialmente conflituante "dever de lealdade" — tanto para o exterior como para o interior — , ou se, apesar disto, as pessoas chamadas a desempenhar este cargo conseguem conciliar as diferentes lealdades e actuar de modo efectivamente independente.

b) Em alguma medida relacionada com a questão da independência, a questão da autonomia do Provedor do Leitor conduz-nos a outros domínios, mais indefinidos mas nem por isso menos sensíveis. Trata-se de saber se, independentemente da sua boa vontade e do seu genuíno esforço de distanciação reflexiva face ao universo que pretende analisar e criticar, um Provedor — oriundo do próprio meio jornalístico, como na maior parte das situações acontece — tem condições subjectivas de o fazer. É, como refere Christopher Meyers num recente estudo, o problema de os "ombudsmen" serem geralmente "jornalistas com longa experiência ["seasoned", no original], profundamente enredados no ethos da profissão" (Meyers, 2000: 253). E a dúvida está em saber se um grande conhecimento das práticas e dos valores profissionais do jornalismo, muito recomendável para a função em causa, não arrasta consigo, nestes casos, uma efectiva incapacidade de ‘quebrar’ com eles quando seja imperioso.

c) O simples facto de o Provedor do Leitor assumir diferentes designações em diferentes latitudes (desde o original sueco "ombudsman" até ao francês "médiateur", passando pelo americano "reader’s representative" ou pelo espanhol "defensor del lector") é já, por si, expressivo sinal de como lhe são atribuídos, directa ou implicitamente, papéis razoavelmente diversos. Ou de como são diversas as expectativas que sobre a sua função se depositam. Diz Daniel Cornu que "o ‘ombudsman’ ou mediador representa uma instância intercalar entre os órgãos de regulação tradicionais e as consciências individuais" (Cornu, 1997: 25). O termo "intercalar" parece adequar-se particularmente bem à definição (qualquer que ela seja) do papel do Provedor do Leitor. Com mais ou menos variações, os provedores parecem ir buscando e encontrando o seu papel sempre algures entre dois pólos, uns mais conflituantes, outros mais complementares: entre o pólo dos leitores e o pólo dos jornalistas (ou constituindo-se, eles, na própria "ponte" que os liga, e favorecendo percursos nos seus dois sentidos), entre o pólo da exposição / condenação dos erros praticados e o da explicação (quando não justificação…) dos constrangimentos que podem estar na sua origem, entre o pólo de "relações públicas" do jornal / da empresa e o de "crítico da imprensa".

De entre os vários instrumentos possíveis que tentem assegurar a responsabilidade social dos media4, há quem considere que o provedor é "especialmente interessante porque tem o potencial de responder tanto à responsabilidade ["accountability", no original] interna como externa" (Pritchard, 1993: 78). Porque, de facto, o seu papel tem incidência tanto no seio da Redacção (ou seja, do jornal) como no universo dos leitores e, mais globalmente, na opinião pública. Nas sete funções, ou níveis de actuação, que atribui ao Provedor do Leitor (crítica e simbólica, mediadora, correctiva, persuasiva, pedagógica, dissuasiva e cívica — cf. Mesquita, 1998a: 16/17), e que cobrem bem todo o leque de papéis deste cargo independentemente das suas particulares declinações pessoais, parece claro que algumas se orientam mais "para fora" (a critica e simbólica, a pedagógica, a cívica) e outras mais claramente "para dentro" (a correctiva, a persuasiva, a dissuasiva), sendo que algumas participam das duas esferas — com particular relevo para a função mediadora, destinada precisamente a pô-las em contacto e em interacção.

d) Os provedores não dispõem de poder real para introduzir alterações no jornal, ficando-se por um "poder de influência e de palavra" (Mesquita, 1998a:15) — que acarreta uma nada desprezível força simbólica, pelo facto de se exercer de modo público, nas páginas do próprio jornal, e por assumida vontade deste, mas que nem por isso satisfaz todos os observadores do universo mediático. Há quem defenda que tal limitação, no que toca a capacidade de intervenção no jornal, justifica a sua aparente ineficácia prática e uma menor crença dos leitores nas vantagens de a ele recorrer. Ora o perigo de fazer do Provedor do Leitor uma espécie de "polícia da ética", mesmo podendo mostrar-se popular a uma visão mais imediatista ou a uma perspectiva ‘punitiva’ por parte dos leitores, encerra riscos sérios de desvirtuamento de uma função sobretudo mediadora e pedagógica (que é como a entendemos), abrindo caminho a lógicas de sobreposição de poderes e de confronto não só inaceitáveis como ineficazes. O "poder de recomendar", e de o fazer publicamente (permitindo o escrutínio posterior, igualmente público, sobre se os responsáveis decidiram ou não acatar as recomendações, com as subsequentes ilações) não é também um poder menor, no contexto de um trabalho que procura, entre outros objectivos no que toca aos leitores, contribuir para uma capacidade de acompanhamento da informação em moldes mais exigentes, críticos e autónomos.

