Sala de Prensa

129
Agosto - 2010
Año XI, Vol. 6

WEB PARA PROFESIONALES DE LA COMUNICACION IBEROAMERICANOS

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Entrevista com Olga Guedes Bailey

Comunicação para a solidariedade

Flamínio Araripe *

Desde que fez um jornalzinho e biblioteca numa comunidade da periferia de Belo Horizonte nos anos 1982 a 1985, Olga Guedes Bailey tem interesse na chamada mídia alternativa. Na época fazia mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em Comunicação na área de Educação. Teve então muita influência do trabalho de Paulo Freire, orientação marxista e de educação popular.

Recibe nuestras noticias diarias sobre periodismo y comunicación. ¡Únete a SdP en Facebook!Hoje professora da Trent University de Nottinghan, Reino Unido, onde dirige o mestrado Mídia e Globalização, Olga Bailey coordena o grupo de trabalho Diáspora, Mídia e Migração da Associação Européia de Pesquisas em Comunicação e Educação (Ecrea). Publicou em 2007 os livros “Transnational Lives and the Media: re-imagining diaporas” pela Palgrave-MacMillan (UK-USA) e “Understanding Alternative Midia” em colaboração com B. Cammerts, pela Open University Press (UK-USA).

De 1979 a 1988, Olga Bailey lecionou na Universidade Federal do Ceará (UFC) e em outras universidades no Brasil e Inglaterra. Hoje Olga Guedes Bailey prepara o livro Mídias e Etnias: representação social e resistência, para a Palgrave-MacMillan, e trabalha com mídias alternativas, políticas de comunicação voltada para internet.

A internet abriu espaço na mídia alternativa para a expressão de identidades e militância? Como se aplica a sua análise neste contexto?

Olga Guedes Bailey - Uma primeira observação que quero fazer é com relação à celebração da tecnologia. No meu trabalho estou falando muito da tecnologia, mas não mitificação ou celebração como se a tecnologia resolvesse nossa vida. Ela resolve na medida que as pessoas se apropriam da tecnologia.

Por exemplo, este ano saiu um capítulo meu no livro Citzen Jornalism: Global Perspectives (Peter Lang Press, USA). No texto, Citizen Journalism and Child Rights in Brazil, faço uma análise da experiência de uma ONG de Fortaleza, a Comunicação e Cultura (CulturaCom), de Daniel Raviolo, que desenvolve trabalho de jornalismo para crianças com a produção de jornais escolares. O livro enfoca a tecnologia interferindo como suporte nessas experiências. Precisamos ter cuidado pois nos países em desenvolvimento muitas destas práticas não são baseadas na internet mas sim na mídia tradicional: rádio e jornais impressos com uma função importante dentro da comunidade. No trabalho da ONG CulturaCom agora é que estão tentando desenvolver um jornalzinho on line.

A comunicação pode atingir um nível mais amplo além da comunidade onde é gerada a mídia alternativa?

OGB - Sabemos que essas comunicações têm dois caminhos que podem seguir. Um é ficar em guetos de comunicações alternativas que são escutadas apenas entre elas. Ninguém mais escuta, ninguém mais ouve aquela voz. Até que ponto elas são eficazes em termos de mudança para aquela comunidade ou enquanto movimento social é uma questão que as pesquisas ainda não responderam.

Fiz um trabalho nesse livro que publicamos em 2007 falando sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). O MST tem rádio, tem jornal, tem aplicações na internet. Mas quem realmente está vendo, quem está lendo aquilo? Tem que ter esse cuidado para essas mídias não ficarem dentro de um gueto que não chegam àqueles que fazem as políticas públicas e que controlam a informação.

O outro lado é que elas também possibilitam a criação de ‘nós’, como os das redes de comunicação. Em termos de tecnologia, acho que são importantes estes pontos que se criam. Esses pequenos grupos daqui se comunicam com grupos de outros países, que chamo de Comunicação Transnacional, uma área em que eu trabalho muito. São coisas fundamentais para definir o que é comunicação alternativa, mídia alternativa no contexto da era digital.

Ao falar de mídia alternativa, será que estamos usando o mesmo conceito? Não se pode falar de uma experiência como a de Daniel Ravioli e comparar com a de comunidades Digital Storytelling nos EUA. Elas têm de certa forma alguma coisa em comum. Mas não são iguais. Elas têm objetivos diferentes, plataformas de comunicação diferentes. Por isso é preciso estar clara a definição nessas mídias. Em termos globais é preciso criar uma conversação multilingual, de significados múltiplos e de possibilidades de abrir espaços.

