Sala de Prensa


32
Junio 2001
Año III, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


Pecados e deveres da imprensa

Domenico De Masi *

Eu acho que os organizadores deste evento são sadomasoquistas. Especialmente o Demócrito, que é certamente um sádico. Porque não é possível organizar uma palestra para pessoas felizes que estão terminando um encontro, e depois de haver escutado uma música e de haver visto uma dança maravilhosa. É fácil entender que as idéias sempre vêm depois das emoções. Eu tento falar, e me dou conta que é uma coisa muito complicada. Vejo que a pessoa que faz a tradução é obrigada a ficar em pé para ver de que se trata. Porque acontece poucas vezes de ter a oportunidade de falar para tantos jornalistas, isto é, a tantos instrumentos de poder.

Me dou conta que é sádico falar com vocês nesse momento. Mas isso compensa ao menos em parte o sadismo com que os jornalistas às vezes falam com os leitores. Então, queria dizer para vocês como eu lido com as coisas e me dou conta que vocês, nestes dias, falaram de como defender a liberdade de expressão, de empresas que vão da Patagônia até o Alaska.

Agora, nós sabemos que os jornalistas têm liberdade. Junto com a liberdade, crescem dois outros elementos: cresce a incerteza e cresce a responsabilidade. Isto é, sempre a liberdade se junta à incerteza e à responsabilidade. Como até hoje vocês falaram dos direitos dos jornais e dos jornalistas, ao final desta reunião prefiro falar dos deveres - quais são os deveres dos jornalistas.

Se acontece que os jornalistas têm a liberdade de parte do poder político, de parte do poder econômico, que liberdade deve ter o leitor? Que espectro de poder do leitor nós queremos dos jornalistas? Vou falar primeiro da incerteza. Qual é a incerteza que consegue a nossa conquista de liberdade?

Nós transcorremos 7 mil anos de sociedade rural. Em algumas partes do mundo, ainda hoje existem sociedades rurais. A dança que vimos e a música que escutamos, são próprias do mundo de civilizações muito belas de caráter rural. Depois, ao final do Século XVII, por 200 anos, temos tido uma sociedade industrial e, nestes últimos 50 anos, uma sociedade pós-industrial. Em que consiste uma sociedade pós-industrial? Consiste no fato que, no centro do sistema social, não há mais a produção em grande escala de bens materiais como os automóveis, as geladeiras. Mas há a produção de informação, a produção de símbolos, a produção de valores, a produção de estética.

Isso naturalmente comporta maiores incertezas. Porque o progresso se tornou muito veloz. Porque nós estamos assistindo a uma nova divisão internacional do trabalho. De uns anos para cá, os países ricos, sobretudo Estados Unidos e alguns países da Europa e o Japão, estão reservando para si mesmo o poder de produzir idéias. Estão empurrando para o Segundo Mundo, isto é, Brasil, Coréia e Romênia, a produção de bens materiais, isto é, as fábricas. As quais poluem, trazem menos riquezas que a produção de idéias.

Existe também o Terceiro Mundo, que é condenado a fabricar os produtos do Primeiro e Segundo Mundo, sem ter o que dar em troca, que é a própria mão-de-obra, a própria base militar e a própria subordinação política. Agora, as situações da América do Norte e da América do Sul não são iguais. Enquanto a América do Norte pôde realizar por completo o seu interesse e por completo o progresso de produzir idéias, no Brasil estamos na presença de um Segundo Mundo, e a mesma coisa na Argentina. Isso quer dizer: a produção de idéias muito complexas. E os jornais têm um dever extraordinário que é acompanhar essa produção de idéias.

Outra fonte de incertezas está mudando completamente a relação entre tempo de trabalho e tempo livre. Hoje, um jovem de 20 anos tem, diante de si, mais de 500 mil horas de vida, e somente 80 mil horas passará no trabalho. Todo o resto será, já é, um tempo livre. Falando disto, estão emergindo novos valores.

Quais são esses valores emergentes? São emergentes os valores da criatividade. É sempre mais importante produzir idéias novas, fatos novos. Está emergindo o valor da ética. É sempre mais importante ser confiável.