e) Questão, enfim, será saber se, com um âmbito de poderes reais bastante delimitado, o Provedor do Leitor vê, por isso, hipotecada toda a sua utilidade ou uma eficácia mínima que dele é lícito esperar. O "ombudsman", mais do que criar uma cultura de exigência e de rigor profissional e ético onde ela porventura não existiria, surge como consequência dela, nos locais onde ela já de algum modo estava presente, e alimenta-a, potencia-a, desenvolve-a, dá-lhe novos caminhos de expressão, seja mediante os contributos que recebe (e põe à reflexão) de pessoas exteriores ao universo jornalístico, seja mediante o seu próprio contributo crítico e qualificado, além do mais advindo de um "posto de observação" independente e distanciado das rotinas de feitura do jornal. Se assim é, e julgamos que é, há que recolocar nos termos adequados a "medição" da eficácia de um Provedor. Se ele acaba por ser, como defende Jorge Wemans, o "cristalizador de um debate e de uma atenção internamente existentes e desejados" (Wemans, 1999:20), se ele é, como sustenta Mário Mesquita, fundamentalmente "uma instância de reflexão e crítica sobre os jornais" (Mesquita, 1998a: 16) — sendo que, segundo o mesmo autor, "o papel do ‘ombudsman só se realiza plenamente se há um acordo mínimo sobre os princípios deontológicos aplicáveis entre a hierarquia interna, os jornalistas e o Provedor" (Mesquita, 1998b: 84) — , então a sua utilidade essencial residirá precisamente aí. E, tendo uma alargada esfera de influência, tanto no interior da Redacção como junto dos leitores, não será um desperdício.

Os resultados do inquérito que abaixo se apresentam, dando embora só a perspectiva dos jornalistas (e de jornalistas de jornais com Provedor do Leitor), confirmam esta visão. Mesmo que não provoque grandes mudanças concretas no jornal, mesmo que não tenha poderes para as impor, nem por isso o Provedor deixa de ser considerado pela maioria não só útil como eficaz, dentro das naturais limitações do seu estatuto e do seu posicionamento. Mesmo que não crie, ele, um ambiente de atenção, rigor ético e capacidade auto-crítica no jornal, antes surgindo precisamente porque essas preocupações já lá pré-existiriamm, o Provedor funciona como um "suplemento" de estímulo a esse debate, à atenção, à capacidade crítica e auto-crítica, não deixando que o tempo, as pressões ou as rotinas quotidianas as vão corroendo e, pelo contrário, refrescando-as permanentemente — também com o precioso contributo dos leitores.

Propósito do estudo

Partindo do pressuposto de que uma componente importante da actuação do Provedor do Leitor, apesar do seu nome, tem reflexos no interior do próprio jornal, procurámos estudar como é que os jornalistas viam esta figura — tanto em termos genéricos, dada a instituição em si e dadas as diferentes experiências dos jornais portugueses, como em termos mais específicos, no que a cada jornal respeita.

Estamos perante uma figura que claramente se inscreve no contexto da auto-regulação da actividade jornalística, e até por isso divide opiniões, designadamente entre os que prefeririam guardar só para reuniões internas a discussão de problemas por vezes melindrosos, e os que encontram utilidade na sua partilha com os leitores, com a inerente interacção que daí pode decorrer.

A partir da nossa experiência como Provedor do Leitor do jornal "Público", lançámos um inquérito de opinião junto dos jornalistas para tentar perceber como é que eles encaram esta figura auto-reguladora, que importância lhe atribuem, como se relacionam com ela, de que forma a "situam" na lógica da empresa jornalística, que grau de eficácia lhe vêem, que papel lhe conferem (ou gostariam de conferir) no esforço de uma mais aberta e mais sistemática reflexão sobre o trabalho informativo, bem como sobre as exigências éticas e deontológicas que lhe são inerentes.

Metodologia

O estudo baseou-se num inquérito dirigido à totalidade dos jornalistas a tempo inteiro dos três jornais portugueses de informação geral que na altura (Junho/Julho de 2001) dispunham de Provedor do Leitor: "Público", "Diário de Notícias" e "Jornal de Notícias" (adiante referidos por letras — A, B e C — distribuídas aleatoriamente).

De modo a preservar o anonimato, os inquéritos foram enviados pelo correio para cada um dos jornalistas e acompanhados de um envelope de resposta, igual para todos, já selado e endereçado à Universidade do Minho.

O inquérito consistia em 25 perguntas "fechadas", sendo os inquiridos solicitados a escolher uma de entre várias hipóteses apresentadas (em alguns casos, eram solicitados a escolher mais que uma, ordenando-as pela importância atribuída). Independentemente disso, várias questões davam também a possibilidade de o respondente explicar e/ou comentar a(s) sua(s) escolha(s), ou até de acrescentar novas hipóteses às que lhe eram fornecidas. Uma última questão era "aberta" e dava a oportunidade de algum comentário suplementar sobre a matéria em causa — tendo-o feito 25 por cento dos inquiridos.

Umas perguntas referiam-se à experiência concreta do jornalista no "seu" jornal e com o "seu" Provedor, enquanto outras procuravam recolher a sua opinião, mais genericamente, sobre a instituição "Provedor do Leitor".

