Sala de Prensa


17
Marzo 2000
Año III, Vol. 2

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

A R T I C U L O S

   
   


O cimiento da pirâmide:

Ultrapassando a forma para chegar
à lógica do método jornalístico

Marcelo Soares *

"As pessoas tendem a colocar palavras onde faltam idéias"
Goethe, citado na Carta Capital de 10/11/99

O jornalismo tem sido percebido, criticado e pesquisado, década após década, como um fenômeno da linguagem. Esta, por sua vez, é o material que dá forma ao conteúdo jornalístico. Os críticos da imprensa costumam condenar o conteúdo que ela veicula, é claro. Mas o fazem de certa maneira julgando apenas a forma do texto jornalístico, e o fazem tendo como padrão certa literatura — da qual o jornalismo, por não ter status de arte na forma, é considerado um subproduto.

Florestas de papel e rios de tinta foram gastos em análises do jornalismo até hoje. Poucas tentaram ultrapassar a forma e compreender os fundamentos do jornalismo. Mais uma vez, os teóricos ditos críticos entenderam mal o que o filósofo alemão Karl Marx quis dizer quando escreveu que os filósofos preocupam-se muito em entender o mundo quando o importante é transformá-lo. As teorias da conspração de vertente frankfurtiana, semiologizadora ou pós-moderna perdem tempo criticando a forma do jornalismo, quando poderiam procurar entender sua lógica para que aí, sim, seja possível transformá-lo.

As críticas ao lead são um caso clássico disto. Um professor do Instituto de Letras da Ufrgs costumava afirmar que "texto jornalístico é um formulário que a gente preenche" para alunos do primeiro semestre da faculdade de jornalismo. Em uma lista de discussão de estudantes de jornalismo, na Internet, uma estudante carioca escreveu: "meu professor diz que o lead foi feito para os preguiçosos não terem acesso às informações mais importantes". Enquanto isso, outro professor costumava desafiar os estudantes na primeira aula de redação jornalística. Dizia ele que aceitava que um aluno fosse contra o lead. Mas o ônus da prova ficaria nas mãos do acusador, que deveria apresentar algo melhor para colocar no lugar.

Adelmo Genro Filho, em "O Segredo da Pirâmide", virou a pirâmide invertida de cabeça para cima e, ao expor a lógica por trás do lead, expôs a ingenuidade das críticas então vigentes em relação ao texto jornalístico. O importante e fundamental para o jornalismo como é conhecido hoje — uma forma de conhecimento social a partir da singularidade dos eventos — é exatamente a lógica de partir da singularidade e depois ir particularizando. Quer dizer: antes de ser uma forma esquemática de texto, o lead é a expressão formal de um raciocínio lógico que dá base à forma de conhecimento própria do jornalismo. O próprio Genro reconhece que, por ser um pressuposto filosófico, o lead não precisa estar na forma "Fulano-disse-isto-ontem-em-tal-lugar" e nem estar no começo do texto. Mesmo assim não recomenda nada, não dá fórmulas pré-prontas, não dá margem à crítica formal. O ônus da prova ainda fica com quem inventar um jeito melhor de fazer.

A questão da objetividade é outro ponto em que todos têm opinião formada, ninguém se entende e não existe a possibilidade de erro. Proponha o tema a uma roda de jornalistas ou estudantes de jornalismo e veja se a maioria não será contra antes de ouvir qualquer argumento.

O Novo Jornalismo, como foi chamado o trabalho de jornalistas como Gay Talese e Norman Mailer, é considerado por muitos como a mais importante crítica já feita à objetividade jornalística. Esses jornalistas aproximaram o relato de fatos reais ao modo de escrever próprio da literatura, permitindo artifícios narrativos como monólogo interior. Everett E.Dennis afirmava, nos anos 70, que esta modalidade de jornalismo seria melhor descrita como "a nova não-ficção". Devido a suas próprias dificuldades de apuração e redação, a não-ficção ao estilo do Novo Jornalismo foi deixada um pouco de lado mais recentemente.

Todos os estudos já feitos até hoje, tanto lingüísticos quanto psicológicos, com maior ou menor rigor, demonstram que não há como escrever um texto objetivo. Isto é: um texto que possa ser percebido globalmente como a expressão da verdade. "Um jornalismo que fosse a um só tempo imparcial, objetivo e verdadeiro excluiria qualquer outra forma de conhecimento, crianto o objeto mitológico da verdade absoluta", escreveu Nilson Lage em "Ideologia e Técnica da Notícia".