Está emergindo o valor da estética. Nós apreciamos sobretudo as coisas belas. Ontem à noite, nós vimos uma coisa belíssima, aquele desfile de moda [de Lino Vilaventura]. Hoje, vimos e escutamos uma coisa belíssima, esta música. A sociedade pós-industrial é baseada nessas coisas, sobre a produção de bens imateriais, isto é, da estética.

Outro valor emergente é a subjetividade. Nós sentimos sempre menos necessidade de trabalhar sozinho, de viver em solidão, de ter silêncio, de ter introspecção, de ter privacidade. O outro valor emergente é a feminilização. Isto é, sempre mais as mulheres estão resgatando aquela parte de trabalho que os homens subtraíram das mulheres. E que as mulheres estão se mostrando plenamente capazes de fazer. O jornalismo é uma demonstração disto.

E, ao final, um valor importantíssimo, o valor da qualidade de vida. Isto é, nós sabemos que se vive somente uma vez. Isto é seguro. Pode ser que exista outra vida. Porém, não se entende por que essa outra vida deve ser paga com a infelicidade da vida mortal. A qualidade de vida se torna um valor fundamental. E um outro valor fundamental é o valor da globalização.

Ora, todos esses elementos que nos trazem incerteza, fazem bem ou fazem mal. No transcurso da história da filosofia, e na história da sociologia, se vê em contraste três posições. Existem alguns autores como Daniel Bell e outros, que entendem que este é o melhor dos mundos que existiu até agora. Pela primeira vez, segundo esses autores, para a massa dos cidadãos pode finalmente existir o Estado. Pela primeira vez, é possível também às mulheres, aos velhos e às crianças, serem respeitados nos seus direitos. Pela primeira vez, nos liberamos da escravidão da escassez e da pobreza, da escravidão da tradição excessiva, da escravidão do autoritarismo.

Existem outros autores que entendem que esse mundo não é o melhor dos mundos que existiu até agora. Porque existe um excesso de democracia e esses autores são taxados de direita, isto é, idiotas. Para Ortega y Gasset este mundo parece uma democracia mas sua substância não é democrática. A substância é de rebelião das massas, é de prevalência da quantidade sobre a qualidade.

Há, ao final, um terceiro grupo de pensadores, segundo os quais o mundo em que nos encontramos vivendo é um mundo onde a democracia é fingida, porque existem os mass media. E é o grande ato de acusação contra os jornais, a televisão e contra o rádio. Segundo esses autores, tais instrumentos eliminam completamente a liberdade, mediante uma liberdade fingida, mediante a manipulação.

É claro que devemos escolher entre essas três situações. Os mass media são um meio de liberação do mundo, são um meio de excesso de democracia, são um meio de falta de democracia. São esses os problemas que vocês têm diante do trabalho de vocês. Tudo isso cria incerteza, mas também cria responsabilidade. A liberdade de imprensa é garantia para a empresa diante do abuso dos políticos, mas não é garantia para os leitores diante do abuso dos mass media. Uma sociedade justa é uma sociedade em que os mass media são livres, os jornais são livres, mas os leitores são respeitados.

Eu acho que nós podemos individualizar ao menos sete pecados capitais dos mass media] e dos jornais. O primeiro pecado capital se dá quando se ignora um fato real. Por exemplo, neste momento na França, se está introduzindo a redução da jornada de trabalho, obtendo grandes resultados. Mas os jornais de economia de todo o mundo, do Financial Times ao Sola 24 Horas, não falam nada.

O segundo pecado capital é atenuar um fato. Por exemplo, na Itália houve um assassinato no Vaticano. Mas os jornais atenuaram tudo. Por que nunca se fala mal do Vaticano?

O terceiro pecado capital é enfatizar, enfatizar os fatos. A mim, muitas vezes me fazem entrevistas. Me telefonam os jornalistas e pedem meu parecer sobre alguma coisa. E muitas vezes é para enfatizar algum fato. Por exemplo, faz duas semanas, na Itália, uma jovem matou sua mãe. Foi um episódio muito grave. Me telefonou uma jovem jornalistas e me perguntou: "Professor, frente a essa onda de matricídios, o que você pensa?" Pronto, um delito se tornou uma onda de matricídios.