Antes do questionário propriamente dito, era solicitado um conjunto de elementos genéricos de identificação que, sem quebrarem o princípio do anonimato, permitiriam analisar os resultados por sub-categorias. Os elementos de identificação pedidos foram o jornal de pertença, o sexo, a idade (sub-divisão em cinco escalões), a formação académica geral (sub-divisão em cinco escalões), a formação académica específica em Comunicação Social (sub-divisão em cinco escalões), o tempo de experiência como jornalista profissional (sub-divisão em cinco escalões), o tipo de experiência profissional (só imprensa ou também Rádio e/ou TV) e o estatuto profissional actual (sub-divisão em cinco escalões).

Caracterização da amostra

De um total de 457 inquéritos enviados, foram recebidas 252 respostas — das quais 2 (duas) foram invalidadas, por os inquéritos estarem em branco. O estudo baseou-se, assim, em 250 inquéritos, correspondendo a 55 % do universo inquirido — o que se nos afigura uma amostra bastante representativa do conjunto a analisar.

Recorrendo aos elementos de identificação que se conheciam quanto à totalidade dos inquiridos (o jornal, o sexo e a posição hierárquica — verificável nas fichas técnicas), comparámos as percentagens dos inquéritos enviados e recebidos, concluindo que a amostra se afigura também equilibrada em termos proporcionais face ao universo abordado, não só no que respeita aos três jornais, como também no que respeita ao sexo e à ocupação, ou não, de cargos de chefia.

Em números absolutos, e no que toca à distribuição por jornais, foram recebidos 62 inquéritos do Jornal A (25%), 113 do Jornal B (45%) e 66 do Jornal C (26%), enquanto 9 (4%) optaram por não fornecer identificação.

A nível de género, as respostas repartiram-se entre 135 (54%) de jornalistas do sexo masculino e 86 (35%) do sexo feminino, enquanto 29 (11%) optaram por não fornecer este elemento de identificação.

Quanto a escalões etários, o mais representado nas 250 respostas recebidas é o "dos 26 aos 35 anos", com 86 inquéritos (34% do total). Seguem-se os escalões "dos 36 aos 45 anos" (73 respostas – 29%), "dos 46 aos 55 anos" (39 respostas – 16%), do escalão "até 25 anos" (31 respostas – 12%) e "mais de 55 anos" (20 respostas – 8%).

A nível de formação académica geral, verifica-se que a maioria dos respondentes (66%) concluiu estudos de nível superior (47% com uma licenciatura ou equivalente, 11% com um bacharelato ou equivalente e 8% com uma pós-graduação, mestrado ou doutoramento). Acrescem a estes 23% com estudos superiores incompletos e 11% apenas com o ensino secundário.

Do total de respondentes, 126 (ou seja, algo mais que 50%) referem ter algum tipo de formação académica específica na área da Comunicação Social. São 30% os que concluíram, neste domínio, uma licenciatura ou equivalente, 8% os que têm um bacharelato ou equivalente e 5% os que têm uma pós-graduação, mestrado ou doutoramento. Há ainda 4% com estudos de Comunicação Social incompletos e 4% com um diploma por escola profissional do sector.

Quanto à experiência profissional, 29% dos respondentes são jornalistas há "entre 11 e 15 anos", 26% há "mais de 20 anos", 22% há "menos de 5 anos", 15% há "entre 5 e 10 anos", e 8% há "entre 16 e 20 anos". Significa isto que 63% dos inquiridos são jornalistas profissionais há mais de 10 anos e 37 % há menos.

Finalmente, no que respeita ao estatuto profissional actual, a maioria das respostas (67%) provém de "repórteres ou redactores", seguindo-se a categoria dos "editores, coordenadores ou equivalentes" (16%). Quanto às restantes, 4% provêm de "colaboradores permanentes", 3% de "estagiários", 3% de "chefes /subchefes de Redacção ou equivalentes" e 4% de "membros da Direcção". Agregando as categorias, verificamos, então, que 23% dos respondentes a este inquérito ocupam algum cargo de chefia nas respectivas redacções, enquanto 67% não integram a hierarquia.

Alguns resultados

  • Frequência de leitura e grau de concordância

A primeira constatação é que a esmagadora maioria dos inquiridos (98%) concorda com a existência de um Provedor do Leitor no SEU jornal, e um número próximo (94%) defende a existência de provedores na generalidade da imprensa portuguesa. A percentagem baixa para 90% quando se trata de defender a existência de provedores também na televisão: dos comentários feitos, alguns dos inquiridos que se manifestam "a favor" dizem que provedores na TV seriam ainda mais necessários do que na imprensa, enquanto outros, que se mostram contra, entendem que "não faz sentido" uma tal figura em órgãos de comunicação com uma lógica "tão comercial" como a que dizem observar nas TV’s portuguesas.

O facto de tantas vozes serem favoráveis à existência do Provedor do Leitor não significa, necessariamente, que concordem sempre com a sua actuação ou as suas opiniões. De entre os inquiridos, 76 % dizem ler regularmente a coluna publicada pelo Provedor no seu jornal (39% fazem-no "sempre" e 37% "quase sempre", enquanto 18% lêem "de vez em quando" e 4% "raramente"), mas o grau de concordância varia: 22% do total dizem que "normalmente concordam" com as apreciações do Provedor, 38% que "concordam muitas vezes" e 32 % que "umas vezes concordam, outras vezes não". Há ainda 3% que "muitas vezes não concordam" e 2% que "quase nunca" concordam.