Se pensarmos que a mídia alternativa que se usa aqui só tem influência aqui, acho que o projeto de mudança ou/e resistência fica capenga. Tem de pensar em alianças políticas onde informação, enquanto capital social, é trocada. Os projetos muito fechados falham muito nisso.

Quais as outras áreas enfocadas nas suas pesquisas?

OGB - Em termos de pesquisa, esse livro que publiquei em 2007 é só sobre mídia alternativa. Tenho muito interesse na realidade do imigrante. A partir desse interesse trabalho com Internet, política pública, mídia e comunicação, como as pessoas têm acesso às mídias. Mesmo nos países altamente desenvolvidos com democracia altamente estabilizadas são encontrados grupos que não têm acesso, não têm voz.

Quando estava em Liverpool, trabalhei com uma comunidade de latino-americanos. Investiguei como se sentiam com relação à mídia em visibilidade, e por serem representados de forma negativa. Tudo isso faz parte desse ponto de política de comunicação sempre na perspectiva do político e do econômico.

Hoje trabalho com as mulheres africanas que pediram asilo político e vivem na Inglaterra, refugiadas da Somália, Zimbabwe, Congo, principalmente países onde têm problemas políticos. As mulheres desses grupos onde trabalho são muito ativas politicamente. Tenho dado apoio para que desenvolvam a comunicação para chegar ao governo local, para mostrarem o trabalho delas. Esse é um lado do meu trabalho.

E o outro?

OGB - O outro é a pesquisa com Internet: tenho pelo menos quatro alunos de doutorado trabalhando só com questão da Internet. A abordagem abrange desde a criação de novas identidades, questões de consumo e como os significados culturais de uma determinada cultura se transformam com a Internet, tema do trabalho de uma aluna da China.

Existe tendência de intercessão entre a grande mídia e a mídia alternativa?

OGB - Acho que devemos ver a comunicação em um continuo de A a Z: num extremo temos a grande mídia (corporações) que detém o poder simbólico para a grande massa e no continuo, encontramos várias práticas de mídias alternativas, que, dependendo de seu caráter político nem sempre estão em oposição à grande mídia. Por exemplo, hoje existem mídias alternativas que possuem alianças temporárias com a mídia estatal (tipo BBC).

A BBC tem um espaço na Internet que é disponível para as pessoas contarem a sua história. Ali, por exemplo, os indianos resolvem contar a sua história. Vira um arquivo público. Contar história é uma coisa antiga. O novo é usar essas plataformas para criar outras possibilidades. A BBC se alinha com comunidades para fazer alguma coisa por aqueles grupos, dar voz àqueles grupos. Faço uma crítica: apesar de todo o esforço, a BBC ainda é, em parte, a televisão inglesa que tem a mentalidade do inglês branco de classe média, educado, apesar de aqui e a ali termos um negro ou um indiano. Neste sentido, ainda é uma instituição com uma identidade nacional que não abraça totalmente a diversidade cultural do país.

Nesse contínuo, temos que ver que a comunicação mudou. Mudou pela conjuntura da globalização, pelas tecnologias de comunicação, pelas culturas individuais que começam a ver que têm outras possibilidades de se comunicar e de se informar, que não é só através do jornalista. O papel de contador de histórias do jornalista hoje é dividido com as pessoas comuns. Quem tem acesso pode fazer um blog. Enfim, essa discussão não tem mais novidade. O que não está bem pesquisado ainda, e outros colegas têm a mesma opinião, é sobre o quanto essa comunicação tem ajudado no nível político a criar espaços de voz para essas comunidades e até que ponto essas vozes são escutadas pelo governo, no sentido de legitimação e reconhecimento destes grupos.

Esse é  o ponto crucial que estamos explorando, olhando como se dão os processos de mediação, olhando a relação entre as mídias alternativas e a vida cotidiana. Escrevi um texto com uma análise do cotidiano dessas pessoas excluídas, como elas lidam com a grande mídia e ao mesmo tempo procuram produzir a mídia delas e percebemos que neste processo elas saem mais fortes nas suas identidades sociais, coletivas.