Estudos que contestem a noção de objetividade são louvados e apoiados pelos teóricos pós-modernos, que afirmam que a realidade é uma falácia. Para eles, a percepção individual de cada um, condicionada por preconceitos e outros psicologismos, molda as concepções que cada qual tem sobre o mundo. A realidade, assim, seria transformada pelas descrições que se faz dela. Na carona do vale-tudo pós-modernoso, grupos de pressão assediam os jornalistas exigindo que deficientes físicos sejam chamados de pessoas portadoras de deficiência física e que doentes de aids sejam chamados de soropositivos (tal como os ratos que transmitem a leptospirose). Ao receber um release do Hospital Psiquiátrico São Pedro falando sobre as atividades desenvolvidas não por seus internos ou pacientes, mas por seus "moradores", o chefe de reportagem do Correio do Povo ironizou: "só falta começarem a cobrar taxa de condomínio e imposto predial dos louquinhos".

Gaye Tuchman, no artigo "A objetividade como um ritual estratégico", mostra os artifícios textuais que os jornalistas usam para poder dizer que o que escreveram é objetivo. Boa parte do trabalho da autora baseia-se na análise da influência das relações interorganizacionais sobre o trabalho jornalístico. Em seu estudo sobre as noções de objetividade dos jornalistas, Tuchman levou em conta três fatores: a forma (artifícios textuais como aspas e verbos dicendi), o conteúdo (que ela entende por idéias prévias subconscientes do jornalista) e as relações interorganizacionais que são o cerne de seu trabalho. A autora compara estes artifícios a rituais, porque seu uso tem pouca importância, ou importância marginal, no resultado a que se chega. Gaye Tuchman não propõe um conceito de objetividade que resolva essa dissonância, mas isto é perdoável se levarmos em conta que seu trabalho foi feito com base apenas nas noções de objetividade dos jornalistas entrevistados por ela. O trabalho é particularmente importante principalmente se considerarmos os estudos do professor norte-americano David Mindich. Em um livro publicado em 1999, ele analisa a história da imprensa dos Estados Unidos e demonstra que o conceito de objetividade foi fundamental no desenvolvimento do jornalismo daquele país.

A análise de Gaye Tuchman é considerada por muitos a prova cabal de que a objetividade jornalística é um mito, um ritual de pouca importância. Sem dúvida, é um texto importantíssimo. Mas e se ele não for o epitáfio da noção de objetividade? Tuchman analisou os procedimentos formais que os jornalistas apontam quando reclamam de seu trabalho, como o uso de aspas em citações e igualdade de ênfase e de espaço. Este tipo de estratégia para clamar objetividade tem sido duramente criticado de todos os ângulos possíveis pelo menos durante os últimos quarenta anos. Assim, pode-se considerar que a análise de Tuchman é uma das provas mais consistentes de que a objetividade formal é facilmente forjável — portanto, duvidosa. Mas então, pode-se perguntar, vale tudo no jornalismo? Os jornalistas sentam em frente de seus computadores e inventam a realidade? Não é bem assim.

Philip Meyer, que defende e comprova em "The New Precision Journalism" a possibilidade do uso do método científico para impulsionar o trabalho do jornalista, analisa em um artigo de 1995 as várias teorias ditas críticas, principalmente as de vertente habermasiana, que negam a possibilidade da objetividade no jornalismo. Para Meyer, a objetividade que elas criticam é "de fato, objetividade de resultado, definindo a objetividade não pelo modo como fazemos nosso trabalho de obter e interpretar os fatos, mas pela forma como os colocamos no papel. Inclusive se pode medir: tantas linhas para este grupo, tantas para aquele. Em um esforço para sermos honestos, polvilhamos nossas fontes para produzir tantos efeitos quantos possamos". A crítica de Meyer converge com o ritual estratégico apontado por Tuchman.

Meyer, no texto mencionado, diz que a objetividade de método (não a formal ou ritual) é o que falta ao jornalismo. Ele chegou ao cerne da questão, à lógica do conceito. Seu exemplo no livro "A Ética no Jornalismo" é claro: a objetividade formal, demonstrada por Gaye Tuchman e comparada a um ritual estratégico, dá o mesmo peso às declarações da indústria do cigarro e às do Ministério da Saúde ao dar-lhes o mesmo espaço para que defendam seus argumentos.

Na objetividade de método proposta por Meyer, as declarações são testadas com a realidade, com os fatos. Para ele, os jornalistas podem e devem valer-se do método científico para melhorar a qualidade de boa parte de seu trabalho. Por método científico, aqui, entende-se o processo que vai da observação à conclusão passando necessariamente pela formulação e teste de hipóteses com os dados da realidade. Não contente, o velho repórter e professor da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill diz que o jornalista deve deixar claro em seu trabalho qual foi o caminho que seguiu para chegar às suas conclusões — ou, como queiram, ao seu lead. Assim, quem quisesse questionar a validade do trabalho do jornalista ou acusá-lo de má intenção tem no próprio texto todo o mapa do caminho feito pelo jornalista, que poderia ser refeito e, de preferência, levando às mesmas conclusões. Na ciência, este princípio chama-se "replicabilidade".