Tanto a frequência de leitura do Provedor como o grau de concordância com as suas apreciações parecem variar um pouco se, no universo inquirido, atentarmos nas classes etárias e no tempo de experiência profissional. Aparentemente, os jornalistas mais novos lêem-no menos frequentemente que a média global de 76% (no escalão de "menos de 25 anos", são 68% os que afirmam ler o seu Provedor "sempre" ou "quase sempre", percentagem que baixa ainda para 64% no escalão etário dos 26-35 anos; em contrapartida, nos escalões mais velhos, as percentagens sobem para 85%, tanto no grupo dos 36-45 anos como no dos 46-55 anos, chegando aos 90% no escalão com mais de 55 anos).

Tendência semelhante parece observar-se quanto ao grau de concordância: se, no universo global, 60% dos jornalistas diziam concordar "normalmente" ou "muitas vezes" com o Provedor, essa cifra baixa para 55% no escalão etário de menos de 25 anos e para 50% no escalão de 26-35 anos, subindo para 61% no escalão de 36-45 anos e para 80% no de 46-55 anos. Nos dois grupos mais jovens, a resposta preferida a esta questão (com percentagens na casa dos 39 a 40%) vai para "umas vezes concordo, outras vezes não concordo" (ver Quadro 1).

QUADRO 1 – Grau de concordância/ escalões etários

Escalão
etário:

Normalm.
concorda

Concorda
frequentem.

Vezes sim,
vezes não

Mts. vezes
ñ concorda

Qs. nunca
concorda

Até aos 25 anos

19 %

36 %

39 %

7 %

---

De 26 a 35 anos

14 %

36 %

40 %

5 %

2 %

De 36 a 45 anos

27 %

34 %

32 %

3 %

1 %

De 46 a 55 anos

31 %

49 %

18 %

---

---

Mais de 55 anos

30 %

45 %

25 %

---

---

Se cruzarmos estes dados com o tempo de experiência profissional (que, em regra, será proporcional à idade), chegamos a conclusões semelhantes. Os inquiridos com menos de 10 anos de profissão lêem o provedor "sempre" ou "quase sempre" em 63% dos casos — recordamos que a média do total de inquiridos se situava, nesta pergunta, nos 76% —, cifra que sobe para os 80% naqueles que são jornalistas há "entre 11 e 15 anos", e para 89% nos que exercem a profissão há "entre 16 e 20 anos". Do mesmo modo quanto ao grau de concordância com o Provedor: a média geral de 60% dos que concordam "normalmente" ou "muitas vezes" baixa para 50% nos inquiridos que são jornalistas há menos de 5 anos, e para os 43% nos que exercem a profissão há "entre 5 e 10 anos"; também aqui a resposta mais frequente é "umas vezes concordo, outras não". Em contrapartida, a média dos geralmente "concordantes" sobe para 65% nos inquiridos com 11 a 15 anos de profissão, chegando aos 79% nos que têm 16 a 20 anos de experiência. Nos inquiridos com mais de 20 anos de experiência profissional, a percentagem é também superior à média global – 71% (ver Quadro 2).

QUADRO 2 – Grau de concordância/ tempo de profissão

Experiência
profissional:

Normalm.
concorda

Concorda
frequentem.

Vezes sim,
vezes não

Mts. vezes
ñ concorda

Qs. nunca
concorda

Menos de 5 anos

20 %

30 %

43 %

4 %

2 %

Entre 5 e 10 anos

11 %

32 %

40 %

11 %

3 %

Entre 11 e 15 anos

25 %

40 %

34 %

---

---

Entre 16 e 20 anos

42 %

37 %

16 %

5 %

---

Mais de 20 anos

23 %

48 %

22 %

2 %

3 %

Também no que respeita ao estatuto profissional, parece observar-se uma tendência de maior acompanhamento da coluna do provedor (e de maior grau de concordância) conforme se está mais acima na cadeia hierárquica: são 74% os "repórteres/redactores" que dizem ler o provedor "sempre" ou "quase sempre", fazendo-o, no entanto, 88% dos "editores ou equivalentes", 86% dos "chefes/subchefes de Redacção" e 100% dos "membros da Direcção" inquiridos. Estes últimos dizem concordar "normalmente" ou "muitas vezes" com o Provedor em 89% dos inquéritos (recordamos que a média global do universo inquirido está nos 60%), cifra que baixa para 72% nos "chefes/subchefes de Redacção", para 69% nos "editores ou equivalentes" e para 57% — ou seja, já abaixo da média global — nos "repórteres/ redactores". E não vai além dos 29% no estagiários inquiridos, que claramente preferem a resposta "umas vezes concordo, outras não" (ver Quadro3).

QUADRO 3 – Grau de concordância/ estatuto profissional

Estatuto
profissional:

Normalm.
concorda

Concorda
frequentem.

Vezes sim,
vezes não

Mts. vezes
ñ concorda

Qs. nunca
concorda

Colab. permanente

56 %

33 %

---

11 %

---

Estagiário

29 %

---

71 %

---

---

Repórter/ redactor

16 %

41 %

36 %

4 %

2 %

Editor ou equiv.