Procuro ver neste contínuo o ponto onde as pessoas vão ter um diálogo, uma conversação, se pensamos que a comunicação é para facilitar a democracia e, no Brasil, para facilitar a resolução das questões de diferenças sociais muito fortes, como suporte aos movimentos sociais. E facilitar os próprios comunicadores a entenderem melhor o processo e não ficarem na distinção antagônica entre a grande mídia e as pobres mídias alternativas. Temos todos que entender e aceitar que a forma de fazer comunicação e jornalismo mudou com a quebra do tradicional circuito de comunicação: produtor, texto e audiência. Neste novo contexto, o jornalismo ainda tem uma função importante mas tem outras formas de comunicação que também devem ser respeitadas e trazidas para esse contínuo com o intuito de democratizar ainda mais a comunicação.

No Encontro Nacional de História da Mídia, no texto Mídias Alternativas, Alternativas Midiáticas, a senhora afirma que contar histórias é o cerne da comunicação. Conversar, assim, sem embevecimento com a tecnologia, traz a ênfase para o ser humano se apropriar de valores e expressar sua verdade no seu grupo. Aponta como grande desafio levar essa articulação ao nível mais amplo da sociedade.

OGB Por trás deste texto há uma discussão teórica sobre mediação e mediatização, Como também uma prática empírica. Penso muito nas minhas mulheres africanas. Estamos juntas fazendo um documentário em que elas contam histórias sobre suas vidas antes e depois de virem para a Inglaterra. A ONG desta comunidade, a Nawef, da qual sou vice presidente do conselho comunitário, pretende colocar o documentário não somente on line para facilitar a comunicação com outros grupos de migrantes mas também produzir DVDs para distribuir entre as autoridades locais, Organizações Não-Governamentais, universidades, etc mostrando o trabalho positivo que estão fazendo mesmo na condição de destituídas (entre outras ‘faltas’, a negação de acesso a trabalho, portanto sem renda fixa) imposta pelo governo. Esse processo de contar estórias de alguma forma dá esperança, reforça identidades, e aumenta o sentimento de solidariedade entre elas e a comunidade externa.  E assim fortalece o movimento. Em parte, é uma pratica de ‘digital storytelling’

O que é Digital storytelling?

OGB É, na visão de Lambert, uma técnica para desenvolver o diálogo entre gerações, diferentes etnias e outras diferenças bem como um instrumento para ativistas de movimentos sociais, comunidades, educadores e como um exercício de reflexão para profissionais de comunicação. A estória alternativa digital é uma ferramenta com diversos usos, mas não é ainda fácil de entender as conseqüências sociais e políticas de seu uso. Neste sentido, a ligação entre as estórias digitais e democracia é articulada pelo caráter, em parte político da prática de trocar estórias nas comunidades através dos “círculos de estórias”. 

Em termos de alternativa midiáticas não tem muita coisa nova. O que muda é  o foco: sair da tecnologia para o que as pessoas estão fazendo. Neste aspecto é o que estou fazendo. No plano teórico minha intenção é examinar como essa tecnologia está ajudando as pessoas a conversarem. Nesse processo de mediação cabe investigar o significado da mensagem, dos sentidos, mas essencialmente procuro ver, no caso das mulheres africanas, como elas estão conversando com outras mulheres do mundo inteiro. O que acontece com isso?

Por exemplo, o Brasil tem uma tradição de mídia alternativa muito grande. Por que se continua falando em mídias alternativas? Creio que por conta de seu papel de agente democrático da comunicação, onde a tecnologia simplesmente potencializa a ampliação de voz, na possibilidade de trocar conversas numa conversação global. Tira-se a ênfase das tecnologias e volta para as pessoas.

Como é seu trabalho com as mulheres africanas em Nottingham?

OGB - São várias iniciativas que vão criar as condições de se contar uma história que atinja as pessoas do outro lado, que crie solidariedade. Para mim, a palavra solidariedade é muito forte não só no sentido político mas humano também. Para criar solidariedade entre as pessoas, para que elas sejam solidárias com a sua causa, elas têm que saber o que você está fazendo. Se você quer que elas doem dinheiro, tempo, conhecimento, elas têm que saber que o seu trabalho é importante.


* Flamínio Araripe é jornalista, com predileção em área de ciência, tecnologia e informática. Escreve sobre Tecnologia da Informação na Gazeta Mercantil Ceará, onde assina a coluna Conectividade, e colabora no Jornal da Ciência, da SBPC, e no SdP.


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