Um outro pecado capital consiste em dar excesso emotivo a um fato. Transmitir excesso de emotividade, no lugar da racionalidade.

Um outro pecado consiste em falsear um fato. Por exemplo, a Itália é um dos países mais seguros do mundo. Mas neste momento, na Itália existem muitos jornais que falam de insegurança. Falam da Itália como se lá ninguém pudesse estar seguro. Pensem que a cidade de New York sozinha tem tantos homicídios como toda a Itália junta. No entanto, esses jornais estão fazendo a Itália aparecer como um país muito inseguro.

Aconteceu comigo outro dia. Fiz uma conferência para os gerentes do Rio, e disse que na vida acontece muito erotismo, entendo muita vitalidade. E esse jornal escreveu, dizendo que eu disse que "acontece muita pornografia". Pronto, este é um caso de falso real.

Enfim, o sétimo pecado dos jornais pode ser aquele de induzir um fato que sozinho não existiria. Por exemplo, neste período na Itália estamos preparando as eleições políticas. E todos jornais dizem que vai vencer Berlusconi. Isto quer dizer que Berlusconi vai vencer. Porque as profecias, como vocês sabem, se auto-realizam. Quando se repetem continuamente, as pessoas se convencem.

Mas eu acho que o pecado mais forte da mídia dos mass media é aquilo de que nós devemos nos defender muito mais, e vocês são o instrumento principal para nos defender desse problema: é a difusão que se está realizando no mundo todo de um modelo que, talvez por comodidade, chamam de modelo americano, mas que na realidade é um efeito pós-industrial. Extremamente perigoso. Esse modelo é baseado num liberalismo exasperado. Esse modelo é baseado na competitividade destrutiva e excessiva. Esse modelo comporta que a economia está destruindo a política. Este modelo comporta que as finanças estão destruindo a economia. Este modelo comporta que a velocidade está destruindo a vagareza.

Eu estive, outro dia, numa praia maravilhosa a 300 quilômetros de Fortaleza, onde tudo era maravilhoso. Tudo era deserto, mas havia uns loucos que corriam com automóveis pela praia como se estivessem correndo na Fórmula 1. Sabe por quê? Simplesmente, para ser doentes, inúteis, e estúpida velocidade. Depois, vocês sabem melhor que eu, esse modelo inclui o divinismo, isso é, o excesso de importância que se dá às pessoas, inclusive pessoas medíocres que se vêem divinizadas.

E ainda esse modelo inclui o consumismo. Um consumo excessivo, sobretudo em países pobres. Meu grande amigo, Oscar Niemeyer, disse: "eu teria vergonha se, no Brasil, fosse um homem rico. Porque não é possível ser muito rico em países onde há uma forte pobreza".

Um dos perigos, que eu chamo do modelo americano, é a perda da alegria e da sensualidade. Repito: sensualidade, e não pornografia. Não tem nada a ver com pornografia. O problema é da vitalidade. E a exasperação do medo. Eu acho que os jornais são uma grande universidade. Como eu disse. Mas podem ser muito perigosos. E um grande perigo é transformar a esperança em medo. E é uma felicidade e uma grande alegria, que transforma um medo em esperança.

Vou dar a vocês alguns exemplos. Nesse momento, existe no mundo um medo da demografia. Temos medo do fato de que somos tantas pessoas, e ter tantas bocas para matar a fome. Mas um jornal otimista pode fazer notar que tantas bocas para matar a fome correspondem a tantas cabeças que pensam. Cada dia, 6 bilhões de pessoas acordam e pensam. O pensar é sempre um grande valor.

Ainda temos medo do desemprego, mas os jornais poderiam lutar para que se reduza o horário de trabalho e todos possam trabalhar um pouco. Diferente de hoje, em que os pais trabalham 12 horas por dia e os filhos estão completamente desocupados.

Ainda temos medo da guerra. Mas os jornais poderiam fazer notar que nós aprendemos a fazer existir a paz. E aprendemos a manter sob controle as armas nucleares.

Ainda temos medo da morte. Mas os jornais poderiam fazer notar que a vida é cada vez mais comprida. Graças à biotecnologia, ficará mais comprida ainda.

Temos medo do autoritarismo. Mas os jornais poderiam fazer notar que, com a contra-informação, o autoritarismo pode ser vencido.