27 %

42 %

29 %

---

---

Chefe/subchefe Red.

43 %

29 %

29 %

---

---

Membro da Direcção

56 %

33 %

11 %

---

---

  • Utilidade e eficácia do Provedor

As questões seguintes debruçavam-se sobre o maior ou menor grau de utilidade e de eficácia de um Provedor do Leitor, na óptica dos jornalistas. A maioria dos inquiridos entende ser "muito útil" (17%) ou "útil" (61%) a existência de um Provedor no SEU jornal específico, considerando também que essa figura pode ser "muito útil" (13%) ou "útil" (66%) na imprensa portuguesa, em termos mais genéricos; 17% acham a instituição "pouco útil" (17%) ou mesmo "inútil" (2%) no SEU jornal, julgando-a "pouco útil" (16%) no panorama global dos jornais.

Admitindo alguma utilidade na instituição do Provedor — que é a opinião de quase 80% dos inquiridos —, para quem será mais notória essa utilidade? "Para os leitores", escolhem 86 % dos inquiridos; "para os jornalistas", dizem 84%; "para a imagem da empresa", respondem 49%; "para a Direcção do jornal", preferem 37%; "para o público em geral", referem 16% dos inquiridos.

Os inquiridos eram solicitados a escolher até três hipóteses, numerando-as por ordem crescente de importância. As percentagens atrás indicadas referem-se à soma de citações feitas, independentemente da sua ordenação. Mas esta dá-nos resultados relativos semelhantes, como podemos constatar no Quadro 4.

QUADRO 4 – Utilidade do Provedor para quem?

Utilidade
mais notória:


lugar


lugar


lugar

Citado
sem ordem

Para os LEITORES

55 %

19 %

7 %

6 %

Para os JORNALISTAS

21 %

42 %

17 %

4 %

Para a IMAGEM da empresa

10 %

10 %

26 %

4 %

Para a DIRECÇÃO dos jornais

1 %

12 %

21 %

3 %

Para o PÚBLICO em geral

2 %

4 %

10 %

2 %

De notar que, embora globalmente em 2º lugar, a escolha da resposta "[maior utilidade] para os jornalistas" foi escolhida em primeiro lugar por mais de 20% dos inquiridos.

Posta a questão mais concretamente sobre se o trabalho do Provedor do Leitor em cada um dos jornais estudados tem tido, na opinião dos seus jornalistas, alguma eficácia, as respostas foram, em geral, positivas: 59% dos inquiridos consideram "eficaz" o trabalho do Provedor no SEU jornal, havendo 6% que o consideram mesmo "muito eficaz"; em contrapartida, 28% responderam que encaram aquele trabalho no SEU jornal como "pouco eficaz" e 2% "nada eficaz" (5% não responderam).

Foi, em seguida, perguntado (a partir de uma conjunto de hipóteses fornecidas, de que deviam escolher-se e ordenar-se até três) em que se traduzia concretamente essa eficácia. O número mais elevado de escolhas (77%) foi para o item "Maior abertura e transparência face aos leitores", logo seguido do item "Maior atenção dos jornalistas nas suas rotinas diárias" (67%). Por 48% dos inquiridos foi citado o item "Maior estímulo ao debate público sobre questões do jornalismo", vindo depois (com 42% de citações) o item "Maior debate interno sobre os problemas de feitura do jornal". Com menos citações nesta questão surgiram os items "Melhoria da imagem do jornal/ da empresa" (escolhido por 31% dos inquiridos) e, finalmente, "Alterações concretas no jornal" (referido apenas por 7%).

Para além da quantidade de citações, a sua hierarquização por ordem de importância forneceu resultados idênticos: a "abertura e transparência face aos leitores" foi o item mais vezes citado em 1º lugar, o da "atenção dos jornalistas nas suas rotinas diárias" o mais vezes citado em 2º lugar, e o do "estímulo ao debate público" o mais vezes referido em 3º lugar.

Questão paralela foi colocada aos 34% de inquiridos que consideravam o trabalho do Provedor "pouco ou nada eficaz", tentando descortinar as razões dessa ineficácia. Das seis hipóteses adiantadas, a mais citada (52%) foi a de o Provedor "não ter poderes reais para provocar mudanças", logo seguida (47%) de "as rotinas instaladas no jornal serem muito fortes". "Os responsáveis do jornal não ligam às recomendações do Provedor", foi um item citado por 39% dos inquiridos para explicar a alegada ineficácia; 37% apontaram a hipótese de "a coluna do Provedor ser pouco ou nada lida no jornal", tendo 32% referido o "não se reconhecer competência/ autoridade profissional ao Provedor", e 25% a circunstância de "as questões da ética não se adequarem bem à ‘lógica de mercado’".

  • Origem interna ou externa do Provedor

Uma questão menos consensual nos resultados dos inquéritos — e das mais debatidas neste domínio, pois tem a ver com o sensível problema da independência (ou "presunção de independência") do Provedor do Leitor — é o da origem desta figura: deve ser escolhida de entre os quadros do jornal em que vai exercer o cargo ou deve vir de fora?