As aspas estratégicas de Gaye Tuchman são importantes. Elas fazem parte da linguagem já codificada do jornalismo impresso, tanto quanto o corte e a fusão fazem parte da linguagem codificada do cinema. Mas não é objetivo deste artigo discutir linguagem, discutir forma do texto jornalístico. Existem centenas de livros escritos sobre isso. O objetivo aqui é compreender um dos fundamentos da forma de conhecimento social própria do jornalismo. E para chegar a este nível de debate, é preciso ultrapassar a forma.

Que tal se substituíssemos a noção de objetividade por algo com a mesma lógica mas um nome diferente para retirar o ranço histórico do termo? O especialista em política internacional Dani Rodrik, em entrevista à revista CartaCapital, afirmou o seguinte sobre o termo "globalização": "ou você o ama ou o odeia; uma vez que um termo se torna escorregadio numa discussão, o discurso racional tende a desaparecer". Rodrik propõe, para manter a discussão em um nível civilizado, que se fale em "internacionalização" para não cutucar ânimos acirrados.

Yves Mamou, editor de economia do Le Monde, escreveu certa vez que "o problema da imprensa não é de objetividade, e sim de exatidão". A frase é bastante verdadeira e a idéia parece fechar até certo ponto com a objetividade de método de Philip Meyer.

Apenas com uma discussão racional sobre a objetividade de método, ou exatidão jornalística, poderemos chegar perto de compreender parte dos fundamentos lógicos do jornalismo para que se possa analisá-lo com mais propriedade. O parâmetro aqui é o que fez Adelmo Genro Filho para compreender a lógica do lead: chutou com força as amarras formais da pirâmide invertida para, colocando-a de pé, descobrir o segredo da pirâmide.

Descobrindo a lógica do método jornalístico, poderemos chegar perto de ver o cimento da pirâmide.

_________
Bibliografía

GENRO FILHO, Adelmo. O Segredo da Pirâmide. Porto Alegre, Tchê, 1988.

LAGE, Nilson. Ideologia e Técnica da Notícia, 3ª edição. 1998.

MEYER, Philip. A Ética no Jornalismo. 1987 (ed.bras. Rio de Janeiro: Forense,1991)

____________. The New Precision Journalism. EUA: Indiana University Press,1991

____________. Public Journalism and the problem of objectivity. 1995

TUCHMAN, Gaye. A Objetividade como um ritual estratégico. 1972

_______________. La producción de la noticia. 1978


* Marcelo Soares é o responsável pelas pesquisas na Internet na redação do jornal Correio do Povo e aluno do curso de jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.


Tus comentarios, sugerencias y aportaciones
nos permitirán seguir construyendo este sitio.
¡Colabora!



| Volver a la página principal de SdP |
|
Acerca de SdP | Periodismo de Investigación | Etica y Deontología |
|
Derecho de la Información | Fuentes de Investigación |
|
Política y gobierno | Comunicación Social | Economía y Finanzas |
|
Academia | Fotoperiodismo | Medios en Línea | Bibliotecas |
|
Espacio del Usuario | Alta en SdP |
|
SdP: Tu página de inicio | Vínculos a SdP | Informes |
|
Indice de Artículos | Indice de Autores |
|
Búsqueda en Sala de Prensa |
|
Fotoblog |

© Sala de Prensa 1997 - 2008


IMPORTANTE: Todos los materiales que aparecen en Sala de Prensa están protegidos por las leyes del Copyright.

SdP no sería posible sin la colaboración de una serie de profesionales y académicos que generosamente nos han enviado artículos, ponencias y ensayos, o bien han autorizado la reproducción de sus textos; algunos de los cuales son traducciones libres. Por supuesto, SdP respeta en todo momento las leyes de propiedad intelectual, y en estas páginas aparecen detallados los datos relativos al copyright -si lo hubiera-, independientemente del copyright propio de todo el material de Sala de Prensa. Prohibida la reproducción total o parcial de los contenidos de Sala de Prensa sin la autorización expresa del Consejo Editorial. Los textos firmados son responsabilidad de su autor y no reflejan necesariamente el criterio institucional de SdP. Para la reproducción de material con copyright propio es necesaria, además, la autorización del autor y/o editor original.