Temos medo da globalização. Mas os jornais poderiam fazer notar que, ao lado da globalização, vem a identidade. É isso que é necessário. Melhorar e muito, não só a dimensão pessoal, mas a dimensão universal do homem.

Naturalmente, tudo isso pede grande empenho por parte dos jornais, sobretudo dos proprietários dos jornais. Acontece uma extraordinária formação de profissionais, permanente. Não basta uma formação de uma vez por todas. O jornalista deve ter tempo para sua própria formação. Doutro modo, termina sendo um instrumento incapaz na mão de diretores, que usam esse instrumento e depois o descartam quando não serve mais.

Acontece a ética dos dados. Jornalistas devem partir de dados sérios e concretos. Não se pode inventar estatísticas. Deve-se partir de dados seguros. Deve-se se transformar a redação do jornal em grupos criativos, em grupos nos quais convivam fantasias e as coisas concretas, o entusiasmo e a liberdade.

Por outro lado, deve-se defender profundamente a liberdade e a identidade de todos os países. O Brasil tem direito à sua própria identidade, assim como a Itália tem direito à sua identidade.

Um outro valor fundamental é o da estética. Os jornais devem ser bonitos de modo a difundir para a humanidade o sentido da beleza. A estética é a coisa que mais se encarrega da nossa felicidade. Vocês viram quanta felicidade nos deram estas personagens que estiveram antes de mim, neste palco. Vocês viram quanta felicidade nos deu o desfile de modas ontem à noite.

Acontece ainda o que eu chamo de o ócio criativo. Não é a preguiça. Não significa não fazer nada. Não significa a inércia. Significa a capacidade de transformar o trabalho numa brincadeira; o trabalho, em estudo. Significa a capacidade de brincar, trabalhar, estudar, contemporaneamente.

Ainda outras duas virtudes que acontecem para os jornalistas. Uma é a modéstia. Muitas vezes, o jornalista é enfermo do delírio de onipotência. Ao invés de uma grande modéstia. Uma das pessoas mais geniais do Brasil, Oscar Niemeyer, um grande arquiteto, escreveu no seu estúdio: "A arquitetura não é tudo. A única coisa que conta são os amigos e este mundo injusto que devemos modificar". Então, isso mesmo se pode dizer do jornalismo, ou da sociologia. Isto é, não conta somente o jornalismo, a sociologia, mas a vida, os amigos e esse mundo injusto que devemos modificar.

Uma última recomendação que farei aos jornalistas - e os jornalistas brasileiros são muito bons nisso - é valorizar extremamente o humor, a ironia. A ironia é a forma mais sutil e maior da inteligência. No Brasil, temos os grandes autores de humor. E para concluir com humor, mas lembrando o jornalismo, queria concluir lendo os títulos de um grande jornal francês, L' Humanité.

Títulos de 9 a 22 de março de 1815:

9 de março: "O tigre se mostra como se fosse um gato. As tropas estão avançando de todas as partes para parar a sua caminhada. Ele terminará a sua miserável aventura atrás das montanhas".

12 de março, o título era: "O monstro avançou até Grenoble".

13 de março, o título era: "O tirano está agora com os leões. O terror comove todos os seus companheiros".

18 de março, o título era: "O usurpador está a avizinhar-se até 69 horas da capital".

19 de março, era: "Bonaparte avança a etapas forçadas, mas é difícil que alcance Paris".

20 de março, o título era: "Napoleão chegará até os muros de Paris".

O 21 de março, o título era: "O imperador Napoleão em Fontainebleau".

O 22 de março, o título era: "Ontem à noite, sua majestade, o Imperador, fez seu ingresso público e chegou às Tulherias. Nada pode superar a alegria universal".


* Domenico De Masi é professor da Universidade la Sapienza de Roma, autor dos livros Desenvolvimento sem Trabalho, A Emoção e a Regra e O Ócio Criativo, editor da revista Next - Strumenti per l'innovazione <http://www.nextonline.it>. Transcrição da palestra com base na tradução de Mário Teran sobre a gravação original em italiano da fita cedida pela jornalista Ariadne Araújo, do O Povo, aos quais somos gratos. Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.


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