A este respeito, as opiniões dos inquiridos dividiram-se razoavelmente, com 45% defendendo que o Provedor deve ser "de fora" e 32% preferindo que seja "da casa". Para além dos 14% que não tinham (ou não quiseram dar) opinião nesta matéria, surgiu uma nova categoria — que não estava prevista no inquérito mas se criou "a posteriori", dado que um número razoável (10%) de inquiridos a "criou" com as explicações que deu. Segundo estes, não seria tão importante a proveniência do Provedor mas, sim, o perfil da pessoa escolhida para o cargo. Face a este critério (o do perfil), o facto de ser "de fora" ou "da casa" seria irrelevante.

Nesta matéria, entretanto, as respostas dos inquiridos parecem estar sobremaneira ligadas às experiências concretas em cada um dos jornais respectivos, uma vez que, cruzados os dados globais com o jornal de pertença, as disparidades são assinaláveis (ver Quadro 5). No jornal A, uma maioria claríssima prefere uma solução "de fora", enquanto no jornal C a primeira escolha vai para a hipótese "da casa", embora pouco acima dos 50%. No jornal B, as duas hipóteses estão praticamente empatadas (34% e 35%). De referir ainda uma percentagem elevada de "Não sabe/ Não responde", o que acentua ainda mais as dúvidas existentes nesta questão.

QUADRO 5 – Origem do Provedor

 

Provedor
"da casa"

Provedor
"de fora"

Interessa mais
a pessoa

N/S
N/R

Jornal A

3 %

76 %

8 %

13 %

Jornal B

34 %

35 %

13 %

19 %

Jornal C

52 %

38 %

5 %

6 %

Não identificado

56 %

11 %

11 %

22 %

Articulando as respostas a esta pergunta com os outros elementos de identificação, pode constatar-se que, em termos de classes etárias, a preferência dos mais jovens (até 25 anos) vai para um Provedor "de fora" (58% do total), mantendo-se a tendência, embora com menor expressão percentual, nos escalões dos 26-35 anos (44%) e dos 36-45 anos (44%); já no escalão de 46-55 anos, a opção preferida é a de um Provedor "da casa" (41%), embora a pouca distância dos que escolhem "de fora" (39%).

Relativamente ao estatuto profissional, assinale-se que, no universo global, preferem um Provedor "da casa" os estagiários (57%), os "chefes/subchefes de Redacção" (57%) e os "membros da Direcção" (aqui com apenas 33% e opiniões muito repartidas por todas as outras hipóteses). Pelo contrário, optam pela solução "de fora" os "repórteres/redactores" (49%), registando-se um empate na categoria dos "editores ou equivalentes" (39% tanto para a hipótese "da casa" como para a "de fora").

Bastante mais consensual parece ser a resposta à pergunta sobre se o Provedor do Leitor deve ser pessoa com ou sem ligação ao jornalismo. Dos inquiridos, 50% dizem que deve ser "um antigo jornalista" e 42% que deve ser uma pessoa "com algum tipo de experiência jornalística"; apenas 4% dizem preferir, para esta função, alguém "totalmente exterior ao grupo profissional dos jornalistas", havendo 5% que optam por não responder.

Ainda mais consensual é o posicionamento sobre a questão de o Provedor escrever, ou não, uma coluna no jornal com as suas apreciações: 82% acham que sim, que o deve fazer, 2% prefeririam que ele dirigisse as suas críticas apenas para o interior do jornal e 14% entendem que isso "depende dos casos em análise".

E, quando escreve uma coluna, deve citar os nomes dos jornalistas envolvidos nos casos em apreciação? Aqui, 56% respondem "sim" e 9% "não". Um número significativo ( 34%) entende que essa opção "depende dos casos em análise".

  • Definição do Provedor do Leitor

Tentando definir, em termos genéricos, a figura do Provedor do Leitor, foram fornecidas aos jornalistas várias hipóteses, pedindo-se que seleccionassem, ordenadamente, até três. Os resultados aproximam-se dos que encontrámos quando se questionou a utilidade da figura do Provedor, com a referência mais frequente ao seu papel de ligação aos leitores (82% de citações no total), logo seguida do seu papel como oportunidade de reflexão para os jornalistas (78% de citações).

Estas percentagens referem-se à soma total de citações feitas, independentemente da ordenação feita, mas os resultados são semelhantes quando se atenta nas escolhas dos inquiridos para o 1º, 2º e 3º lugares, face às hipóteses adiantadas (ver Quadro6).

QUADRO 6 – Definição do Provedor

Definição genérica
do Provedor do Leitor:


lugar


lugar


lugar

Citado
sem ordem

Instrumento de "marketing"

6 %

2 %

5 %

1 %

Serviço de "relações públicas"

6 %

11 %

8 %

---

Forma de "dar tiros no pé"

---

1 %

2 %

---

Boa ligação jornal-leitores

50%

16 %

16 %

6 %

Instância de reflexão p/ jornalistas

14 %

40 %

24 %

3 %

Útil instrumento de auto-regulação

17 %

19 %

34 %

3 %

  • Importância relativa da figura do Provedor

Tentando comparar a importância relativa que é atribuída pelos jornalistas ao Provedor do Leitor, no cotejo com outras (existentes ou possíveis) instâncias de regulação da sua actividade, constatou-se que o Provedor é julgado "importante" pela maioria (55%), havendo 39% que o consideram mesmo "muito importante". Mais destacados, porém, são os Conselhos de Redacção — que 63% dos inquiridos consideram um instrumento "muito importante" e 26% "importante". Eventuais Associações de Leitores/Espectadores também são referidas como "importantes" por 50% dos inquiridos, merecendo ainda destaque a apreciação do papel do Conselho Técnico e Deontológico dos Jornalistas ("muito importante" para 46% dos inquiridos e "importante" para 38%) – ver Quadro 7

QUADRO 7 – Importância relativa do Provedor do Leitor

Instâncias
de regulação:

Muito
import.

Import.

Pouco
import.

Sou
contra

N/S
N/R

Provedores do Leitor/ Espectador

39 %

55 %

5 %

---

1 %

Conselho Técnico e Deontológico SJ

46 %

38 %

11 %

4 %

1 %

Alta Autoridade p/ Comunic. Social

22 %

30 %

31 %

12 %

5 %

Conselhos de Redacção

63 %

26 %

8 %

---

3 %

Conselho de Imprensa

19 %

32 %

34 %

2 %

12 %

Ordem dos Jornalistas

17 %

18 %

17 %

40 %

9 %

Códigos Éticos das empresas jorn.

36 %

36 %

17 %

4 %

6 %

Associações de Leitores /Espect.

23 %

50 %

18 %

3 %

5 %

  • Maiores elogios e maiores críticas

Finalmente, era solicitado aos inquiridos que, de entre um conjunto de hipóteses, escolhessem até três (e as ordenassem segundo a importância) para tentar perceber quais os maiores elogios e as maiores críticas que lhes merece a instituição "Provedor do Leitor", não só no seu jornal mas também em termos mais genéricos, a partir da observação do seu trabalho nos jornais portugueses de informação geral.

No que toca a elogios, constata-se uma repartição razoável entre os items propostos. O que mereceu mais citações no total (independentemente de ser colocado em 1º, 2º ou 3º lugar) foi o de que "os Provedores são uma ‘porta aberta’ dos jornais para com os seus leitores" – citaram-no 60% dos inquiridos. Logo a seguir, com 59% de referências, vinha o item "Recordam princípios éticos que frequentemente parecem esquecidos". Com 54% de citações surge um outro elogio da "função interna" dos Provedores: "Estimulam a crítica e a auto-crítica entre os jornalistas". Com um número de citações razoável, embora abaixo dos 50%, aparecem as outras três hipóteses sugeridas: " [Os Provedores] ajudam os jornais a corrigir os erros e a melhorar o seu serviço" (46%), "permitem que o público conheça melhor a actividade jornalística" (42%) e "obrigam os jornais a maior prudência no seu trabalho diário" (35%).

No domínio das críticas, os inquiridos mostraram-se em geral benevolentes para a figura do Provedor, com elevadas percentagens (entre um mínimo de 52% e um máximo de 96%, conforme os items) a não citar qualquer das seis hipóteses avançadas. Ainda assim, a crítica com maior número de citações, independentemente de estarem ordenadas em 1º, 2º ou 3º lugar, foi a de que os Provedores "são muito moralistas nas apreciações que fazem" (48% dos 250 jornalistas respondentes). Segue-se o item "preocupam-se demasiado com questões técnicas (lapsos, má gramática, coisas trocadas, etc.)", com 42%. Mais abaixo surgem as restantes críticas: "têm tendência a ser demasiado agressivos para com os jornalistas" (34%), "não são independentes, pois também são funcionários dos jornais que analisam/criticam" (26%), "são pouco sensíveis às lógicas do mercado e das empresas de Com. Social" (18%) e "têm tendência a ser demasiado agressivos para com os leitores" (4%).

Conclusões

Em conclusão (e independentemente do posterior aprofundamento da análise dos dados agora recolhidos, cujo tratamento ainda prossegue), poderíamos salientar os seguintes pontos:

• A clara maioria dos jornalistas que trabalham em jornais com um Provedor do Leitor não só concorda com a sua existência, como reconhece uma grande utilidade e uma razoável eficácia ao papel desempenhado por essa figura auto-reguladora.

• A maior utilidade do Provedor parece residir na maior abertura e transparência do jornal face aos seus leitores, mas quase no mesmo plano é referida a sua importância para o interior da própria Redacção.

• Mesmo que nem sempre sejam traduzidas em alterações concretas no jornal, a utilidade e eficácia do Provedor no que diz respeito a estimular o debate interno, a favorecer a capacidade auto-crítica e a recordar os princípios éticos norteadores da profissão, parecem ser relevantes para a grande maioria dos jornalistas.

• As sensibilidades relativamente à figura, às características e ao papel do Provedor do Leitor variam um pouco conforme os jornais, confirmando a ideia de que a sua definição e o seu trabalho concreto são também função da cultura específica das organizações em que se inserem.

• Do mesmo modo, notam-se algumas diferenças de sensibilidade conforme a idade, o tempo de experiência e a categoria profissional dos jornalistas inquiridos, parecendo haver uma maior distância dos mais jovens face à figura (ou à actuação concreta) do Provedor do Leitor.

_____
Notas:

1 Os primeiros "ombudsman" de imprensa surgiram nos EUA, na década de 60 (embora haja referências a experiências de algum modo precursoras, ainda que pontuais, já nas primeiras décadas do século XX - cfr. ETTEMA e GLASSER, 1987: 3) e, em Portugal, só em 1997, primeiro com Mário Mesquita, no "Diário de Notícias", depois com Jorge Wemans, no "Público". Mais recentemente (ano 2000), no campo dos jornais de informação geral, juntou-se ao rol Fernando Martins, do "Jornal de Notícias".

2 Ver, por exemplo, e além do já citado de Ettema e Glasser (1987), estudos de Starck e Eisele (1999) entre os provedores de jornais americanos e os seus "editors", de Mogavero (1982) também no seio dos provedores dos EUA, de Hartung, JaCoby e Dozier (1988) no campo dos leitores, e de Pritchard (1993), entre os jornalistas.

3 Este texto é uma versão adaptada e resumida da comunicação apresentada no 2º Congresso da SOPCOM-Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (Lisboa, Outubro de 2000) .

4 Os chamados M*A*R*S* (Meios de Assegurar a Responsabilidade Social dos media), na expressão adoptada por Claude-Jean Bertrand e que corresponde à sigla anglófona M.A.S. (Media Accountability Sistems) — sendo importante notar que o termo "accountability" aponta para a noção de "responsável" mas também de "responsabilizável", no sentido de "chamado a prestar contas".

_____________________
Referências bibliográficas

• BERTRAND, Claude-Jean (1997). La Déontologie des Médias. Paris: Presses Universitaires de France.

•BERTRAND, Claude-Jean (org.) (1999). L’Arsenal de la Démocratie – Médias Déontologie et M*A*R*S*. Paris: Economica.

• CASASÚS, Josep Maria (2000), "Mensajes de Defensa y Mediación", in La Vanguardia (Barcelona – Espanha), edição de 31/12/2000.

• CORNU, Daniel (1997). Éthique de l’Information. Paris: Presses Universitaires de France.

• ETTEMA, James S. e GLASSER, Theodore L. (1987), "Public Accountability or Public Relations? Newspaper Ombudsmen Define Their Role", in Journalism Quarterly, Primavera 1987, vol. 64, nº 1, pp. 3-12.

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•GREVISSE, Benoît (1998), "Autorégulation ou Déontologie? Les conditions d’un débat sur les pratiques journalistiques", in Recherches en Communication, nº 9 (1998), pp. 7-24. Lovaina: Université Catholique de Louvain, Département de Communication.

HARTUNG, Barbara, JACOBY, Alfred e DOZIER, David M. (1988), "Readers’ Perceptions of Purpose of Newspaper Ombudsman Program", in Journalism Quarterly, Inverno 1988, vol. 65, nº 4, pp. 914-919.

• JACOBY, Al (1999), "Expérience de médiateur", in BERTRAND, Claude-Jean (org.), L’Arsenal de la Démocratie – Médias Déontologie et M*A*R*S*, pp. 285-290. Paris: Economica.

• KAPOOR, Suraj e SMITH, Ralph (1979), "The Newspaper Ombudsman – A Progress Report", in journalism Quarterly, Outono 1979, vol. 56, nº 3, pp. 628-631.

• MESQUITA, Mário (1998a). O Jornalismo em Análise - A Coluna do Provedor dos Leitores. Coimbra: Minerva.

• MESQUITA, Mário (1998b), "La médiation solitaire de l’ombudsman de presse", in Recherches en Communication, nº 9 (1998), pp. 83-92. Université Catholique de Louvain (Bélgica), Département de Communication.

• MESQUITA, Mário (1999), "Un médiateur portugais de la presse quotidienne", in BERTRAND, Claude-Jean (org.), L’Arsenal de la Démocratie – Médias Déontologie et M*A*R*S*, pp. 291-298. Paris: Economica.

• MEYERS, Christopher (2000), "Creating an Effective Newspaper Ombudsman Position", in Journal of Mass Media Ethics, Dezembro 2000, vol. 15, nº 4, pp. 248-256.

• MOGAVERO, Donald T. (1982), "The American Press Ombudsman", in Journalism Quarterly, Inverno 1982, vol. 59, nº 4, pp. 548-580.

• PRITCHARD, David (1993), "The Impact of Newspaper Ombudsmen on Journalists’ Attitudes", in Journalism Quarterly, Primavera 1993, vol. 70, nº 1, pp. 77-86.

• STARCK, Kenneth e EISELE, Julie (1999), "Newspaper Ombudsmanship as Viewed by Ombudsmen and their Editors", in Newspaper Research Journal, Outono 1999, Vol. 20, nº 4, pp. 37-49.

• WEMANS, Jorge (1999). O PÚBLICO em Público - As Colunas do Provedor do Leitor. Coimbra: Minerva.


* Joaquim Fidalgo e jornalista, ex-Provedor do Leitor do jornal Público, professor convidado no Departamento de Ciências da Comunicação – Instituto de Ciências Sociais – da Universidade do Minho. Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.


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